sábado, dezembro 19

a cicatriz do ar


Jorge Fallorca, 15-6-1949. Poeta e tradutor, com a viragem do século – que se antecipou a lavrar-lhe o corpo, Água Tatuada (& etc, 1999) – entregou-se à irremediável vagabundagem, denunciada pelas esclarecidas mentes que julgaram vislumbrá-la em Imitação da Morte dos Outros (& etc, 1976, esg.) e A luva In Love (Assírio & Alvim, 1977 esg.).
Tão avesso às opiniões descartáveis como à vida requentada, não resistiu à tentação de opinar sobre as artes em jornais defuntos, e de se decantar em estações de rádio onde cultivou uma surdez galopante que o remeteu para o sussurrar das vagas e das alfarrobeiras. Reeditados os títulos esgotados – Fruta da Época (frenesi, 2001) -, ainda lhe deram a oportunidade de se distanciar de tudo e de todos, com Entre Chipiona e Tarifa (Teorema, 2002), Al-Khaïma (Teorema, 2004) e Longe do Mundo (frenesi, 2004), para finalmente poder repetir uma discreta existência entre o Algarve e Tânger.


«Pensando bem, devo ter consumido umas largas centenas de livros. A timidez – apoiada no pudor da banalidade pode ser interpretada como pretensiosa – inibe-me afirmar que me devem ter passado pelas mãos uns bons milhares. De livros, e não de autores, que devorei e esqueci, ou perdi ao longo de sucessivas etapas e interesses, nem sempre suscitadas por outros livros ou outros autores.

Os livros são como todos os vícios: a dado momento poucos nos retêm. E são precisamente essas excepções que nos comprometem, nos impelem à expectativa dos enunciados. Esse filão é que nos alimenta o prazer da leitura, compulsiva, quase visceral, desde que aprendemos a ligar as letras e dispensa a atrocidade (a veleidade) de qualquer explicação. (…)

(…) Entretanto, os livros continuam amontoar-se à minha volta. Comprados, oferecidos ou trocados – poucos merecem a generosidade de pertencerem a alguém -, são uma presença indissociável da minha; indispensável e tranquilizadora extensão de mim mesmo, objectualizada pelo volume, a dimensão, a dimensão, a qualidade do papel, o fascínio gráfico, o apelo da capa que nos assegura a disponibilidade do olhar e do tacto.»


Edição: Autor
Título: a cicatriz do ar
Autor: Jorge Fallorca
N.º pág. 92
Pvp: 10.00€

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