segunda-feira, junho 29

O ar lisboeta do O'Neill

Alexandre O'Neil (Lisboa, 1924-1986)
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O AR DO LISBOETA

(lista a encurtar ou a acrescentar pelo leitor)

o ar milonga do lisboeta

o ar mastronço do lisboeta

o ar activo do lisboeta

o ar coitado da filha do lisboeta

o ar cabotino do lisboeta

o ar reservado do lisboeta

o ar dia oito do lisboeta

o ar missa da uma do lisboeta

o ar campdòrique do lisboeta

o ar queixudo do lisboeta

o ar ramona do lisboeta

o ar bichona do lisboeta

o ar pasma do lisboeta

o ar barrigatesta do lisboeta

o ar último olhar de jesus do lisboeta

o ar vilas boas do lisboeta

o ar estoril do lisboeta

o ar em princípio vou do lisboeta

o ar eu depois confirmo do lisboeta

o ar catarino do lisboeta

o ar daniel do lisboeta

o ar terilene do lisboeta

o ar jaguar do lisboeta

o ar poupar do lisboeta

o ar gastar do lisboeta

o ar solmar do lisboeta

o ar morrinhanha do lisboeta

o ar seminarista do lisboeta

o ar boçal do lisboeta

o ar servil do lisboeta

o ar por aqui me irvo do lisboeta

o ar eu cá não vi nada do lisboeta

o ar portagem do lisboeta

o ar esnègabar do lisboeta

o ar jardim cinema do lisboeta

o ar crise de teatro do lisboeta

o ar é natal é natal do lisboeta

o ar estufa fria do lisboeta

o ar padre cruz do lisboeta

o ar mártires do lisboeta

o ar conjuntura do lisboeta

o ar ultramar do lisboeta

o ar tecnolírico do lisboeta

o ar você do lisboeta

o ar donamélia do lisboeta

o ar alentejano do lisboeta

o ar chico esperto do lisboeta

o ar sector um do lisboeta

o ar monsanto do lisboeta

o ar transístor do lisboeta

o ar trombudo do lisboeta

o ar lisbonudo do lisboeta

o ar matraquilhos do lisboeta

o ar agenda do lar do lisboeta

o ar et pluribus unum do lisboeta
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in Anos 70 Poemas Dispersos, Assírio & Alvim, 2009


sábado, junho 27

Como é que na nossa vida, uma coisa conduz a outra?


De Thomas Hobbes e Adam Smith à investigação moderna sobre o tráfego rodoviário e o funcionamento dos mercados, contemplando àreas tão distintas como a economia, a sociologia e a psicologia, Philip Ball mostra-nos como somos afectados, exactamente, pelo comportamento dos outros. Existirão «leis naturais» a reger a realidade humana? E como é que, na nossa vida, as coisas se encadeiam?
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Título: Massa Crítica
Autor: Philip Ball
Tradução: José Luís Malaquias
Edição: Gradiva, 2009
ISBN: 9789896162962
PVP: 45,00€
(Prémio Aventis)

sexta-feira, junho 26

Curiosidade literária

Breath, considerada a obra mais curta da literatura (neste caso uma peça de teatro) escrita em 1969 por Samuel Beckett.

quinta-feira, junho 25

Os livros autoritários

A propósito do lançamento do livro O arco de Nemrod de Teresa Salema, editado pela Sextante, João Rodrigues (editor) emite uma opinião muito interessante sobre um determinado tipo de livros a que dá o nome de livros autoritários:

Prepare as suas férias lendo

Com a aproximação das férias, aumenta a preocupação com as calorias a mais que se tem para mostrar na praia. Não sei se já repararam, mas as pessoas que estão ligadas aos livros - livreiros, editores, escritores, críticos, tradutores, revisores etc. (com raríssimas e honrosas excepções) - não são pessoas gordas, muitas são até magras. Isso deve-se ao facto de as actividades ligadas aos livros absorverem calorias.

Deixo-vos uma lista dos conselhos, que podem desde já pôr em prática:

- Ir a uma livraria a pé e comprar um saco cheio de livros – 500 calorias por hora
- Arrumar os livros numa estante – 450 cph
- Escrever, traduzir, rever um livro – 450 a 400 cph
- Ler um mau livro – de 400 a 350 cph (consome mais calorias do que ler um bom livro, mas é muito prejudicial para a sua saúde mental)
- Ler um bom livro – 300 a 250 cph
- Ler a contracapa e as badanas – 50 cph
- Folhear um livro – 25 cph
- Pegar num livro – 15 cph

Nota: Existem outras actividades ligadas aos livros que absorvem muitas calorias, como por exemplo: engolir sapos ou bater a cabeça contra a parede, mas isso são contas de outro rosário.
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Jaime Bulhosa

quarta-feira, junho 24

História do Jazz


«as histórias do jazz são todas iguais
quando o não são são muito pouco diferentes
mais um episódio ali uma data acolá
um acontecimento vivido uma correcção descoberta
jazz como filho da época das realidades económicas políticas vigentes
de como o jazz dos anos vinte de armstrong foi diferente
do jazz dos anos trinta de ellington
do dos quarenta de parker
do free dos sessenta e dos noventa

sendo esta a primeira história de jazz escrita em português
sendo o jazz uma arte não popular
sem culpa própria que não seja ser linguagem musical estranha
porque vinda de outras origens culturais
esta história deve ser breve de iniciação
fatalmente com faltas
deve ser uma história para principiantes e para bisbilhoteiros
simples e clara que tente esclarecer e desfazer erros e confusões
uma pequena história
para que jazz conste

jazz não tem ainda um século mas por lá próximo anda
é uma música que tem vivido a uma velocidade grande
a cada década seu estilo
a cada estilo vários génios
é assim aliciante contar a sua história por estilos
cada passo estético em consonância com o acidentado correr do tempo
com avanços e recuos
a própria tecnologia se meteu com o jazz e ele com ela
rock cordas percussão afro-cubana colaboraram colaboram
jazz é a primeira música de fusão de variadas fusões
música de criação e consumo instantâneo
floresta de estilos em coabitação permanente

jazz afinal uma palavra que quer dizer nada
como joão»











Edição: Sextante
Autor: José Duarte
Design: Atelier Henrique Cayatte
ISBN:9789898093882
PVP: 15.00€

(Podem lê-lo a ouvir Miles Davis & John Coltrane "So What" 1959)



terça-feira, junho 23

Apanhado



Uma conversa entre o Vasco, de 6 anos, e o Afonso, de 12 anos.

Afonso: Vasco, esse livro que estás a ver ainda não é para a tua idade.

Vasco: Mas eu já tenho 6 anos.

Afonso: 6 anos… eh, eh, eh, e ainda tanta coisa que não sabes da vida.

Vasco: Ai é! O quê, por exemplo?

Afonso: Sabes por acaso o que é uma raiz quadrada?

Vasco: Não, nem nunca ouvi falar.

Afonso: Bem… eu também não, mas já ouvi falar.

Pai: Afonso! Isso é matéria de Matemática que deste este ano.

Afonso: Ups!
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Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 22

Arrepios para estas noites tão quentes

Irresistíveis e imperdíveis estes dois livros de Lázaro Covadlo, com uma edição preciosa da Livros de Areia.
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Isabel Nogueira
Era uma vez... um homem que, após cortar a pata de um gafanhoto numa noite de Verão, perdeu ao longo da vida todos seus membros. Um outro que cria que num sonho de infância, algures no País das Maravilhas, teria estado o acesso à fortuna que nunca veio. Outro ainda que viu a sua vida desenrolar-se no ecrã de uma decadente sala de cinema das Caraíbas. E um outro que acreditava que o homem que o impediu de siucidar-se, certa noite em Mar del Plata, era o Diabo... ao todo, doze buracos negros, doze entradas num universo tão perigoso e distorcido quanto turculento e irresistível. Cuidado, leitor, pois já entrou...
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Título: Buracos Negros
Autor: Lázaro Covadlo
Tradução: F. J. Carvalho
Capa: Pedro Marques sobre desenhos de John Tenniel
Edição: Livros de Areia, 2009
ISBN:9789898118066
PVP:15,00€

Certa noite de Inverno, Dionísio Kauffman, eterno fracassado, ouve uma voz dentro da cabeça, e a sua vida não mais será a mesma: uma pulga milenar, tagarela e voraz, alojada no seu ouvido, dita-lhe o que deve fazer para sair da sua senda de miséria. Mas a pulga exige algo em troca...
Esta obra, um conto-moral-sem-lição-de-moral, em que o fantástico convive com um humor implacável, confirmou o seu autor como uma referência nas letras ibéricas.
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Título: Criaturas da Noite
Autor: Lázaro Covadlo
Tradução: F. J. Carvalho
Capa: Pedro Marques a partir de um detalhe de Ghost of a Flea de William Blake
Edição: Livros de Areia, 2007
ISBN:9789899517851
PVP:15,00€

Hoje pelas 18h30



sexta-feira, junho 19

Ainda o Culturómetro

Temos recebido alguns e-mails onde nos perguntam em que consiste exactamente o Culturómetro. O Culturómetro (deve ler-se «cultura-ó-metro») é um instrumento científico que mede determinados indicadores, avaliando a relação directa entre o que as pessoas lêem e o seu nível cultural. Para além disso, é uma espécie de detector de mentiras, pois filtra o que as pessoas dizem que lêem, dizendo-nos aquilo que efectivamente lêem. Recordamos que os índices de leitura em Portugal são de um livro por ano per capita. Um dos objectivos do Culturómetro é transformar Portugal num país de nerds (com a conotação positiva do termo, isto é, uma pessoa que tem fascínio pelo conhecimento ou tecnologia.)


Nota: Não pretendemos que as pessoas se revejam nos resultados apresentados neste post, já que não foram ainda submetidas à avaliação do Culturómetro.

3 vezes 3

333 é o número de exemplares do manuscritro de Soror Flâmula do Mosteiro de Santa Maria Madalena, em Portugal que Darius Waerminger imprimiu: "Uma quantidade exuberante, excessiva".
"Chegado aos cinquenta e cinco anos, trinta de impressor, Darius Waerminger era Jacob contra o Anjo: imprimia furiosamente, para resgatar do silêncio e da memória tantas coisas que ficariam perdidas.
são os livros que te escolhem - não és tu que escolhes os livros, o livro é um mundo à procura do seu leitor"
Agora que o livro, pelo qual sabia que toda a vida esperara, finalmente o tinha encontrado, Darius Waerminger «Orgulhosamente tinha impresso no colophon "non sumptibus", impresso sem apoios. Gostava que o mundo soubesse que fizera aquela loucura, impressa em grifos caros, completamente sozinho.»
Podemos agora nós conhecer o destino destes 333 livros e dos seus leitores que o poeta Pedro Sena-Lino nos relata, neste seu primeiro romance, editado pela Porto Editora.
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Título: 333
Autor: Pedro Sena-Lino
Capa: Ricardo Moura
Edição: Porto Editora, 2009
ISBN: 9789720042743
PVP: 15,90€
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Isabel Nogueira

quinta-feira, junho 18

Culturómetro


A Pó dos livros teve acesso exclusivo a um novo instrumento científico resultante de um extenso e minucioso estudo, levado a cabo pelos principais cientistas e investigadores das melhores universidades do país. Este instrumento mede a relação entre o número de livros lidos por ano e o nível cultural. Apresentamos aqui, em primeira mão, os resultados do Culturómetro.

Nota: Consideramos que este instrumento tem algumas limitações, pois não contabiliza as leituras de blogues, do facebook, do twitter, de jornais ou revistas do jetset. Peca também por apenas medir a quantidade de livros lidos por ano, não tendo em conta a qualidade. Enfim, são os instrumentos que temos.

O BÁSICO - de 0 a 0 livros por ano
Características: De raciocínio lento, não consegue verbalizar um pensamento de forma minimamente estruturada.
Culturalmente: Uma nulidade.

O IGNORANTE – de 0 a 1 livro por ano
Características: Pouco mais consegue do que verbalizar ideias feitas.
Culturalmente: Conhece os nomes dos presidentes do Benfica, Porto e Sporting.

O DESINTERESSANTE – de 1 a 5 livros por ano
Características: Verbaliza as ideias de forma estruturada, mas não tem opinião própria.
Culturalmente: Conhece os nomes dos presidentes do Benfica, Porto e Sporting e ainda os nomes do presidente da República e do primeiro-ministro.

THE ORDINARY PEOPLE – de 5 a 10 livros por ano
Características: É bilingue, tem opinião, verbaliza de forma cuidada e inteligente.
Culturalmente: Conhece os nomes dos presidentes da República, primeiros-ministros e ministros dos principais países europeus.

O INTELECTUAL – de 10 a 20 livros por ano
Características: É pago para ser ouvido e tem opinião sobre tudo.
Culturalmente: Sabe tudo o que os outros sabem, para além daquilo que os outros não querem saber. Faz questão de saber os nomes dos presidentes do Benfica, Porto e Sporting.


O ERUDITO – de 20 a 40 livros por ano
Características: Rápido, eloquente, com ideia próprias e poliglota.
Culturalmente: Conhece os nomes dos presidentes, reis e rainhas dos 27 países da Europa, bem como do resto do mundo. Recusa-se a saber os nomes dos presidentes do Benfica, Porto e Sporting.

O NERD – de 40 a ∞ livros por ano
Características: Sem dados (ninguém o vê, porque está sempre escondido atrás de um livro).
Culturalmente: Não tem vida social de espécie alguma.
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Jaime Bulhosa

Elegia para um americano

Ao tentarem pôr ordem na casa do pai recém-falecido, Eric e a irmã, Inga, descobrem um bilhete de uma mulher desconhecida. Algo no teor desse bilhete indicia que um segredo do passado continuava a atormentar Lars. Erik vê na solução desse enigma o derradeiro acto de aproximação a um homem que nunca compreendeu, mas tanto a vida dele como a de Inga estão a atravessar fases muito complicadas. Inga, viúva de um escritor famoso, está disposta a tudo para defender a reputação do marido e reaproximar-se da filha, Sonia, terrivelmente marcada pela memória dos atentados do 11 de Setembro. Por seu lado, Erik materializa a sua própria solidão num mantra espontâneo que o embaraça mas em relação ao qual nada pode – “Sinto-me tão só”, repete ele, mas poderiam ser todas as personagens desta Elegia a dizê-lo; nova-iorquinos solitários, perdidos no frenesim da grande metrópole, entregues aos seus segredos, memórias e sonhos, incapazes de qualquer acto de reconforto.
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Nota: Não, não vamos dizer que a autora é mulher do Paul Auster.

Edição: Asa
Autor: Siri Hustvedt
N.º Pág. 288
Isbn:9789892304793
PVP: 16.00 €

quarta-feira, junho 17

Curiosidade literária



Celebrando 1227º aniversário da morte do grande poeta Li Po (701-762) deixamo-vos esta breve biografia:

Li Po, pronuncia-se pó, é, por isso mesmo, o poeta chinês fetiche da Pó dos Livros. Considerado o maior da dinastia Tang, conhecido como o poeta imortal, encontra-se entre os mais respeitados da história da literatura chinesa. Aproximadamente mil poemas seus subsistem nos nossos dias. O mundo ocidental conheceu parte dos seus trabalhos através de traduções livres realizadas por Ezra Pound, a partir de versões já traduzidas em japonês. Li Po é tão conhecido pela sua imaginação extravagante e pelas imagens taoístas da sua poesia como pelo seu amor excessivo à bebida. Diz-se que não escrevia nem viajava sem estar bêbado, tendo inclusive recebido do imperador Ming Huang uma pensão que incluía bebidas grátis sempre que viajava. Até a sua morte está carregada de poesia, conta-se que ao viajar de barco no rio Yangzi se afogou ao tentar beijar o reflexo da Lua na água. Nós, depois de aturadas pesquisas, desconfiamos que morreu de cirrose.
Jaime Bulhosa

Pensamento do dia


«Qual é, de entre todas as coisas do Mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a que mais se despreza e a que mais se tem pena de perder, sem a qual nada pode fazer-se, que devora tudo que é pequeno e que revigora tudo o que é grande?»

Voltaire

terça-feira, junho 16

Maioria absoluta

É com agrado que verificámos que o blogue da Pó dos Livros ganhou o prémio BLIBE para o melhor blogue de uma Editora ou Livraria, com uma maioria de 56% dos votos. Maioria que Sócrates ou Manuela nem nos seus mais wild dreams se atreveriam.

Política, Auto-ajuda, Ciência, Psiquiatria - as secções de Pedro Mexia.


À semelhança de uma biblioteca, os livros numa livraria devem ser classificados e posteriormente arrumados nas respectivas secções, de forma que o leitor ou o próprio livreiro possa vir a encontrá-los facilmente no meio de milhares de outros livros. Esta tarefa pode ser mais complicada do que parece à primeira vista. Em primeiro lugar, porque nem sempre o tema do livro é facilmente identificado, ou porque o livro não versa apenas sobre um tema, ou então não é de todo classificável. Em segundo lugar, a classificação de um livro, em muitos casos, requer mais do que a simples leitura do título. Ora, é aqui que se encontra o busílis para os livreiros mais apressados.
Arrumar livros conhecendo apenas os seus títulos dá azo a situações deveras caricatas, como no caso daqueles cuja arrumação pode ser já considerada um clássico: a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, obra capaz de assustar qualquer freira mais desprevenida, arrumado na religião; Arte de Jardinar, de Y.K. Centeno, arrumado não preciso dizer onde.
Mais recentemente, encontrei numa livraria de renome o Efeito Borboleta, de José Mário Silva, arrumado na secção de divulgação científica. Há uns dias, na Fnac de Santa Catarina, no Porto, encontrava-se o último livro de Pedro Mexia – Estado Civil. Diário de Uma Crise, baseado no blogue Estado Civil - arrumado junto dos livros Os Anos Sócrates, de Fernando Sobral, e o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx. Percebo a confusão: as palavras Crise e Estado devem ter ajudado a transformar Pedro Mexia num politólogo (não é por acaso que ele faz parte do programa de rádio Governo Sombra). Já agora, não me custa nada acreditar que outros livros de Mexia se encontrem em lugares surpreendentes: Nada de Melancolia na secção de auto-ajuda; Prova de Vida junto de A Origem das Espécies, de Charles Darwin; Fora do Mundo na psiquiatria ou ainda o Em Memória na secção dos obituários.
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Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 15

Passeio noturno


Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.
A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.


Ruben Fonseca
in Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX
Edição: Objetiva

sexta-feira, junho 12

Chico Buarque - Leite Derramado


Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história da sua linhagem, desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até ao tetraneto, um jovem do Rio de Janeiro actual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e económica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.

Autor: Chico Buarque
Editora: Dom Quixote
ISBN: 978-972-20-3838-6
Páginas: 224
Dimensões: 15,5 x 23,5
Colecção: Autores de Língua Portuguesa
Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado
Preço com IVA: 14.00 €

segunda-feira, junho 8

História da Primeira República Portuguesa




«Propomos, neste volume, vários entendimentos para essa curta mas rica e complexa República de 16 anos que, longe de ser a aurora emancipadora e progressista que os seus apologistas e apoiantes anunciavam, desejavam e por que se bateram, acabou por se transformar na conturbada crise terminal do liberalismo português a que sucederia o longo ciclo de autoritarismo. Como venceu a República em 1910? Que contradições, que dificuldades viveu, como as resolveu, ou não, até à terrível aventura da participação na Grande Guerra? Que projectos delineou, que portas abriu ou tentou abrir nos vários campos em que procurou apostar? E como renasceu do pós-guerra, após o breve mas premonitório intervalo sidonista? Que República ou que repúblicas e anti-repúblicas foram essas que então se realinharam, também em Portugal, para a grande batalha social e política que anunciava na Europa a época dos fascismos? Afinal, porque venceu e porque morreu a Primeira República? E o que ficou dela como património de memória e reflexão para a democracia de hoje?»

Da Introdução
*
Edições tinta-da-china
Coordenação: Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo
Isbn: 9789728955984
Pvp: 29.90 €

sábado, junho 6

Porque hoje é sábado e estamos abertos. Dia dos clientes... difíceis

- Bom dia. Eu queria o livro sobre o maior genocídio alguma vez praticado.

- Temos diversos sobre o holocausto…?

- Quem falou no holocausto, eu refiro-me ao maior assassinato da história da humanidade.

- Podia ser um pouco mais específico?

- Refiro-me ao assassinato por Deus de toda a população do mundo, excepto Noé e os seus sete familiares. (Génesis 6, 7)
--
Jaime Bulhosa

Se a Wikipédia fosse impressa...


Naufrágio de Sepúlveda



Vasco Graça Moura conta-nos o naufrágio financeiro de um empresário, nas vésperas do 25 de Abril de 1974. Os nomes das personagens da família do protagonista, Manuel de Sousa Sepúlveda, coincidem com os nomes da família do infeliz navegador do século XVI, narrado na História Trágico-Marítima. Neste romance, onde se conta a história de um homem que tenta “salvar o barco” da sua empresa, no contexto da “batalha naval nas águas da banca portuguesa” (num momento crucial da história nacional, o fim do fascismo e o período mais turbulento da Revolução de Abril), há sempre elementos simbólicos do próprio naufrágio nacional. Publicado pela primeira vez em 1988, Naufrágio de Sepúlveda mantém-se actual.

Edição: Quetzal
ISBN: 9789725648049
Número de Páginas: 176
PVP: 16.90€

quinta-feira, junho 4

O conhecimento é finito e limitado!


- Pai, o céu tem tecto?

Comecei o dia com esta pergunta do Vasco, daquelas perguntas que uma resposta simples, como um não, já não satisfaz, tendo em conta a curiosidade de uma criança de 6 anos. No entanto, nesta idade, as crianças ainda julgam que os pais têm sempre resposta para tudo.
Usei todo o meu conhecimento wikipédico e tentei explicar-lhe, de uma forma simples, que existem várias teorias sobre a concepção do universo físico, e identifiquei duas correntes: uma segundo a qual o universo é infinito, ilimitado no espaço e no tempo; outra segundo a qual ele é espacialmente finito mas não limitado, ou seja, é como se fosse uma esfera que se pode percorrer em todas as direcções sem que nunca se encontre um limite.

- Ok, pai, já percebi que não me vais saber responder porque é que acordo todos os dias com ramelas nos olhos.

Jaime Bulhosa

Nota: Uma sugestão de leitura bem disposta.

Um percurso na história do pensamento pelos ditos dos grandes filósofos. A filosofia é compatível com o humor? É possível aprender filosofia a rir? Neste livro, o leitor é convidado a uma viagem pela história da filosofia e pelas vidas dos filósofos, em que se deparará com o mau humor da mulher de Sócrates, os sonhos de Maquiavel, as opiniões de Kant sobre o casamento, as desapiedadas observações de Nietzsche, a dedução lógica de Russell (de que ele e o papa são a mesma pessoa) e a agressividade de Wittgenstein de atiçador na mão. Aristipo dispôs que na lápide do seu sepulcro se gravasse a seguinte inscrição: «Aqui repousa quem vos aguarda».

*
Edição: Planeta
Autor: Pedro González Calero
PVP: 14.94€
ISBN: 9789896570095
N.º de Páginas: 176

quarta-feira, junho 3

Privilegiados...


Edita-se demais?

Em média, as livrarias portuguesas têm capacidade para vender cerca de 30 mil livros por ano. Tendo em conta que 50 por cento do que vendem são novidades, isto é, livros com menos de 12 meses, quer dizer que se poderiam vender em cada livraria aproximadamente 15 mil novos títulos por ano. Assumindo que se vendem em cada livraria pelo menos três exemplares de cada novidade, esse número reduz para apenas cinco mil os novos títulos. Sabendo que em Portugal se editam cerca de 16 mil novos títulos, sobram 11 mil títulos.

Concluindo: quando um editor ou autor vir uma das suas novidades exposta numa qualquer livraria é bom que tenha a noção de que é um privilegiado.
*
Jaime Bulhosa

Extraordinary Records



Uma recolha muito original, realizada em colabroração com a prestigiada revista Colors, dá um novo significado ao termo album art. O que esta obra apresenta, contrariamente ao que estamos habituados, não são as capas de discos, mas os próprios discos, numa panóplia de cores e desenhos. Neste livro são apresentados mais de 400 discos, propriedade do vencedor do Guiness, o coleccionador Alessandro Benedetti.

Edição: Taschen
PVP:33,00 € - Brochado
Formato: 240 x 240 – 432 pp
EAN 9783836507301

terça-feira, junho 2

Veneza - Jan Morris

«Jan Morris é hoje o nome mais importante de entre os autores vivos de literatura de viagens. Nas palavras de Paul Theroux, outro dos grandes escritores viajantes do nosso tempo, é "um dos maiores escritores descritivos da língua inglesa". De hoje e de sempre, depreende-se. Por isso ele lhe chama também "um génio da viagem".
O livro que tem nas mãos, caro leitor, é já um clássico. Publicado originalmente há meio século, é muitas vezes referido como o livro sobre Veneza. Nele, Jan Morris entrelaça o H grande da História com um apuradíssimo sentido de observação para o h pequeno das histórias do quotidiano. É assim – para dar apenas um exemplo comezinho – que ficamos a saber porque há tantos gatos e porque deixou de haver cavalos em Veneza.
A autora, que publicou pela primeira vez este livro, em 1960, ainda com o nome de James Morris e cuja mudança de sexo na década seguinte acrescentou notoriedade à sua já famosa carreira jornalística, é uma figura extraordinária também por razões biográficas. É numa permanente inquietação da viagem que Jan Morris, percorrendo o mundo para o interpretar, tenta revelar o enigma dos lugares que visita tal como se propõe desvendar o seu próprio enigma interior. "Por vezes, rio abaixo, quase penso que o consigo; mas então a luz muda, o vento vira, uma nuvem atravessa-se à frente do sol e o significado de tudo isto volta uma vez mais a escapar-me."»

Carlos Vaz Marques

Tema: Literatura de Viagens
Tradução: Raquel Mouta
Prefácio: Carlos Vaz Marques
Coordenação: Carlos Vaz Marques
1.ª edição: Junho de 2009
N.º de páginas: 440
Isbn: 9789896710002
pvp: 21.9 euros