segunda-feira, abril 12

Uma velhinha

(10 da manhã do dia 22 de Dezembro de 2009)

Uma senhora, tão magrinha como velhinha, vem à Pó dos livros quase todos os dias de manhã e pede emprestados entre 20 e 50 cêntimos. No dia seguinte, vem e paga, para no outro voltar a pedi-los. Há dias em que se esquece de pagar, noutros quer pagar duas vezes. Não sabemos porque o faz, se por gostar de falar connosco, ou por gostar de estar junto dos livros. Hoje foi diferente, não pediu dinheiro emprestado. Em vez disso:
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- Empreste-me, por favor, um livro dos novos, porque os velhos já li todos.

(11 da manhã do dia 9 de Abril de 2010)
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- Bom dia, como está? Em que posso ser-lhe útil?
- Para lhe dizer a verdade, não sei bem…
- Não se recorda do título do livro que pretende, é isso?
- Não sei, deve ser… Sabe quando estamos sentados a olhar para o horizonte sem nada focar a não ser o pensamento?
- Sim, sei.
- E depois de um impulso súbito o nosso cérebro dá ordem às pernas para que comecem andar, sem nenhum destino ou intenção especial? Acompanhados apenas das próprias cogitações, deixamos que as pernas, sem nenhuma intervenção da nossa vontade, a não ser a de que cada uma delas tente estar sempre na dianteira da outra, de forma a possibilitar o movimento que nos transporta para a frente, seguindo caminho?
- Sim...
- E, enquanto avançamos, cruzamo-nos com pessoas que vêm na rua em sentido contrário, desviamo-nos delas e ouvimos o som das suas vozes sem prestarmos atenção ao que dizem, sentimos um pequeno cão que as acompanha e nos fareja os pés. Depois, passamos pelos edifícios dos escritórios, das habitações, da igreja, dos cafés, paramos nos semáforos vermelhos e atravessamos no sinal verde e, de repente, sem darmos por isso, sem nos recordarmos de nada, nem sequer do percurso que instantes antes percorremos, provocados por um estímulo externo, acordamos de um estado quase onírico, num lugar completamente inesperado. Tenho a sensação de que ando assim, ultimamente, como se de facto as minhas pernas fossem autónomas e independentes do meu corpo, como se se movimentassem sozinhas, traçando aleatoriamente o meu destino. Sinto como se a minha vida estivesse de pernas para o ar. Agora que penso nisso, deve haver uma razão qualquer para que as minhas pernas me tenham trazido até esta livraria...
- Eu posso ajudar. De quanto é que precisa?
- Trinta cêntimos. Trago amanhã.
- Não se preocupe.

Jaime Bulhosa

9 comentários:

t i a g o disse...

É caso para perguntar qual é que empresaram, apenas por curiosidade?

E estas histórias deixam-me sempre intrigado. :)

Rosa dos Ventos disse...

:-)))!
Lindo!

No vazio da onda disse...

Muito bom.
Parece um conto de Natal.

Já agora, Feliz Natal para todos.

dora disse...

: )

CPrice disse...

tomara eu poder dizer o mesmo .. :)

Lindo! Obrigada pela partilha *

Festas Felizes

C

Anônimo disse...

Deus queira (deus queira que deus exista) que esta estória seja verdade e deus queira que ela possa ainda ler por muito tempo. (Estou certa que lhe emprestaram o livro e continuarão a emprestar: moedinhas, livros e companhia.)

E o dia continua melhor depois disto. Obrigada.

andreia am

C.M. disse...

Lindo! "Ele" há por ali uns quantos seres que se sentam nos bancos do passeio central, e ali estão, as horas escorrendo, contemplando o movimento...

Paula disse...

...já leu todos...
O que achará ela dos novos?

Cumprimentos.

fallorca disse...

Essa casa atrai «pedintes», está visto... E que é feito do «ladrão» de poesia?