sexta-feira, novembro 27

Para que não tenham que bater com a mão na testa


Má Sorte de Solteiro

Parece tão terrível ficar solteiro transformar-me num velho que luta para manter a sua dignidade enquanto suplica um convite sempre que quer passar uma noite acompanhado, ficar na cama doente a olhar, do canto onde a cama está, para um quarto vazio durante semanas, tendo sempre que dizer boa-noite à porta de casa, nunca correr escada acima ao lado da minha mulher, ter apenas portas laterais na minha sala que vão dar à sala de estar de outras pessoas, ter de levar o meu jantar na mão para casa, ter de admirar os filhos dos outros sem sequer me ser permitido dizer: «Eu não tenho nenhuns», moldando-me segundo a aparência e o comportamento de um ou dois solteirões recordados da minha juventude. É assim que será, excepto que, na realidade, tanto hoje como mais tarde, estarei ali com um corpo palpável e uma cabeça verdadeira, uma testa verdadeira, ou seja, para lhe bater com a minha mão.

Franz Kafka

Nota: Entre 1914 e 1924, Franz Kafka esteve três vezes perto do casamento. Desistiu sempre. Tentou primeiro por duas ocasiões com Felice Bauer, uma alemã com quem se correspondeu até 1917. E uma última vez com Milena Jesenská uma mulher muito mais nova que ele. Morreu solteiro e sem filhos no dia 3 de Junho de 1924, com apenas 41 anos no sanatório Kierling perto de Klosterneuburg na Áustria.

Um comentário:

madmax disse...

Excelente Post.

Costumam dizer que o essencial nem sempre é curto e directo, mas depois deste post o que dizer!?
Nada que seja assim tão determinante em Kafka, mas se calhar algo que tudo determinou.
Um dos melhores posts que li, sem dúvida e parece-me ser escrito por alguém com uma certa profundidade.
Mais uma vez sublinho a importância da referencia aos relacionamentos ou quase relacionamentos...
Não sei o que dizer mais além da extrema importância e significado que tais palavras têm à luz de Kafka.

Parabéns pelo bloge.

saudações.

madmax