quinta-feira, abril 30

Às vezes os críticos...


Más críticas a obras famosas:

As Flores do Mal – Charles Baudlaire
Em cem anos de história da literatura francesa apenas mencionaremos "esta obra" como uma mera curiosidade.

Emile Zola 1953

A Sangue Frio – Truman Capote
Pode dizer-se deste livro – com suficiente verdade para que valha a pena dizê-lo: «Isto não é literatura. É pesquisa»

Stanley kauffmann The new Republic

O Grande Gatsby – F.Scott Fitzgerald
O que nunca esteve vivo dificilmente poderá continuar a viver. Por isso, este é um livro só de uma estação.

New York Herald Tribune

Madame Bovary – Gustave Flaubert
O senhor Flaubert não é um escritor.

Le Fígaro

Anna Karenina – Leo Tolstoy, 1877
Lixo sentimental…Mostrei-me uma página onde contenha uma ideia.
The odessa Courier

Nota: Em solidariedade aos poetas e escritores imerecidamente mal tratados

BI

Chegaram livros novos da BI (Biblioteca de Editores Independentes) à Pó dos livros. Ao todo, são nove números da colecção e é um prazer receber na livraria uma remessa de novidades assim. A dificuldade, agora, é escolhê-los. E a tarefa não se vai revelar nada fácil porque, para além de se poderem ler em qualquer sítio (cabem no bolso do casaco), nem o preço é uma desculpa (são mesmo baratos). Deixo alguns títulos para abrir o apetite, enquanto continuo indecisa entre Gógol e Pirandello. Provavelmente levo os dois e ainda junto o Camilo Castelo Branco.

"Da Amizade e Outros Ensaios", Montaigne, nº61, pvp 5.00 €

"O Bruxo Víi, Nikolai Gógol, nº67, pvp 5.00 €

"Coisas que só eu sei", Camilo Castelo Branco, nº68, pvp 4.00 €

"Da Velhice", Cícero, nº66, pvp 4.00 €

"A Correspondência de Fradique Mendes", Eça de Queirós, nº65, pvp 5.00 €

"Pena de Viver Assim", Luigi Pirandello, nº64, pvp 4.00 €

Débora Figueiredo

terça-feira, abril 28

Luz Indecisa de José Mário Silva


Lançamento do livro Luz Indecisa de José Mário Silva editado pela Oceanos. Apresentação de Jorge Silva Melo e leituras de Miguel-Manso. amanhã pelas 19h00.


sturnus vulgaris
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Estorninhos. Um bando deles no céu
de Lisboa - forma informe contra a
luz exígua do crepúsculo. Eu vejo-os
no seu voo colectivo, como um corpo
que dança e se agita, etéreo. Abro a janela,
ponho a cabeça de fora, pasmo diante
da beleza. Atrás de mim, alguém buzina.
Estou no meio de um engarrafamento,
a olhar para os estorninhos, imaginando
um poema em que cada verso seria
como cada um daqueles pássaros,
uma nuvem de pontos escuros
a pairar, com a cidade por baixo.

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****
Lagos, 1993
Em frente ao azul,
eu lia Hölderlin.
tinhas, Diotima,
a cabeça no meu colo.
Tão efémera, a felicidade.

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Luz Indecisa,
José Mário Silva,
Oceanos, 2009
Capa: Rogério Petinga
p.v.p.12.00€

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Publicado por Isabel Nogueira

Lançamento hoje às 18h30 de À PROCURA DA ESCALA

(clique na imagem)

segunda-feira, abril 27

Literatura: Obra de António Lobo Antunes é "obsessivamente local e preocupada com males da história portuguesa" - The New Yorker

De acordo com uma notícia hoje no expresso a revista literária norte-americana The New Yorker publica hoje online um longo artigo sobre o escritor português António Lobo Antunes, cuja obra descreve como "obsessivamente local, preocupada com os males herdados da história portuguesa e as debilidades da sua cultura".
"Ele visa - escreve Peter Conrad, o autor do artigo -, tal como Stephen Dedalus [do "Ulisses", de James Joyce] chamando a si os inimigos da Irlanda, ser uma consciência nacional, lembrando aos seus recentemente europeizados, untuosamente prósperos compatriotas, o legado de culpa do seu vergonhoso passado deixado pela ditadura de António de Oliveira Salazar, que dirigiu o país entre 1932 e 1968, e pela brutalidade do seu regime colonial em África".
Em confronto com Lobo Antunes, o articulista coloca José Saramago, que, ao contrário daquele, situa quase sempre as suas narrativas "em países não identificados ou imaginários" e as faz "facilmente partir em direcção à universalidade".

Carta aberta aos leitores desprevenidos em tempos de crise


Caros leitores,

A 79.ª Feira do Livro de Lisboa abre portas no próximo dia 30 de Abril e fecha dia 17 de Maio. Até agora, ao contrário do ano passado, não tem havido polémica. Sei que alguns de vocês não vão resistir ao apelo. Como livreiro, devo alertar os leitores mais desprevenidos para que mantenham os bons hábitos de leitura. Sobretudo nesta época de crise, onde uma visita à Feira do Livro pode pôr em causa toda uma dieta literária, engordando de forma desmesurada as suas prateleiras com livros sem qualquer valor nutritivo, muito prejudiciais para a sua linha e carteira. Para que isto não lhe aconteça, tem de perceber que há livros e livros. Estará seguro se cumprir seis regras essenciais:

1.ª Regra:
Elabore previamente uma lista dos livros que pretende consumir. Tome nota dos seus respectivos autores, editores e preços. Pode fazê-lo na livraria, com a ajuda do seu livreiro. E, lembre-se, os melhores produtos nem sempre se encontram nas grandes superfícies.

2.ª Regra:
Se quiser arriscar e não seguir a primeira regra, então não compre por impulso nem comece pelas novidades. São as mais apetecíveis, mas normalmente também são as mais caras. Deixe-as para o fim.

3.ª Regra:
Não se deixe enganar por preços demasiado baixos. Os livros não são como os remédios. O livro genérico não tem o mesmo composto químico do livro de marca, apesar de alguns terem o mesmo título e autor. Não esqueça a relação preço qualidade.

4.ª Regra:
Observe e manuseie os livros antes de os adquirir. Não se deixe enganar pelos temas uniformizados, capas brilhantes com altos e baixos-relevos, cheias de cores e muito apetitosas, nem com cintas com frases apelativas, autocolantes com muitos números de edição e muitos milhares de livros vendidos. Habitualmente, estes livros só servem para acumular peso, alargando muito as suas estantes. Também não costumam ter qualquer sabor ou valor nutritivo. Costuma-se dizer: «A fruta mais saborosa é aquela que tem bicho.»

5.ª Regra:
Cheire os livros, sinta todos os seus aromas. Depois, com cuidado, prove as contracapas, as badanas, os índices, os cólofons, os prefácios. Se possível, leia as fichas técnicas, onde pode perceber a origem, os componentes e efeitos secundários. Veja o tamanho da mancha, a fonte de letra e a gramagem do papel. Repare também se têm data de validade e selo de qualidade, isto é, autor.

6.ª Regra:
Depois de todas as anteriores regras terem sido cumpridas, resta para escolha muito menos de metade de todos os livros disponíveis. Poderá consumi-los à vontade, na certeza de que levará para casa um produto de qualidade. Acrescento que alguns devem ser consumidos de imediato, engolindo-se de uma só vez. Não se preocupe - são mesmo feitos para isso e não fazem mal. Outros são para saborear, mastigar, digerir devagar. Dê tempo ao seu organismo para que absorva todos os nutrientes de forma a alimentar corpo e de uma maneira saudável e equilibrada.

Desejo-lhe uma boa Feira do Livro.

Lisboa, 27 de Abril de 2009


Jaime Bulhosa

Hoje sessão de leitura às 18h30


(clique na imagem para aumentar)
***
A não perder a sessão de leitura hoje pelas 18h30 do novo romance de Pepetela O Planalto e a Estepe , editado pela Dom Quixote. O autor vai estar presente.

sexta-feira, abril 24

Aviso: Importante de 24 de Abril


(clique na imagem)


Por causa deste pedido, informamos os nossos clientes de que amanhã este espaço:

quinta-feira, abril 23

Debate UNIPOP hoje às 18h30 na Pó dos livros

Precariedade e Novas Resistências

A precariedade laboral tem vindo a assumir dimensões crescentes, apresentando-se como o paradigma de um novo ciclo produtivo, caracterizado pela elevada flexibilidade e mobilidade da força de trabalho, a par do reforço da sua componente imaterial. Baixos salários, poucos direitos, vidas instáveis, reforço do poder patronal, submissão a novas formas de controlo e dificuldades de organização e acção colectiva – a descrição generalizada do fenómeno tem acentuado os seus constrangimentos, apontando a necessidade de substituir contratos de trabalho temporários por contratos de trabalho permanente. A crítica da desregulamentação do mercado de trabalho tem resultado sobretudo numa indisfarçada nostalgia relativamente às relações laborais do anterior ciclo produtivo «fordista», acompanhada por discursos que acentuam a necessidade de um novo compromisso social em torno do «pleno emprego» e de uma política de regulação ao serviço do crescimento económico. Essa posição tem transposto, para o seio dos movimentos sociais que pretendem combater no terreno da precariedade, discursos, lógicas e reivindicações atravessadas pela ética do trabalho e pela apologia da produção. Neste debate, propomos questionar estes pressupostos, entrecruzando a análise das novas formas de exploração laboral, com a da desfiliação de uma identidade baseada no trabalho, manifesta na crise das organizações sindicais e na criação de novas formas de acção política.

Debate com: Ricardo Noronha / Rui Duarte / José Nuno Matos

UNIPOP

Dia Mundial do livro 23 de Abril

«A leitura dilata a alma e um amigo esclarecido consola-a.»

Voltaire in Ingénuo

visitas



Luis Sepúlveda, Julio Cortázar, Javier Marías, Maruja Torres, Juan José Millás, Carmen Laforet, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez - chegaram ontem em forma de livros e estão só à espera que alguém venha "hablar con eles".


"La sombra de lo que fuimos", Luis Sepúlveda, Espasa Calpe - 22.15 euros
"Queremos tanto a Glenda", Julio Cortázar, Punto de Lectura - 9.36 euros
"Esperadme en el cielo", Maruja Torres, Destino - 23.80 euros

Débora Figueiredo

quarta-feira, abril 22

um convite

Hoje à noite, às 21.30h, encaminhe-se para o Largo do Rato, suba a Rua São Filipe Nery e quando avistar o nº25B entre. Está no interior da Trama e só precisa de se instalar para ficar a conversar sobre o tema "As Cidades Invisíveis: a Literatura Enquanto Morada(s)". Mais informações aqui.

*post com imagem de Nora Sturges retirada daqui.

sem título

"Alguns livros estão imerecidamente esquecidos, nenhum é imerecidamente recordado."
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W.H. Auden, citado por Hannah Harendt in A Vida do Espírito Vol.01-Pensar, Instituto Piaget
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Isabel Nogueira

terça-feira, abril 21

percursos

Chegaram ontem os livros da Quasi. Depois de darmos entrada e de colarmos as etiquetas, começa agora a melhor parte - arrumar. Está traçado o mapa para a tarde: secção de poesia, segunda estante a contar do fundo da livraria, primeira prateleira, de cima para baixo, colectâneas à frente e continuar por ordem alfabética de autor.

O Último Coração do Sonho, Al Berto
Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade
A Invenção do Problema, Luís Adriano Carlos
Dos Líquidos, Daniel Faria
Inquietude, Maria Teresa Horta
Eu, Poeta e Tu, Cidade, Pedro Homem de Mello
Poemas, Sonetos e Baladas, Vinicius de Moraes
Poemas Escolhidos, Elio Pecora


Poemas de Deus e do Diabo, José Régio



Biologia do Homem, Jorge Reis-Sá


Os Animais do Sol e da Sombra seguido de O Corpo Inicial, António Ramos Rosa



Tratado de Botânica, Joana Serrado

Débora Figueiredo

Nota: O tamanho exagerado do post deve-se ao facto de gostarmos das capas da Quasi, mas também, às constantes pressões vindas directamente da Feira de Londres para escrevermos no blogue.

sexta-feira, abril 17

Obama em Guantánamo


Da luta antiterrorista à segurança energética, das guerras longínquas às relações comos adversários, das informações à tecnologia, do nuclear ao ecossistema, Barack Obama prometeu proteger melhor os EUA. Com base em documentos do novo poder em Washington, entrevistas, análise exaustiva e acesso a arquivos remotos, eis um guia para os próximos quatro anos da América e do mundo. Com o relato exclusivo da visita do autor à prisão de Guantánamo.

Nuno Rogeiro é investigador e analista e tem-se especializado no campo da segurança internacional, defesa e estratégia, nos últimos 25 anos. Mantém, desde 2003, na SIC Notícias, com Martim Cabral, o único programa nacional sobre estas matérias, Sociedade das Nações. É fundador da Associação Portuguesa de Ciência Política, e co-director do Instituto Euro-Atlântico.

Edição: Sextante Editora
Título: Obama em Guantánamo
Autor: Nuno Rogeiro
ISBN: 978-989-8093-77-6
N.º Pág. 392
PVP: 19.50€

quinta-feira, abril 16

Novas velharias







Vindo directamente do ano de 1933, chegou à Pó dos livros um dos maiores bestsellers de sempre: D. Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra. Embora conte já com setenta e seis anos de idade, esta edição da Livraria Lello encontra-se em excelentes condições e completa, em três lindíssimos volumes.
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Nota: exemplar único

Título: Dom Quixote de La Mancha
Autor: Cervantes
Edição: Livraria Lello, 1933
Tradução: Viscondes de Castilho e de Azevedo
PVP: 25,00 €

quarta-feira, abril 15

Ler um mau livro

«A vida é demasiado curta para se ler maus livros». Eis o que diz muita gente que faz da qualidade um fetiche. Só se deve ler bons livros, ver bons filmes, ouvir boa música ou falar apenas com gente inteligente, e tudo o resto é pura perda de tempo, blá, blá, blá... No entanto, ler maus livros é uma inevitabilidade. É como ter tido uma péssima relação amorosa: faz parte da aprendizagem da vida e permite-nos distinguir o que é bom do que é mau. Mas, tal como nas relações amorosas, não sei porquê, também no caso dos maus livros temos tendência para reincidir.

Nota: Post de um livreiro que acabou de ler um mau livro.

Jaime Bulhosa

terça-feira, abril 14

O Fiasco do Milénio

Nas livrarias dia 24 de Abril


AS OUTRAS CRÓNICAS DE RUI TAVARES

No decorrer dos últimos três anos, houve um espaço alternativo para os textos de Rui Tavares: as crónicas da revista Blitz. A ausência de constrangimentos temáticos e o ritmo de publicação mensal proporcionaram-lhe «liberdadetotal; mais liberdade do que alguma vez tive na imprensa». E é dessa liberdade, traduzida em virtuosismo literário e cultural, que os leitores podem agora desfrutar.

«Algumas obsessões foram tomando corpo: o futuro e o passar do tempo em geral, as cidades, alguns clarões da infância, a relação entre as artes e a filosofia. O tom era mais pessimista e melancólico do que seria meu hábito. Habituado a escrever duas vezes por semana sobre assuntos correntes, esta coluna era um mergulho mensal na liberdade absoluta. Era muitas vezes a outra crónica, imprevista para mim ao escrevê-la ainda antes de ser passada aos leitores.»


Título: O Fiasco do Milénio
Autor: Rui Tavares
Tema: Crónicas
Edição: tinta-da-china
ISBN:9728955960
n.ºPág. 176
PVP: 13.90 €

sábado, abril 11

Bem-vindos


Boas noticías da Kalandraka numa manhã silenciosa, com Lisboa deserta de pessoas e carros. Duas edições acabadas de chegar - "Já para o banho!" de Taro Gomi, um menino-leão que se prepara para tomar um banho divertido e nos mostra como é fácil fazê-lo. E a reedição do livro "A árvore" de Iela Mari (na edição antiga da Sá da Costa) agora, com um novo título "As estações". Não é este o título original, mas é isso mesmo que as ilustrações contam, a passagem do tempo através das estações do ano.
São os dois bem-vindos ao espaço infantil da Pó dos livros e ficamos à espera de mais edições de Taro Gomi , especialmente o "clássico" "Everyone Poops", que até agora só tem outro título disponível em português - "O Livro dos Sarrabiscos" editado pela Afrontamento.

Débora Figueiredo

"Já para o banho!", Taro Gomi, Kalandraka, 12.00 euros
"As estações", Iela Mari, Kalandraka, 12.00 euros
"O livro dos sarrabiscos", TAro Gomi, Afrontamento, 19.50 euros

quarta-feira, abril 8

Outros tempos

Há alguns anos (para não dizer há muitos), dava os primeiros passos na aprendizagem da profissão de livreiro, tarefa que julguei, na altura, nunca vir a executar como deve ser, porque me diziam ser necessário decorar todos os milhares de títulos dos livros existentes na livraria e seus respectivos autores. Pareceu-me uma tarefa hercúlea, mas eu levei-a a sério e, em poucos meses, já tinha decorado umas boas dezenas deles. Felizmente, anos depois, fui salvo pela chegada do computador.
A verdade é que quem assim me enganava era um livreiro antigo, muito castiço, de bigode, camisa aberta quase até ao umbigo, pulseira de ouro, unha cumprida no dedo mindinho e sempre de palito na boca, do qual se livrava imediatamente assim que se aproximava um cliente (juro que é verdade). Para além disso, era daqueles funcionários que tinha orgulho em ser sindicalizado e comunista ortodoxo. Era um homem bem-disposto, que gostava de pegar partidas tanto aos jovens aprendizes como aos clientes incautos. Não esqueci uma brincadeira com que costumava surpreender os clientes sempre que lhe pediam a Bíblia Sagrada:

- Por favor, tem a Bíblia Sagrada?
- Não temos. Nesta livraria não trabalhamos com obras de ficção.

Jaime Bulhosa

Marketing Kitsch

terça-feira, abril 7

Vender gato por lebre

Uma vez, num determinado evento, alguém me apresentou a um seu conhecido e fê-lo desta forma: «Apresento-lhe Jaime Bulhosa, o livreiro da livraria elitista anti-bestsellers
Foi uma apresentação de que não gostei e, para ser sincero, o termo que me deixou mais incomodado foi elitista. Sei que foi com boas intenções, no entanto, não tive alternativa e tive de explicar de imediato que a ideia de fundar a Pó dos Livros não tinha sido exactamente essa e que eu bem gostaria que até fosse o contrário.

Por definição, um bestseller não tem de ser necessariamente sinónimo de falta de qualidade literária ou do nulo interesse de um livro. Aliás, a definição afasta-se de qualquer juízo de valor e a expressão já diz tudo: «bestseller» refere-se à quantidade de livros vendidos e não faz qualquer alusão à qualidade. O fenómeno do bestseller está cheio de exemplos de livros que estiveram no top de vendas e que, apesar disso, são quase unanimemente considerados grandes obras literárias saídas da pena de grandes autores. Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, Memorial do Convento, de José Saramago ilustram isto mesmo. Contudo, também é verdade que a grande maioria dos livros que vendem muito são escritos por autores cuja qualidade literária e criativa é duvidosa, sendo esta a razão pela qual habitualmente se identifica um bestseller com um livro de interesse sofrível ou diminuto. Na minha opinião, isto fica a dever-se à fraca exigência intelectual do mercado e às necessidades financeiras do sector editorial e livreiro, que forçam a criação de livros cada vez mais efémeros, produzidos através de fórmulas já testadas e muitas vezes copiadas, frequentemente recorrendo até a estudos de mercado para identificar fenómenos de moda que possam ser transformados no móbil da criação desses livros, dos quais o marketing se encarregará depois, construindo-lhes uma mitologia própria. O Código Da Vinci e quantidade imensa de livros idênticos que se seguiram são disso um bom exemplo. Mas isto nada tem que ver com o genuíno processo intelectual, criativo e cultural que é escrever um livro. A Pó dos Livros não tem nada contra os bestsellers, e seria uma hipocrisia se eu afirmasse o contrário. O que não podemos é tentar vender gato por lebre, a não ser que seja essa a vontade expressa do cliente.
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Jaime Bulhosa

Nota: Como diria a outra, a dos bestsellers - Não há Coincidências.
Tinha acabado de escrever este post quando reparei que Eduardo Pitta já tinha escrito "quase" sobre o mesmo tema.

Semana das Livrarias

O dia 23 de Abril, data em que faleceram Cervantes e Shakespeare, foi instituído pela UNESCO como o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Celebrado tradicionalmente na Catalunha pela oferta de uma rosa na compra de um livro, o costume generalizou-se em toda a Espanha e depois noutros países da Europa e do Mundo.

A propósito desta data, a Câmara Municipal de Lisboa, em colaboração com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e outras entidades públicas, convidou uma série de livrarias - Bertrand, Buchholz, Bulhosa, El Corte Inglés, Ferin, Fnac e Pó dos livros (outras mais poderão juntar-se) – para participar na “Semana das Livrarias”. A iniciativa terá lugar em Lisboa, entre os dias 20 e 25 de Abril.

Seguem-se os pontos mais importantes da programação:

- Todas as livrarias aderentes farão, entre os dias 20 e 25 de Abril, descontos de 10% sobre o preço dos livros.
- As livrarias poderão colocar livros à venda nas ruas adjacentes.
- Os livreiros organizarão animação de rua e outros eventos alusivos à comemoração do Dia Mundial do Livro.
- A CML irá associar a comemoração do Dia Mundial do Livro ao Dia Mundial da Terra (22 de Abril). Assim, promoverá “Piqueniques de Livros” no dia 23 de Abril, a realizar em jardins públicos e junto das bibliotecas municipais, onde estarão presentes milhares de crianças das escolas públicas do 3.º e do 4.º anos e em que cada uma receberá um cesto com fruta e um livro ou cupão de 1€ para aquisição de livros nas livrarias ou na Feira do Livro de Lisboa. Nos Piqueniques irão realizar-se acções de leitura e dramatização de textos.

segunda-feira, abril 6

A cabra tonta





Depois de procurá-la por toda a aldeia, Miguel encontrou a cabra em cima do telhado. Estará convencida que é um cata-vento? Uma chaminé? Um gato? – Perguntava-se. Com ajuda de flores, de um livro de histórias e de uma pitada de sal, (as cabras gostam mais de sal do que as crianças gostam de gelados) a cabra tonta voltou ao seu lugar.
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Título: A Cabra tonta
Autor: Pep Bruno
Ilustrações: Roger Olmos
ISBN:9788696788244
PVP:11.55€

O livro é o livro


Andava à procura de palavras para explicar porque é que o livro tradicional não acaba tão cedo, quando li estas frases:

«Não sou daqueles escritores que acham que a Internet vai constituir um perigo para o livro, e tal. Aquela velha história. Acho que não. O livro é o livro. É um instrumento. Como o martelo, digamos. É evidente que o Black & Decker é mais rápido para fazer um furo mas o martelo não deixou de existir. E a tesoura também não. Nem a bicicleta»

António Tabucchi in Ler n.º 79
Jaime bulhosa

sábado, abril 4

Pensamento do dia


Há muitos anos perguntaram-me: qual é o principal factor de decisão na compra de um livro?

Muito ingenuamente respondi: o livro em si.
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Livreiro anónimo suicida

sexta-feira, abril 3

How to read a book by Alexandre O'Neill


Ao ler o último post do Jaime ocorreu-me que a única defesa do leitor é seguir o método do O'Neill:

Não te deixes enrolar!
És tu quem tem de pagar...
Põe o dedo em cada letra;
pergunta: «Por que está 'qui?»

A leitura, Alexandre O'Neill
in ANOS 70-poemas dispersos,
Assírio & Alvim, 2009
p.v.p. 14.00€

Isabel Nogueira

Eu podia escrever um livro


Se julga que escrever um romance é difícil e é só para alguns predestinados, engana-se! Escrever um livro está agora ao alcance de todos. Olhe à sua volta e repare na quantidade de gente que anda por aí a escrever livros. É porque não é difícil... Não sabe como eles conseguem? Então eu digo-lhe. Escreva no Youtube a frase «How to write a book» e já está. Terá à sua disposição dezenas e dezenas de vídeos cheios de dicas acerca de como escrever um livro. E não são truques para escrever apenas um livro qualquer. São para escrever um verdadeiro bestseller, claro! Escusado será dizer que, para escrever um bestseller, vai ter de pagar o curso completo. Mas o que é isso comparado com os benefícios que a tarefa pode significar?

Todos estes vídeos têm uma coisa em comum: são todos da responsabilidade de escritores famosos e todos eles foram galardoados no mínimo com o Booker Prize. Não acredita? Basta reparar em nomes como por exemplo… Agora de repente não me lembro, mas sei que são todos muito conhecidos.

Os vídeos começam quase sempre por dizer que para escrever um livro é necessário ter uma ideia. Ora isso é facílimo. Eu, por exemplo, farto-me de ter ideias, ainda que normalmente só dêem para 500 caracteres e, no melhor dos casos, para escrever um post num blogue. Mas quantos livros não nascem de blogues? Ah, pois… Convém é que seja de um bom bloguer, não é?… Mas não desanimemos!
Depois da ideia, temos de construir as personagens. Isto também não é difícil. Pense por exemplo em pessoas que conhece: os seus vizinhos e familiares, ou então em pessoas conhecidas, figuras públicas. Mude-lhes o nome e já está. Se faz questão de escrever mesmo um bestseller, então vai ter de construir as suas próprias personagens, sobretudo as femininas, dotadas de grande carga psicológica e avidamente sofredoras por causa dos homens belos, encantadores, ricos e pérfidos como as cobras. Sucesso garantido, dizem eles… Os tipos dos vídeos.

Alguns destes vídeos, poucos, também dizem que convém, quando se pretende escrever um romance, ter-se lido alguns. Pois isto é que me lixou! Porque fui à procura de «How to read a book» no Youtube e só encontrei um vídeo, o qual apenas ensinava a ler livros técnicos (vale a pena ver). Sendo assim, fico-me por escrever uns posts ou então uns versos para uma canção. Aposto que deve haver imensos vídeos que ensinam como fazê-lo.


Jaime Bulhosa



quinta-feira, abril 2

Dia Mundial do Livro Infantil





Recebemos hoje uma edição inglesa em pop-up do livro "A lagartinha muito comilona" de Eric Carle. Não veio a tempo do aniversário, mas escolheu chegar noutro dia especial - International Children's Book Day.

"The Very Hungry Caterpillar- Pop-up Book", Eric Carle, Puffin Books, pvp 18.50 euros.

Débora Figueiredo

Pensamento do dia

Ter um filho adolescente e aconselhar-lhe um livro para ler é perceber rapidamente que o deveríamos ter dado a ler ao avô e não a ele.

Livreiro anónimo bota-de-elástico

Lançamento hoje do livro PNEUMA de Luís Carlos Patraquim

Luís Carlos Patraquim (Maputo, 26 de Março de 1953) é um poeta, autor teatral e jornalista moçambicano.
Refugiado na Suécia em 1973, regressa a Moçambique em 1975, onde passa trabalhar no jornal A Tribuna. Encerrado o jornal, integra o grupo fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) sob a direcção de Mia Couto.
De 1977 a 1986 trabalha no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique (INC) como autor de roteiros e de argumentos e como redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema.Em conjunto com Calane da Silva e Gulamo Khan, coordenou, entre 1984 e 1986, a Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo.Reside em Portugal desde 1986.

Obras:

-Monção. Lisboa e Maputo. Edições 70 e Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980
-A Inadiável Viagem. Maputo, Associação dos Escritores Moçambicanos, 1985
-Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora. Lisboa, ALAC, 1992.
-Mariscando Luas. Lisboa, Vega, 1992. Com Chichorro (ilustrações) e Ana Mafalda Leite
-Lidemburgo Blues. Lisboa, Editorial Caminho, 1997.
-O Osso Côncavo e Outros Poemas (1980-2004). Lisboa, Editorial Caminho, 2005.


Peças de Teatro

Karingana
Vim-te buscar
D'abalada
Tremores íntimos anónimos (com António Cabrita)




Lançamento: Pneuma de Luís Carlos Patraquim, Editorial Caminho. hoje pelas 18.30h a obra será apresentada pelo Professor Doutor J.B. Martinho.

quarta-feira, abril 1

"O Planalto e a Estepe" o novo romance de Pepetela - Nas livrarias dia 23 de Abril


OS ROCHEDOS DA TUNDAVALA

«Os olhos dele continham o céu Planalto.
Na Huíla, Serra da chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da estepe mongol. Tons sobre o castanho.
Entremos primeiro no azul.


A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor.
Começando por um caminho longo até Moscovo. Não vos contarei todos os detalhes dessa viagem. Houve outras, também importantes, houve mesmo muitas viagens. Mas essa primeira viagem em arco amplo e súbitos desvios demorou mais, começou na Huíla, Sul de Angola, quando fui parido.Nasci no meio de rochedos. A casa, porém, era de adobe. Casa de adobe com rochedos à volta. Título de quadro? Era muito duro fazer uma casa de pedra, como na aldeia de Trás-os-Montes onde o meu pai tinha nascido. A minha mãe era já de algumas gerações huilanas e nascera numa mais pequena que a nossa. Por isso se construiu a de adobe, quando casaram. Os dois, com a ajuda de um serviçal muíla, chamado Kanina, nome de soba grande, ergueram a moradia, usado o barro de uma baixa sempre húmida para fazerem blocos secos ao sol. Primeiro teve campim como cobertura. Depois chapas de zinco. Finalmente telhas.
Houve progresso.
Nasci na fase intermédia, das chapas de zinco. Nado capim tinha nascido a Olga, minha irmã mais velha. Depois, já na de telhas, nasceram o Zeca e o Rui, meus mais novos. Só eu tive direito, ao ser atirado para o mundo, a ouvir chuva batendo em chapas de zinco.»
***


Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido. Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno. Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas a fronteiras.





Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, (Benguela, 29 de Outubro de 1941) é um escritor angolano. Licenciado em Sociologia, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto (Luanda). Em 1997, foi galardoado com o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. Foi o autor mais jovem a receber este prémio.

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Título: O Planalto e a Estepe
Autor: Pepetela
Edição: Dom Quixote
ISBN:9789722037846
Nas livrarias a 23 de Abril