terça-feira, dezembro 8

O isco



De camisa escancarada, peito aberto para o cordão banhado a ouro, sorriso de Alfama e bigode da Mouraria, Alfredo encostava-se todas as manhãs, durante um bom par de horas, junto à montra da livraria que julgava ser uma papelaria. Fazia-o para conquistar uma rapariga que andava a catrapiscar há já umas semanas e que acreditava que, por destino, haveria de ser sua mulher. As outras, isto é, as freguesas da papelaria, não lhe interessavam - eram quase sempre senhoras casadas e, mesmo que não fossem, estavam muito acima das suas posses culturais. Alfredo deixava-se estar ali, encostado à montra, sem fazer nada, como quem está com uma cana de pesca na mão à espera que lhe mordam o isco. Só que, em vez das ondas, olhava estupefacto para aquela estranha gente que ia e vinha ver os livros. Os dias e as semanas iam passando, e o peixe não mordia. Passava-se qualquer coisa… era isso! Se a sua presa navegava num mar de letras, o isco teria de ser outro. Numa das poucas vezes em que tinha entrado na papelaria, Alfredo lera, num livro de citações, a seguinte frase: «A arte de agradar é a arte de enganar.» Fez-se luz. Não pensou duas vezes e comprou o livro. Colocou-o debaixo do braço, de forma a adorná-lo melhor, juntamente com o anel de rubi negro, que deveria ser vermelho e por isso era de plástico, a pulseira a imitar ouro e o pente madrepérola, posicionado estrategicamente no bolso traseiro das calças bege, de pinças, sempre pronto, caso fosse necessário ajeitar a onda de cabelos pretos que lhe enfeitavam a cabeça vazia. Assim, o isco ficaria perfeito. Nada seria demais para atrair aquela que um dia haveria de ser sua companheira eterna, satisfazendo ao mesmo tempo o desejo repetido de sua mãe:

-Vê lá mas é se arranjas trabalho e uma boa rapariga para casar! Ela que saiba ler, para burra já basto eu, que casei com o bruto analfabeto do teu pai.

- E onde encontro eu uma mulher dessas?

- Onde havia de ser? Numa papelaria, palerma!

Entendem agora porque é que o local escolhido para encontrar uma rapariga conhecedora de letras foi uma livraria que Alfredo achava ser uma papelaria.
Teria de ter formas onduladas e um rosto generoso, porque esses eram os únicos requisitos de Alfredo. O outro objectivo - conseguir uma nora literata, em idade e estado civil adequado, para casar - pertencia à sua mãe. E foi assim que o destino proporcionou o encontro feliz entre os dois protagonistas desta história. Aproveitando o facto de um dia a jovem a quem deitava o olho há tanto tempo ter saído para a rua com dois pesados pacotes de livros, de imediato Alfredo se oferece para compartilhar com ela o peso da vida. A jovem livreira, depois de um sorriso de consentimento e não podendo deixar de reparar no livro que Alfredo exibia debaixo do braço, perguntou-lhe:

- Também gosta de ler?

Alfredo, muito convicto e enrolando o bigode com ar de vitória, responde:

- Se gosto!

Nota: Alfredo é o livreiro mais castiço com quem trabalhei. Gostava muito de contar histórias, não sei se verdadeiras, se ficcionadas, e esta é uma delas: a história de como conseguiu arranjar noiva e emprego numa livraria, passando a interessar-se pelo que está escrito nos livros. Dizia ele que, no mesmo livro que lhe tinha dado a ideia de o usar como isco, também lera, mas tarde, a frase que um dia haveria de ser escrita na sua pedra tumular, como aviso para homens solteiros que não frequentam livrarias e para que não passem de predador a presa:

«Um homem pode ser um palerma e morrer sem o saber, mas não se tiver sido casado.»
-
Jaime Bulhosa

3 comentários:

Solange Moreira Diaz disse...

Uma delicia de estória. Obrigada!

Rosa dos Ventos disse...

Nesta manhã cinzenta sabe ler ler estórias com humor! :-)
Obrigada...

Sara disse...

amorosa!