sábado, janeiro 31

A fábula de Byblos

Nota: Este texto foi publicado na Revista Ler de Janeiro n.º 76, inserido no artigo assinado por José Mário Silva sob o título: “O que podemos esperar de 2009?”.


«Era uma vez um gigante, que por um desejo enorme foi possuído. […] Quis ter tudo e, por tudo querer ter, quase nada conseguiu […]. Logo, em feio ogre se transformou, por impulso narcísico ao espelho olhou, dele próprio e de susto morreu. […] Pelo menos foi o que na história constou. […]»

Estas frases foram retiradas de fábulas de Esopo, de Florian e de contos de Grimm - pequenas narrativas que na maior parte das vezes retratam de forma exemplar uma realidade cruel, como foi o caso da insolvência da livraria Byblos. Não fossem os prejuízos, a lamentar, causados às pessoas envolvidas directa ou indirectamente no projecto Byblos e esta aventura ter-me-ia parecido não mais do que uma fábula, uma mera ficção hiperbolizada (diga-se, a bem da verdade, que foi preciso ter coragem).

Como em todas as fábulas, há sempre uma moral da história. As causas do encerramento da Byblos já foram sobejamente diagnosticadas pela comunicação social e também pela blogosfera. A péssima localização, o marketing, os erros de gestão, o mau relacionamento com funcionários e fornecedores, a crise económica e financeira mundial, enfim, um conjunto de causas que não importa aqui desenvolver. Importa, sim, reflectir sobre as eventuais consequências negativas ou positivas deste caso. Pergunto: quais foram as consequências para o mercado editorial e livreiro, para além do óbvio aumento da taxa de desemprego e da transferência de alguns milhões de euros? A meu ver, muito poucas. Em termos económicos, a Byblos praticamente não teve impacto. Nenhum editor passou a editar mais, melhor ou pior, nenhum livreiro passou a vender menos, nenhum distribuidor fechou as suas portas. No entanto, em termos qualitativos, receio que o efeito psicológico do encerramento da Byblos possa prejudicar o mercado do livro. Américo Areal, proprietário da Byblos, propôs-se criar uma grande livraria de fundo, independente, com uma oferta de 150.000 títulos que iria privilegiar os pequenos editores, edições de autor, novos autores etc. Desde logo teve o entusiasmo e apoio geral da comunicação social e dos opinion makers que veicularam esta ideia. A Byblos faliu e a sensação que pode ficar, entre os editores e livreiros já estabelecidos, entre novos investidores, leitores, escritores, autores, entre o público em geral, é a de que uma livraria, uma editora ou um livro não podem ter sucesso sem uma aposta total no mainstream dos livros descartáveis, da literatura light, do copy-paste, do jet-set. Mas na realidade o conceito em si não falhou, simplesmente nunca se cumpriu. Desde o início ficou aquém do prometido. Nunca chegou a ter a representação de editoras importantes, como por exemplo as distribuídas pela Bertrand. Culturalmente, não surgiram movimentos novos, não se criou nenhuma dinâmica de debate ou reflexão, nem se proporcionou ao público uma oferta de qualidade diferente, diversificada, alternativa, plural, que desse origem a novos hábitos de consumo. Não passou de propaganda para inglês ver.
Moral da história: perdeu-se uma boa ideia, uma oportunidade de nos colocarmos ao lado de outras cidades e capitais europeias, onde, a par da concentração editorial e livreira, se mantiveram projectos alternativos, independentes, que continuam a dar primazia à qualidade e à diversidade literárias. Perdeu-se uma hipótese de diluir a quase unanimidade instalada no mercado do livro, esta dependência absoluta que alguns editores, livreiros e autores têm da novidade fácil, do consumo imediato, com um ciclo de vida cada vez mais curto, impedindo que o fundo editorial (longsellers, outrora suficientes para sustentar os custos de estrutura) se mantenha disponível no mercado, em vez de se acumular nos armazéns às toneladas, empilhado em paletes, ou que pura e simplesmente seja destruído.
Por isso, creio que todos desejamos e necessitamos que apareçam novas alternativas, sob pena de que alguma fábula amarga se concretize novamente.


Jaime Bulhosa

sexta-feira, janeiro 30

Acontece a todos


- Bom dia. (diz uma senhora idosa e muito simpática). Será que me pode ajudar? Preciso do seu conselho. Já estive em todas as livrarias aqui da zona e não consigo encontrar nenhum livro sobre o tema que pretendo. Tem alguma ideia onde os poderei encontrar, é que já estive em todo lado e, sinceramente, todos me dizem que não?

- E o tema é?

- Oh! Não lhe disse?! Estou para aqui a perder tempo e ainda não disse o que pretendo. (risos.) Sabe porque é que isto acontece? Já tive tantas respostas negativas e bato sempre contra uma parede. Começo a desconfiar de que não existem livros sobre este assunto. (risos.)

- Isso é pouco provável, minha senhora.

- Acha que sim? Quer dizer que estou com sorte e estou no sítio certo? Oh! Lá estou eu novamente na conversa e não lhe digo qual o assunto que pretendo. (risos.)

- Era um passo na direcção certa. (sorrisos.)

- Claro! Tem toda a razão, peço desculpa.

- Vamos lá ver se não a desiludo.

- Não me diga uma coisa dessas!

- Espero bem que não… Diga lá por favor qual é tema?

- Meu deus!

- O que foi minha senhora?

- Esqueci-me completamente!

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Jaime bulhosa

quinta-feira, janeiro 29

Em tempos de crise...

Não há dinheiro para ir jantar fora e depois ao cinema, nem ao teatro ou outra coisa qualquer do género, muito menos para ir para o centro comercial, consumir estupidamente. O melhor é ficar em casa, no sofá, com uma mantinha nas pernas, para não gastar lenha ou gás do aquecimento. Depois acendo a televisão, faço zapping passo pelo canal 1, 2, 3, 4…50, 60 e rapidamente percebo que o melhor mesmo, em tempos de crise, é ficar em casa a ler um livro e a ouvir uma boa música, pode ser esta. Não gasto dinheiro no parque de estacionamento do centro comercial, nem tenho outro tipo de tentações consumistas. Pode ser até um livrinho de bolso, são mais baratinhos e gasto menos tempo.

Estão disponíveis agora nas colecções da BI (Biblioteca Independente) e da BIS (Leya) alguns livros óptimos e aconselho um de que já falámos aqui: A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, uma obra-prima em 91 páginas. Vai ver que depois de o ler não há crise que o ponha melancólico e ainda vai agradecer aos céus o facto de estar, simplesmente, vivo.
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Jaime Bulhosa

terça-feira, janeiro 27

A Secção da Alegria


“A Secção da Alegria”, é esta a designação que Fernando Alves, hoje, nos “Sinais” (crónica que assina diariamente na TSF), sugere para as secções de livros infantis das livrarias. E justifica, citando Ruben A., que se uma das razões para lermos é que os livros nos oferecem alegria, é (deve ser) também pela alegria que se conquistam as crianças para a leitura.
É pela alegria da leitura mas também, e primeiro ("babys love books" diz um slogan inglês de incentivo à leitura), pela alegria do contacto com os livros, e esta passa necessariamente pela apropriação dos espaços dos (com) livros. Nós temos o privilégio de assistir a isso todos os dias. Assim que entram, descem as escadas a correr, os mais pequenos, que mal andam, puxam pelas mãos dos pais, espalham as almofadas e os poufs, espalham os livros pelo chão para folhear ou para brincar, uns percorrem minuciosamente as estantes, com expectativa, outros vão directos à prateleira que lhes interessa, ao livro que lhes interessa, tiram um livro e sentam-se a ler, alguns escondem os livros bem escondidinhos, atrás dos outros, ou noutra secção, para que ninguém os compre e possam continuar a lê-los quando cá voltarem, habitualmente não querem a nossa ajuda nem a nossa atenção e nós deixamo-los à vontade, estão em casa. “Vamos para a nossa secção”, disseram as meninas que inspiraram a crónica de Fernando Alves, numa livraria do Chiado e sentaram-se a folhear os livros “como se se sentassem na clareira, na sua clareira, de uma floresta”.
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Isabel Nogueira

À espera


Normalmente, gosto mais de espreitar livros antigos do que novos, mas desta vez estou curiosa à espera de duas novidades - "O Incrível Rapaz que Comia Livros" de Oliver Jeffers, editado pela Orfeu Negro (via Cadeirão Voltaire) e o novo livro da Bruaá.
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Débora Figueiredo

sexta-feira, janeiro 23

Redação Publicitária


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«O livro “REDAÇÃO PUBLICITÁRIA: o que faltava dizer.” foi criado na intenção de proporcionar ao leitor, seja estudante de Comunicação Social ou profissional de redação publicitária, a oportunidade de estar constantemente em contato com a técnica de criação desse tipo de texto que mais do que informativo deve ter o objetivo principal de seduzir, envolver, encantar o cliente para que ele se decida pela aquisição do produto, serviço ou idéia anunciado.
Redigir textos para propaganda é muito mais complexo do que se possa imaginar e carece do estudo de um briefing muito bem coletado pelo profissional de atendimento, um brainstorm realmente esclarecedor para que não haja dúvidas do redator quanto ao case da campanha e ao approach que deverá ser utilizado.
Este livro tem por objetivo auxiliar no melhor desenvolvimento dos alunos e ampliar sua compreensão sobre a técnica da construção de textos para propaganda.»
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Editor: 7 Dias 6 Noites
Autor: Marco Aurélio Cidade

Só para gente trabalhadora


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A Pó dos livros adverte: Nos livros de Gonçalo M. Tavares, não há "palavras indolentes".
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Isabel Nogueira

quinta-feira, janeiro 22

A livraria (o lado não romântico)



O ritmo é alucinante. O vendedor mostra uma mala cheia deles. Nós fazemos má cara. Ficamos indecisos. Escolhemos apenas alguns. O vendedor faz má cara. Não atinge os objectivos. O editor protesta. O autor não percebe porquê. Nós temos pena. Não podemos ter todos. É fisicamente impossível. Economicamente errado. Chegam caixas e caixas. Abrem-se as caixas. Conferem-se as facturas. Dá-se entrada no sistema informático. Classificam-se na área temática. Colam-se as etiquetas do preço. Carregam-se aos quilos. Colocam-se em cima das mesas. Uns virados para um lado, outros para o outro. Chama-se a isto casá-los. Esperam em cima das mesas. Há quem lhes toque. Os abra. Leia uma passagem. Os deixe. Não podem esperar mais. Em breve vêm outros. Só mais uns dias. Aconselham-se mais uma vez. Ninguém os quer. Volta-se a pegar neles. Nem sequer ganham pó. De novo o sistema informático. Um por um. Processa-se a devolução. Novamente em caixotes. Chama-se o transportador. São levados para um armazém frio, escuro. Cheio de livros, azarados como eles.
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Jaime Bulhosa

A livraria (o lado romântico)




quarta-feira, janeiro 21

terça-feira, janeiro 20

Portugal vs Espanha


A pretexto do lançamento do livro As Vozes do Rio Pamano, do escritor catalão Jaume Cabré, realizado em Dezembro passado na Pó dos livros, tive a oportunidade de jantar com um grupo de catalães pertencentes ao Instituto Ramon Llull. Falava-se sobre a edição em Espanha e em Portugal. Às tantas alguém me pergunta - «Qual é a percentagem de autores portugueses comparativamente com aos autores estrangeiros na edição em Portugal, tirando os livros escolares?» Eu, apanhado desprevenido, um pouco atrapalhado por não saber a resposta, bem à portuguesa e utilizando a técnica do desenrasca (sim porque nós portugueses temos sempre este sentimento bacoco de não ficarmos mal vistos em relação aos estrangeiros, sendo para mais espanhóis, perdão catalães), lancei para o ar os números 60% para estrangeiros 40% para nacionais. Números a meu ver um pouco inflacionados a favor dos portugueses, mas foi o que me saiu, tendo como única fonte de informação apenas o que me é dado a observar através das livrarias. Para meu espanto, e para espanto geral da mesa, respondem-me que esse número seria pouco provável, a percentagem teria de ser bem maior para os autores portugueses. É que, segundo os números oficiais espanhóis, a percentagem em Espanha é de 80% para autores nacionais e 20% para autores estrangeiros, proporção que nos Estados Unidos aumenta para 90/10. Os números que eu avançava surpreendiam por estarem ao nível da Lituânia ou da Croácia e, por isso, não deveriam estar correctos.

Continuo a não saber qual a realidade em Portugal, mas dá-me a sensação de que nuestros hermanos, têm mais fé no nosso desenvolvimento cultural do que nós.

Nota: Devido à minha dificuldade em compreender o catalão, fiquei sem saber se se refiram à nacionalidade dos autores no sentido da Língua, isto é, incluindo todos os autores da América latina, no caso espanhol e no nosso caso a CPLP.
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Jaime Bulhosa

Na livraria Trama

Hoje pelas 18h30 - Tertúlia na Pó dos livros

A apresentação da revista Relações Internacionais n.º 20, será seguida de uma tertúlia sobre «Os desafios da nova administração americana», com a participação de Mário Mesquita (FLAD) e Bruno Cardoso Reis (IEEI).

segunda-feira, janeiro 19

Elas é que começaram!


- É para um menino ou uma menina?
Esta é primeira pergunta que eu faço sempre que me pedem para aconselhar um livro para criança. Pergunta que as minhas colegas dizem ser estúpida. Segundo elas, e com razão, os livros infantis são na sua grande maioria para os dois sexos, não faz sentido a pergunta. Tudo bem, mas devem ser lidos em idades diferentes.
Não percebo nada de psiquiatria nem de psicologia, mas sou pai de três rapazes e tio de outros tantos e de quatro raparigas. Por mais que me custe, tenho de confessar, as raparigas começam por ser, como hei-de dizer, mais “espertas”. Tenho neste momento uma sobrinha com dois anos e meio que se assemelha mais a um foguete explosivo do que a um bebé, tal é a velocidade de captação do mundo que a rodeia comparado com os rapazes da mesma idade. Há excepções, mas são aquelas que confirmam a regra.
O desenvolvimento intelectual das raparigas é mais rápido, começam a caminhar primeiro e falam mais, muito mais, chega a ser cansativo. O raciocínio nas miúdas é mais complexo e mais organizado, conseguem pensar de forma abstracta precocemente, o que deixa qualquer rapaz da mesma idade parecer, ao pé delas, um bebé de uma espécie primata inferior. A memória de longo prazo também é maior e mantém-se durante toda a vida. Quem é que nunca teve uma discussão em que elas nos lembram impiedosamente, para nos atormentar, de um acontecimento passado anos antes, incluindo todos os pormenores sórdidos, local, data e hora exacta. Memória a que os homens, por manifesta caridade, não costumam recorrer.

Li algures qualquer coisa que diz que existe um feixe de fibras nervosas que liga os dois hemisférios do cérebro. Este feixe foi considerado a chave do desenvolvimento intelectual. Há estudos que mostram que é maior nas mulheres; razão pela qual o lado direito, emotivo, do cérebro delas está em maior contacto com o lado esquerdo, analítico. Desta forma, as mulheres parecem ter mais ligações entre os dois hemisférios e, em determinadas regiões cerebrais, têm uma maior densidade de neurónios. Pode ser que seja verdade, deve ser por isso que os rapazes são mais lentos na aprendizagem.

Mas, com o tempo, os rapazes começam a acelerar ou as raparigas a abrandar e eles aproximam-se delas, é um facto. No entanto, até à adolescência, a diferença continua a notar-se, por exemplo: elas pedem para ler, eles imploram para não ter de o fazer. Elas são melhores alunas, eles vão-se arrastando nas aulas. Elas começam a querer namorar, eles, distraídos, sem dar por elas, bem longe, jogam à bola. Aliás, há outra teoria segundo a qual a escola está feita para elas - o sistema de avaliação mede-se pelos padrões de desenvolvimento das raparigas, o que deixa os rapazes em clara desvantagem e, por isso, devemos torcer o nariz às turmas mistas, a não ser que os rapazes tenham pelo menos mais três anos do que elas. Só assim poderão competir de igual para igual.

Poderia aqui rebater estas teorias da superioridade intelectual feminina com outras, contraditórias. Mas não vale a pena, a natureza é sábia e encarregar-se-á disso. Na idade adulta o homem alcança a mulher. Tenho mesmo a teoria secreta de que, se não fosse a maior esperança de vida das mulheres e a senilidade não chegasse com mais frequência aos homens, chegaríamos mesmo a ultrapassá-las. Teoria que será provada, como sempre, por um qualquer cientista homem, reconhecido com o prémio Nobel.
Entretanto, continuarei a perguntar:
- É para um menino ou uma menina?
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Jaime Bulhosa

SLAM - Nick Hornby


Sam é um puto de 15 anos, igual a tantos outros, filho de pais muito jovens e divorciados, e que dedica grande parte do seu tempo à prática do skate. Vive com a mãe e tem como confidente um poster de Tony Hawk, o maior skater do mundo, ao qual vai contando os acontecimentos do seu dia-a-dia, pedindo-lhe conselhos. Assim, Sam fala com Tony Hawk, que sempre lhe responde, já o leitor verá como. A sua vida rotineira é interrompida por uma tórrida história de amor com uma miúda da sua idade que a mãe lhe apresentou. E aqui começam os verdadeiros problemas: uma distracção de cinco segundos, e Alicia engravida. Nesta emergência, o conselho e o apoio de Tony Hawk revela-se verdadeiramente precioso, levando-o a viver o que vai ser o seu futuro, cheio de acontecimentos inesperados, dramáticos e divertidos, como o futuro de qualquer jovem da sua idade. Pela voz de Sam, Nick Hornby conta-nos, com o seu estilo inconfundível e a capacidade de narrar todos os acontecimentos, mesmo os que são aparentemente dramáticos, com o seu muito peculiar sentido de humor, o que pode ser a vida de qualquer jovem do nosso tempo, no que é um inesquecível romance de formação.

sexta-feira, janeiro 16

Destaque - Pessoal e...transmissível

No próximo domingo vai para o ar o último episódio do Programa do Aleixo, na SIC Radical. Quarta-feira na TSF numa emissão especial do “Pessoal e… transmissível”, Carlos Vaz Marques entrevista pela primeira vez uma personagem de ficção: o próprio Bruno Aleixo, um coimbrão com cara de bicho que nos últimos meses se tornou figura de culto na internet.

quinta-feira, janeiro 15

Daniel Oliveira; Nuno Ramos de Almeida; Ricardo Noronha; Rui Tavares

A Revolta na Grécia

Dos primeiros-ministros europeus ao mais anónimos militantes e activistas, os acontecimentos ocorridos na Grécia em início de Dezembro de 2008, e cuja irresolução parece prolongar-se nestes primeiros dias de 2009, mereceram atenção generalizada e têm sido pretexto para vários debates. Estes debates, entre outros pontos, tocam as seguintes questões: a motivação dos revoltados e a diversidade de grupos envolvidos nos protestos; a hipótese de um novo ciclo de lutas, caracterizadas por novas práticas, novos protagonistas e novas ideias, estendendo-se de Los Angeles a Atenas, passando por Seattle, Génova e Paris; a relação entre a polícia, a violência, a política e os movimentos; o renascimento de uma cultura política insurreccional; a posição das diferentes esquerdas políticas ante os acontecimentos; etc.

O debate foi organizado pela unipop, que, para o efeito, convidou – Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida, Ricardo Noronha e Rui Tavares.
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Ricardo Noronha

Daniel Oliveira

Rui Tavares

Nuno Ramos de Almeida

quarta-feira, janeiro 14

Eduardo Lourenço

Há acasos; caprichos; casualidades; contingências; eventualidades; fortuna; providência; coisas do destino. Digam lá se esta frase não parece ter sido feita por encomenda.

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Dois livros em versão económica

Para quem já tinha ouvido falar destes dois títulos: Uma Pequena História do Mundo de E.H. Gombrich e O Pequeno Livro do Grande Terramoto de Rui Tavares e ficou com vontade de os ler, tem agora a oportunidade de os adquirir a preço económico. As edições Tinta-da-china lançam dentro da sua colecção Pequenas Histórias, dois livros que nós consideramos de leitura obrigatória.


Uma Pequena História do Mundo
E..H.Gombrich
ISBN:978-972-8955-90-8
18,50 cm x 13.00 cm
n.º de pág. 340
PVP: 12.90€
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O Pequeno Livro do Grande Terramoto
Rui Tavares
ISBN:978-972-8955-89-2
18.50 cm x 13.00 cm
n.º de pág. 220
PVP: 10.90€

terça-feira, janeiro 13

Livros de mais?

Editam-se livros de mais? Acho que sim, pelo menos para os livreiros, editores, autores e distribuidores. Não tenho a certeza em relação ao público em geral, porque esse ganha, à primeira vista, com a diversidade. A humanidade escreve muito mais livros do que consegue ler, isso é uma evidência. Edita-se um milhão de livros por ano e ficam dois ou três por editar, quer isso dizer que se escrevem dois a três milhões de livros por ano. Se um ser humano pudesse dedicar toda a sua vida apenas a ler, conseguindo, suponhamos, ler quatro livros por semana, 200 por ano, dez mil em meio século - seria igual a nada, tendo em conta os milhões e milhões de livros existentes em todo o mundo.

Para terem uma ideia da dificuldade que é para um livreiro gerir uma livraria face aos livros novos editados exclusivamente em Portugal, que rondam neste momento os 16 mil por ano: se quiséssemos disponibilizar todos os novos títulos na livraria, considerando uma média de dois cm de espessura por livro, seríamos forçados a aumentar a Pó dos livros em 320 metros de prateleiras, o que daria mais ou menos 45 estantes, ou seja, teríamos de ampliar anualmente a nossa livraria em dois terços do espaço.

Li ontem em duas horas um pequeno livro chamado Livros de Mais, do mexicano Gabriel Zaid, editado pela Temas e Debates. Um livro muito interessante, sobretudo para os profissionais do livro: editores, livreiros, tradutores etc. Um livro que reflecte exactamente sobre estas questões. Deixo-vos com uma passagem, para que entendam melhor o que escrevi anteriormente.
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«…Não é prático vender a maioria dos livros em supermercados, em quiosques ou mesmo em muitas livrarias, Imprimir cem mil exemplares de modo a que cada ponto de venda receba um seria absurdo para a maioria dos títulos: um grande número deles seria devolvido, vendido em saldo ou destruído. A maioria dos livros só se vende em pontos de venda seleccionados e nunca atinge essa média excepcional de um exemplar por cada um e por semana.
Um livro normal não vende tanto e não pode estar em todo o lado. Como fazer, então, sem ser adivinho, para que cada exemplar esteja no lugar e momento certo para o seu leitor? Eis o problema - cujas respostas falhadas são tão decepcionantes para o editor, o livreiro, o leitor e o autor. Coloque um exemplar aqui, nenhum acolá: decida se deve (ou não) voltar a encomendar, depois de o exemplar ser vendido, e se deve devolver (ou não) o exemplar que não se vendeu. Multiplique estas decisões pelos milhares de títulos e milhares pontos de venda e chega à situação habitual: um desastre – aqui um exemplar não encontrou o seu leitor, acolá um leitor não encontrou o seu livro. Em cada ponto de venda a procura é mínima e completamente imprevisível. Os cientistas chamam a isto um modelo estócastico – um nome elegante para o caos. Uma boa livraria generalista que tenha 30 000 títulos não contém nem um por cento dos milhões de livros que estão à venda. Supondo que todos tivessem a mesma procura, a probabilidade de não ter algum deles é superior a 99 por cento. Se nestas circunstâncias, viesse tomar conta da livraria um estranho de olhos vendados que respondesse a cada pergunta: “Não o temos”, acertaria em 99 por cento dos casos.
Na prática, o serviço falha numa percentagem menor porque a procura não é tão dispersa (não é a mesma para todos os títulos, concentra-se em alguns); porque o livreiro a antecipa com algum sucesso, e mesmo a gera ao dar à sua livraria um certo perfil; e, finalmente, porque o leitor ajusta as suas expectativas ao perfil da livraria.»
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in Livros de mais de Gabriel Zaid, Temas e Debates
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Jaime Bulhosa

segunda-feira, janeiro 12

Livros no supermercado

Ao fazer as compras da semana num supermercado daqueles onde também se vendem livros, chamou-me a atenção um pequeno placard informativo que um funcionário teria provavelmente levado da secção de iogurtes, deixando-o, inadvertidamente ou não, em cima de uma grande pilha de livros. Dizia mais ao menos isto: «ESTES PRODUTOS SÃO RAPIDAMENTE PERECÍVEIS, DEVEM SER CONSUMIDOS LOGO APÓS A SUA ABERTURA.» Pareceu-me perfeitamente adequado ao tipo de livros que ali se encontravam.

A Pó dos livros também vai passar a usar este tipo de sistema informativo, mas em vez da secção de iogurtes passaremos a recorrer à secção de Legumes/Vegetais: «OS NOSSOS PRODUTOS SÃO SELECCIONADOS NOS MELHORES FORNECEDORES. ENTREGUES DIARIAMENTE EM EMBALAGENS ESPECIAIS, GARANTINDO A PRESERVAÇÃO DAS SUAS CARACTERÍSTICAS NATURAIS, AUMENTANDO A SUA DATA DE VALIDADE.»
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Jaime Bulhosa

sábado, janeiro 10

ABC

"(...)Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer língua falta uma última letra. Terminámos cedo de mais e, assim, ficámos com os mistérios do mundo. Mas isto é outro assunto, senhor Breton."
in O SENHOR BRETON E A ENTREVISTA, Gnçalo M. Tavares, Editorial Caminho, 2008



Postado por Isabel Nogueira

quarta-feira, janeiro 7

Ceci est ma femme


O post anterior sobre o livro Musicofilia trouxe-me à memória uma pequena estória com pelo menos vinte anos, a propósito de outro livro do neurologista Oliver Sacks: O Homem Que Confundiu a Mulher Com Um Chapéu, um livro muito interessante que aconselho a todos, mas que tem um título que facilmente as pessoas confundem. Ainda outro dia, uma senhora pediu O Homem Que Confundiu a Mulher Com Um Cabide. Troca perfeitamente compreensível. Sabem aquela brincadeira de crianças em que uma delas sussurra a outra uma frase ao acaso, e depois a outra e a outra, até chegar a uma ponta e sair uma frase completamente absurda. Pois deve ser mais ao menos isso que acontece com este livro. Vamos então à pequena estória.

Um senhor de meia-idade entra na livraria e pede um livro, do qual só tinha ouvido falar: O Homem Que Confundiu a Mulher Com a Amante. O livreiro de serviço trata rapidamente de corrigir e pergunta se não seria antes: O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, ao que o senhor responde:
- Se assim for, não tenho qualquer interesse no livro. - E de imediato passou a explicar: – Só me chamou à atenção este título porque me fez lembrar a minha história. Sabe, é que estou neste momento a divorciar-me da minha ex-amante, para me juntar com a minha actual amante que por acaso é a minha ex-mulher.
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Jaime Bulhosa

Musicofilia

Com a mesma marca de compaixão e erudição de O Homem Que Confundiu a Mulher com um Chapéu, Oliver Sacks explora o lugar que a música ocupa no cérebro e como é que ela afecta a condição humana. Em Musicofilia, o autor apresenta uma variedade daquilo que designa por «desalinhamentos musicais». Entre eles: um homem atingido por um relâmpago que subitamente deseja ser pianista aos quarenta e dois anos; um grupo de crianças com síndrome de Williams, que desde a nascença são hiper-musicais; pessoas com «amusia», para quem uma sinfonia soa a ruído de panelas; e um homem cuja memória dura apenas sete segundos excepto quando se trata de música.


Musicofilia
Autor: Oliver Sacks
Editora: Relógio d'água
ISBN:978-972-708-997-0
PVP: 18.00€

terça-feira, janeiro 6

Psicanálise dos contos de fadas


Os Três Terríveis Porquinhos é uma história alternativa ao tradicional conto dos Três Porquinhos, onde os personagens principais são os maus da fita. Comecei a lê-la ao Vasco: «Era uma vez uma Mamã que vivia com os seus três terríveis porquinhos numa pequena casa. Os seus porquinhos eram muito travessos e faziam tantas asneiras que a deixavam louca! – Estou farta, seus traquinas! – exclamou a mamã, muito zangada.» Como o Vasco tinha assistido no fim-de-semana anterior a uma matança do porco (espectáculo pouco agradável para as gentes da cidade), logo relacionou o castigo infligido ao azarado porco e comentou:

- Agora percebo porque é que o porco foi castigado e transformado em chouriços! Oh pai, Como é que se chama aquela coisa?

- Qual coisa?

- Aquela coisa, ai como é que se chama… A prima do chouriço?

- A prima do chouriço?

- Sim, aquela coisa, já sei, a morcela!

O Afonso, irmão do meio do Vasco, que finge sempre que não se interessa nem ouve estas histórias infantis, diz:

- Com esta, vais de certeza parar outra vez ao blog da Pó dos livros.
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Jaime Bulhosa
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Os Três Terríveis Porquinhos
Autor: Liz Pichon
Editora Educação Nacional
ISBN:978-972-659-361-4
PVP: 13.50 €

Lançamento hoje pelas 18h00


(Faça clique na imagem para aumentar)

segunda-feira, janeiro 5

Compaixão?

Eduardo Pitta escreve aqui sobre a mensagem de Ano Novo do Presidente da República, (eu não ouvi a mensagem, mas acredito no Eduardo Pitta) mais concretamente sobre a compaixão que devemos ter para com o comércio tradicional. Pode parecer paradoxal mas concordo inteiramente com Eduardo Pitta. Não é de compaixão ou de esmolas que o comércio tradicional vai passar a sobreviver. Porque havemos nós, pequenos comerciantes, de ser privilegiados em relação aos outros? Penso que já chega o exemplo recente da ajuda do Estado aos bancos. De facto o comércio tradicional só sobreviverá se for necessário, se as pessoas o quiserem. Senão, não há compaixão que lhe valha, está irremediavelmente e definitivamente condenado.

Eu enquanto pequeno livreiro tradicional, acredito que as grandes superfícies criaram ou deixaram em aberto algumas necessidades que podem ser aproveitadas pelo comércio tradicional. Provavelmente o pequeno comércio passará a ser em muito menor número, mas inevitavelmente terá muito mais qualidade.

Teremos com certeza que reflectir sobre este assunto, nomeadamente sobre como evitar que a concorrência seja completamente desleal e injusta, como tem vindo a acontecer nos últimos anos, sob pena de acabarmos todos a trabalhar para alguma multinacional ou pior, ficarmos no desemprego. As “esmolas” serão sempre dadas aos mesmos, isto é, a quem menos precisa.
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Jaime Bulhosa

Vale-da-Idanha

Pronto! Terminaram as miniférias. Agora, espera-nos um ano de 2009 que dizem que vai ser de crise. Como é tradição desde os romanos, cantemos as janeiras para afastar os maus espíritos e desejar um bom ano. Foi o que fez este grupo de pessoas numa aldeia onde passei os últimos dias e que dá pelo nome de Vale-da-Idanha. Nome que podia perfeitamente ter sido tirado de um livro de Miguel Torga ou da Agustina Bessa-Luís ou de uma cena qualquer do filme Meu Querido Mês de Agosto, neste caso mês de Janeiro.

Jaime Bulhosa