quarta-feira, janeiro 23

O livro nem sempre foi democrático


Que o livro se democratizou é uma realidade inquestionável. Hoje em dia, tem-se acesso aos livros um pouco por toda a parte. Quase poderei dizer que, actualmente, toda a gente sabe o que é um livro. Não digo que todos tenham lido um livro, mas, provavelmente, já viram ou até já lhe tocaram. Quando comecei a trabalhar em livrarias, há mais ou menos 28 anos, ainda existia gente que tinha receio (não sei bem porquê) de entrar nesse local “sagrado” que eram as livrarias. Não que não houvesse, por parte dessas pessoas, interesse pelos livros, mas a verdade é que era muito mais por mera curiosidade, como aquela que se sente por aquilo que sabemos não poder atingir, do que por um verdadeiro empenho em os adquirir. Podem achar exagerado, mas a verdade é que essas pessoas apenas olhavam para a montra e, quando muito, através dela para dentro da loja. Como quem olha para um clube privado inglês, a que só alguns têm acesso, cheio de gente com poder, um pouco excêntrica por gostar daqueles artefactos estranhos, que contém segredos inescrutáveis, só ao alcance da sabedoria, entendimento e carteira de alguns privilegiados. Obviamente, havia aqueles mais afoitos que se atreviam a entrar, a medo, muito discretamente, olhando em volta, deslumbrados por aqueles objectos cheios de cores que, para eles, sempre tinham sido intangíveis. Com muito respeito, humildade, servis e as palavras escolhidas, nunca tocavam nos livros sem antes pedir autorização, depois voltavam, com muito cuidado, a colocá-los no mesmo lugar, como se fossem frágeis, como copos de cristal. Sem darem conta, revelavam a sua condição quando ousados comentavam:
- Que linda papelaria o senhor aqui tem! E os livros são todos ao mesmo preço?

Curiosamente estes tempos parecem querer estar a voltar (agora por motivos económicos) aos dias do velho livreiro, já falecido, que me contava a história de como antigamente, não há tantos anos assim, durante o Estado Novo, eram poucos os que entravam nas livrarias e aqueles que entravam nem sempre eram clientes. Acrescentava:
- Naquele tempo, havia livros proibidos, que se vendiam unicamente por debaixo do balcão, eu só os vendia quando tinha a certeza de que era mesmo um cliente que tinha à minha frente, não fosse ser apanhado.
Perguntei-lhe como conseguia distingui-los. Disse-me:
- A maior parte, já os conhecia, eram sempre os mesmos; mas, em caso de dúvida, tinha um método infalível para os distinguir. Fazia-lhes, dissimuladamente, um pequeno teste de cultura geral, antes de lhes dizer se tinha ou não o livro. Se passassem no teste, eram clientes, se não passassem, eram agentes da PIDE.

Jaime Bulhosa

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