quinta-feira, outubro 29

Where the wild things are


O filme inspirado no livro estreia brevemente nas salas de cinema. Entretanto, o livro (a edição inglesa) repousa na montra da Pó dos livros sem muito descanso, porque várias vezes sai debaixo do braço de alguém. A razão é óbvia, vale mesmo a pena lê-lo, contá-lo e recontá-lo, não é por acaso que é um clássico da literatura infantil. A Carla Maia de Almeida fala dele aqui.
Apesar de a Quetzal ir editar o romance de Dave Eggars (co-autor do guião do filme) escrito a partir da história de Maurice Sendak, tenho muita pena que nenhuma editora portuguesa achasse interessante traduzir e editar o livro original de Maurice Sendak.

"Where the Wild Things Are", Maurice Sendak, Red Fox - pvp 10.75 euros.
Adenda - vai sair brevemente a edição portuguesa pela mão da Kalandraka.

Débora Figueiredo

quarta-feira, outubro 28

Heresia


Entra um cliente com cara de poucos amigos:
- Posso fazer uma pergunta?
- Sim, com certeza.
- Já leu esse livro do herético que horrorizou os católicos e de que tanto falam por aí?
O facto de o cliente ter usado a palavra herético deixou-me desde logo preocupado. Meio a medo, respondi:
- Sim, já li.
- Então, não acha que o devia retirar da livraria e pô-lo à venda no sítio certo?
Depois desta última pergunta, tive a certeza de que devia ser prudente, não dar a minha opinião e responder com outra pergunta:
- Posso perguntar-lhe porque é que acha isso?
- Porque você está a vendê-lo no sítio errado!
Fiquei ainda mais confuso.
- Como assim, a vendê-lo no sítio errado?
- Não há aqui uma igreja ao pé de si?
Começava a ficar preocupado com a possibilidade de ter à minha frente um fundamentalista religioso, deveras furioso e disposto a partir-me a montra.
- Sim, temos a igreja de NOSSA SENHORA DE FÁTIMA. - Disse eu, em maiúsculas para demonstrar que sabia perfeitamente onde se podia ir rezar e apaziguar a fúria do senhor.
- Pois fique sabendo que é lá que saem que nem hóstias.
-
Jaime Bulhosa

O livreiro é um extraordinário leitor

O ritmo a que chegam títulos novos, nesta época do ano, a uma livraria, faz com que um livreiro seja um extraordinário leitor de facturas, fichas técnicas, isbn, sinopses e colófons.
-
Livreiro anónimo a sentir-se no fim do poço

Invisível


Sinuosamente construído em quatro partes entrecruzadas, o décimo quinto romance de Paul Auster começa em Nova Iorque, na Primavera de 1967, quando o jovem aspirante a poeta Adam Walker conhece Rudolf e Margot, um enigmático casal francês. O perverso triângulo amoroso que rapidamente se forma, conduz a um chocante e inesperado acto de violência cujas consequências serão irreversíveis. Três narradores contam uma história que se desloca no tempo, de 1967 a 2007, e no espaço, à medida que viaja entre Nova Iorque, Paris e uma ilha remota nas Caraíbas. Invisível está imbuído de fúria, de sexualidade desenfreada e de uma busca implacável por justiça. É uma viagem através das fronteiras sombrias entre verdade e memória, criação e identidade. Uma obra inesquecível pela mão de um dos nomes cimeiros da literatura dos nossos dias.

Editor: Edições Asa
Tradução: José Vieira de Lima
n.º Pág. 236
ISBN: 9789892306476
Pvp: 13.00€

terça-feira, outubro 27

A primeira causa

Convidei um russo meu amigo, de seu nome Arkady Averchenko, para almoçar comigo. Averchenko é um homem de riso claro e gosta de contar histórias que não trazem a marca incisiva da revolta, como é comum nos compatriotas soviéticos seus contemporâneos. Não perde tempo com exórdios nem preâmbulos e vai direito a um conto que é passado muito antes da queda do Muro.

-Podes dar-me os parabéns – disse-me um jovem meu amigo, com um sorriso feliz a inundar-lhe o semblante rechonchudo – acabo de obter o diploma de advogado.
- Deveras?
- Palavra de honra!
Ficou sério.
-Não se trata de um gracejo? – perguntei-lhe.
A seriedade dele acentuou-se.
-Meu caro – respondeu num tom doutoral - os homens que, como eu, formam a guarda de honra da lei não gracejam. Os defensores do oprimido, os arautos das grandes concepções jurídicas os sacerdotes do templo da justiça, não têm o direito de gracejar.
E após mirar-me uns instantes em silêncio, sem dúvida para ver o efeito em mim produzido por tão graves palavras, acrescentou:
- Necessitas dos serviços de um advogado?
Ia a dizer que não; mas, de súbito, preguei uma palmada na testa.
- Olha, creio que sim! Nós os directores dos jornais, somos com frequência alvo de perseguições… julgar-me-ão, na próxima semana, por causa de uma notícia sobre a violência cometida por um oficial da Polícia.
- Que fez o oficial da Polícia?
Deu com a espada num judeu.
- Não compreendo; se foi o oficial quem agrediu o judeu, por que é que és tu quem vai ser julgado?
Porque é proibido publicar notícias desse género, que segundo parece, rebaixam o prestígio das autoridades. Pelo visto, a espadeirada foi confidencial e não se destinava, de forma nenhuma, à publicidade.
- Bem. Encarrego-me do assunto, embora seja difícil, muito difícil.
-Não contesto. Vais já dizer-me que honorários…
- Os que cobram os outros advogados.
-Agradecer-te-ei que sejas mais explicito.
- Os dez por cento, homem!
- De modo que se me condenarem em três meses de prisão, estarás nove dias metido no calabouço em vez da minha pessoa?... Estou disposto, nesse caso, a atribuir-te cinquenta por cento.
O novo jurisconsulto perguntou, um pouco desconcertado:
- Não reclamarás uma indemnização pecuniária?
- A quem? Ao tribunal? Ao oficial da Polícia? Ao judeu, que, por se ter deixado agredir, foi até certo ponto, o causador do meu processo?
O jovem advogado acabou por se desconcertar de todo:
- Quem me pagará então? Deves compreender que não vou trabalhar de graça. O diploma custou-me os olhos da cara.
- Trata-se de um processo político…
- Nos processos políticos o advogado de defesa não cobra nada?
- Quando é um advogado que se preza, não.
- Ah, sim? Pois bem, não cobrarei um rublo sequer.
Sacrificar-me-ei nas aras da Liberdade!
-Obrigado! Venham de lá esses ossos!

- Desculpe, já viu a lista?
- Perdão, estava distraído. Sim, queria o prato do dia e uma garrafa de água, por favor.
Aproveito aqui a interrupção da história para dizer que Arkady Averchenko não é propriamente meu amigo. Mas acontece que eu gosto de almoçar acompanhado e escolhi-o a ele, quase aleatoriamente, para me fazer companhia durante a refeição. Contudo, as pessoas com quem eu almoço têm para vocês muito pouco interesse quando comparadas com aquilo que Arkady Averchenko tem para contar. Vou procurar não interrompê-lo mais e deixá-lo retomar a narração.

O mancebo expôs-me o seu sistema de defesa.
-Declararás – disse-me ele – que a notícia não foi publicada.
- O quê?! Pois se o número em que saiu a notícia se encontra em poder dos juízes!
- Ah, sim? Que imprudência, a tua!... Então, o melhor será declares que o periódico não é teu.
- Mas se o meu nome figura por baixo do título e à direita da palavra «director»!
- Declara que não sabias isso.
- Não, não pode ser! Ninguém ignora em Petersburgo que sou eu o director do jornal.
- Mas o tribunal não irá convocar, para prestar declarações, Petersburgo inteiro… Acresce que podes dizer que a notícia foi publicada na tua ausência.
- Não me serviria de nada a mentira; o director do periódico é responsável por tudo quanto nele se publica.
- Ah, sim?... Com mil diabos!... E por que publicaste tu essa estúpida notícia?
- Homem!...
-Que necessidade tinhas tu de imiscuir-te num assunto puramente particular entre um oficial da Polícia e um judeu? Vocês, jornalistas, metem o nariz em tudo!
Baixei os olhos, confuso, arrependido da minha leviandade, Ao ver esboçado no meu semblante o remorso, o jovem apressou-se a mudar de tom.
- Enfim, não sou chamado a acusar-te; isso farão os juízes. Sou o teu defensor. E sairás absolvido; que dúvida há?

Ao entrar na sala do tribunal o meu defensor pôs-se tão pálido que, amparando-o, tive de dizer-lhe ao ouvido, receoso de um desmaio:
- Coragem, amigo!
- É assombroso! – murmurou ele, tentando dissimular a perturbação. – A sala está quase vazia. E trata-se de um sensacional processo político!
Efectivamente, apenas se viam nas bancadas destinadas ao público dois estudantes que, sem dúvida, haviam lido na imprensa a notícia do meu julgamento e ali acudiam para me verem condenar. Ou – quem sabe lá? – talvez estivessem resolvidos a executar algum acto heróico para me salvarem.
A expressão deles era extremamente enérgica e lia-se-lhes nos olhos o ódio feroz ao nosso regime político e um amor sem limites à liberdade. Talvez o seu propósito fosse arrebatarem-me da sala, se o veredicto fosse condenatório, e fugirem comigo para as campinas mexicanas, por eles destinadas a teatro de terríveis façanhas minhas.
Ouvi, mal entendendo, a leitura do libelo. A minha atenção absorvia-se quase inteiramente no meu pobre advogado, naquele momento semelhante ao protagonista da obra de Vítor Hugo, «O Último dia de um Condenado à morte».
- Coragem! – repeti-lhe.
- Tem a palavra o advogado de defesa – proferiu com solene entoação o presidente, ao terminar a leitura do libelo. O meu advogado, como se aquilo não lhe interessasse nem pouco nem muito, continuou a folhear na sua papelada.
- O advogado de defesa tem a palavra.
- Começa o discurso! – soprei eu, pregando ao mesmo tempo um muro na cadeira do jovem causídico.
- Quê! Ah, sim! É para já!
E levantou-se. Cambaleava. Este mancebo, pensei, vai despenhar-se em cima de mim.
- Rogo aos senhores juízes – balbuciou – que desviem a sua vista do processo.
-Para quê? – perguntou, espantado, o presidente.
- Para citar testemunhas.
- Com que objectivo?
- Para provar que, quando se publicou a notícia constante dos autos, o condenado…
- O acusado – rectificou o presidente. – ainda não o condenámos.
- Foi um «lapsus», senhor presidente. Para demonstrar que, quando se publicou a notícia dos autos, o condenado, digo o acusado, estava fora.
- Não importa. O director é responsável por tudo quanto sai no periódico.
- Ah! Sim, já me tinha esquecido! Não abstante…
Agarrei nervosamente, pela fralda, a toga do advogado e puxei com todas as minhas forças.
- Não insistas!
O advogado voltou-se para mim. A sua palidez aumentava. As suas mão trémulas, apoiavam-se na mesa.
- Que não insista? Bom… Senhores juízes, senhores jurados…
Novo estenderete.
- Jurados, não. Aqui não há jurados!
- Não importa… devia havê-los, em representação da opinião pública…
Soou a campainha presidencial.
- Peço ao advogado de defesa que se abstenha de manifestações políticas.
- Bem, bem, senhor presidente… O calor da improvisação…
Houve largas pausas. O orador já não estava pálido; estava lívido. De súbito com a brusca resolução do jogador desesperado que arrisca numa carta todo o dinheiro que lhe resta, gritou:
- Senhores juízes, tenho a honra de declarar que no suposto delito do meu constituinte concorrem circunstâncias excepcionais.
Expectativa geral. «Que excepcionais circunstâncias serão?», pensei.
- Exponha-as V. S.ª…
- Vou já fazê-lo, senhor presidente.

- Já terminou? Deseja uma sobremesa e um café, como de costume?
- Sim, bolo de bolacha e o café, se fizer favor.

Faço aqui mais um interregno, para deixar que o advogado, eu próprio e você, leitor, respiremos. É que por esta altura já devem estar tão ansiosos quanto eu para saber como é que esta história vai terminar. Não é à toa que chamam ao meu amigo Arkady Averchenko o «Mark Twain eslavo». Passemos então a palavra ao advogado de defesa.

- Senhores juízes: o meu constituinte está inocente. E, conheço-o a fundo, incapaz de delinquir. O seu moral é elevadíssimo.

O jovem advogado emborcou à pressa um copo de água.
- Palavra de honra, senhores juízes! O meu constituinte, testemunha ocular da agressão do oficial da Polícia…
- Eu?! – prostestei em voz baixa. – Não prossigas por esse caminho!
- Não? Bem… testemunha ocular da agressão do oficial não digo que fosse; mas, senhores juízes, a vida dos nossos jornalistas é um verdadeiro calvário de privações e misérias. Desabam sobre eles multas, confiscações, denúncias… E, com grande frequência, carecem, ah! Senhores! Até de um pedaço de pão para meter na boca! O meu constituinte, jornalista devotado, jornalista daqueles que põem todo o seu entusiasmo no exercício da profissão, achando-se, senhores, numa situação económica desesperada, recebe a visita de um judeu que lhe conta que um oficial da Polícia acaba de o agredir e lhe oferece soma de dinheiro para ele publicar a notícia no jornal. A tentação, senhores juízes era demasiadamente forte, e o meu constituinte…
- Senhor advogado! – interrompeu, cheio de assombro, o presidente.
- Deixe-me V. S.ª continuar! – gritou o meu defensor, num inconcebível arranque de audácia. – O meu constituinte escreveu a notícia para ganhar o pão. Pode isto ser um delito? Declaro, com a mão sobre o coração, que não é. Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski escrevem também para ganhar o pão e ninguém os processa. A justiça, senhores juízes deve ser igual para todos. Exijo que Tolstoi, Turguniev, Dostoieveski sejam trazidos perante este tribunal e julgados juntamente com o meu constituinte.

Tossiu, bebeu outro copo de água e, levando a mão ao lado esquerdo do peito, prosseguiu:
- Senhores juízes: juro-lhes que o meu constituinte tem consciência tão límpida como a neve que branqueia os altos cumes dos Alpes. É, simplesmente, uma vítima da carestia de vida, da miséria, da fome. O meu constituinte, senhores juízes, é, acima de tudo, uma grande esperança da nossa literatura, e se o condenares… mas não, não o condenareis, não vos atrevereis a condená-lo… Quarenta séculos vos contemplam!
- Tem a palavra o acusado – disse o presidente, por cuja face coberta de cãs perpassou um leve e discreto sorriso.

- A conta, por favor.
- Com certeza, só um momento.

O tempo que eu tinha disponível para almoçar está a terminar, mas se me perguntarem agora o que acabei de comer não sou capaz de dizer. É o que acontece quando estamos completamente absorvidos pela conversa de alguém que a cada frase nos surpreende com a sua eloquência. Tudo à nossa volta deixa de existir. Neste caso, não se tratou exactamente de uma conversa, mas sim da leitura de um livro. É bem verdade quando se diz que «nunca se está só quando se lê um livro». Poderá até dizer-se que se está mal acompanhado, mas nunca só. Não desesperem… Já darei a voz a Averchenko, mas peço-vos um pouco mais de paciência. Este conto faz parte de um livro que inclui outros cinco contos extraordinários de Arkady Averchenko e cujo título é Maldita Matemática!. Posso acrescentar que pertence à colecção «Mosaico» de uma editora que já não existe há muito tempo, chamada Edição de Fomento. Aqui, na Pó dos livros, e para quem conhece a loja, costumamos ter alguns na primeira mesa, onde se encontram lado a lado com outras relíquias. Pouco sei da vida e obra de Averchenko – nasceu em 1879 e morreu em 1923. Foi considerado por muitos críticos como o rei do humor russo. Voltemos ao conto.

Ergui-me, pronunciando o seguinte discurso:
- Senhores juízes: Permitam-me algumas palavras em defesa do meu advogado. Acaba de receber o seu diploma. Que sabe ele da vida? Que lhe ensinaram na Universidade? Umas tantas habilidades jurídicas e quatro ou cinco frases retumbantes. Do restante ignora tudo. Com tão científica bagagem, que cabe toda dentro da ponta de um lenço, começa hoje a viver. Não o julguem severamente, senhores juízes! Tenham piedade do pobre moço e não considerem um crime o que só é ignorância e candura. Além de juízes sois cristãos! Invoco os vossos sentimentos cristãos e rogo-lhes que lhe perdoem.
«Tem a vida adiante dele e corrigir-se-á com o tempo. Estou certo, senhores juízes, de que, obedecendo ao impulso dos vossos nobres corações, absolvereis o meu advogado, em nome da verdadeira Justiça, em nome do verdadeiro Direito». O meu discurso impressionou muito os juízes. O meu advogado levou várias vezes o lenço aos olhos. Quando os juízes acabaram de deliberar ocuparam de novo os seus assentos, e o presidente declarou:
- O acusado foi absolvido.
Pouco amigo das coisas ambíguas, apressei-me a perguntar:
- Qual acusado?
- Os dois. O senhor e o seu defensor.
O meu advogado de defesa foi felicitadíssimo. Os dois estudantes pareciam um pouco desapontados; teriam preferido, sem dúvida, que eu fosse vítima das injustiças sociais. Saímos juntos, eu e o meu advogado, do tribunal, e dirigimo-nos logo ao telégrafo, onde o jovem causídico expediu um telegrama que dizia assim:

Querida mamã: acabo de iniciar a minha carreira de advogado defendendo um réu político. Absolveram-me – NICOLAS.
-
Jaime Bulhosa

sexta-feira, outubro 23

O poeta


Esta história não se passou na Pó dos Livros, mas podia perfeitamente ter-se passado. Tanto os nomes das pessoas como o título do livro são ficcionados.

Entra um homem de meia-idade com um semblante que nós, livreiros, de imediato identificamos como o estereótipo do Poeta.

- Bom-dia.
- Bom-dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Eu sou autor de um livro e aqui há uns meses deixei uns exemplares em consignação nesta livraria. Gostaria de saber quantos exemplares se venderam?
- Como se chama?
- João Trindade
- Não, referia-me ao título do livro.
- Sentimento Inescrutável.- Deixe-me adivinhar: é poesia?
- Sim, é uma dedicatória ao amor.

O livreiro pesquisa no computador.
- Ora aqui está! Infelizmente não se vendeu nenhum e mantêm-se os seis exemplares que deixou.
- Deve haver algum equívoco! Eu apenas deixei cinco exemplares!…
- Vamos confirmar.
O livreiro, voltando-se para o colega, pergunta:
- António! Vê aí por favor, na secção de poesia, quantos exemplares existem do livro Sentimento Inescrutável, de João Trindade?

Passado uns segundos:
- Seis exemplares.
- Confirma-se.

O autor, incrédulo.
- Não pode ser! Eu tenho a certeza de que só deixei cinco exemplares.
- Desculpe, não leve a mal, mas provavelmente alguém veio aqui deixá-lo ou trocá-lo por outro, quem sabe?...

Do fundo da livraria o, António diz:
- Há um que tem uma dedicatória.

Ao mesmo tempo o livreiro e o poeta:
- E o que diz?
- Para a minha esposa com todo o amor, porque sem ela não teria sido possível escrever este livro (...).

Jaime Bulhosa

Novas Crónicas do RAP


«Um livro no qual a mais fina ironia e o humor requintado se juntam e resolvem não entrar.»

100 crónicas de Ricardo Araújo Pereira, 100 ilustrações de João fazenda e ainda a crónica do Ikea a cores para montar!

Nota: À venda em todas as livrarias na próxima semana.

quinta-feira, outubro 22

Literatura de Deus e do Diabo


Consta que anda por aí uma polémica sobre se determinados livros foram escritos por Deus ou pelo Diabo. Desta polémica, a única coisa que sei é que ambos fazem milagres – só não sei como se distinguem. Há quem diga que é pela doutrina: se a doutrina for boa, os milagres são de Deus, se a doutrina for má, os milagres são do Diabo. Agora, quem me diz a mim, pobre livreiro ignorante, dos livros que li, quais os que foram escritos pelo fazedor de milagres de boa ou má doutrina? Tenho como compensação o facto de saber que em ambos os casos se trata de obras-primas.

Livreiro anónimo a partir das reflexões de Dom Louis-Bernard La Taste (1682-1754)

quarta-feira, outubro 21

Já li o livro do José Saramago


Já li o livro do José Saramago. É muito bom. Agora percebo porque é que falam tanto do livro. É mesmo extraordinário, fabuloso, não consegui parar de o ler. Finalmente entendo porque é que lhe deram o Prémio Nobel. Adorei, é tudo o que posso dizer sobre o Memorial do Convento.
-
Jaime Bulhosa

O que gosta de ler sr.dr.Isaltino?


Todos nós sem excepção (ou pelo menos quase todos, pronto…, ou pelo menos os mais curiosos, como eu), quando estamos apanhar seca numa sala de espera de consultório, somos incapazes de resistir a dar uma vista de olhos nas chamadas revistas de sociedade. Para dizer a verdade, ou melhor, para ser totalmente sincero, não resisto aos lead’s das primeiras páginas, como por exemplo: «Alexandra Lencastre está gorda que nem um…». Olhei para uma revista chamada, se não me engano, Flash e reparo que tinha uma entrevista com Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, já depois das eleições autárquicas. Evidentemente, só por isso abri a revista – o facto de poder encontrar lá dentro a Claúdia Vieira ou a Soraia Chaves não me dizia absolutamente nada. Li a entrevista com toda a atenção e, a páginas tantas, a jornalista da dita publicação resolve fazer uma pergunta de âmbito cultural, que fica sempre bem.

- Sr. Isaltino, o que gosta de ler?
- Gosto de ler, quando estou na casa de banho, os livros da Reader’s Digest.
-
Jaime Bulhosa

70 anos da Segunda Grande Guerra


Assinalou-se, no passado dia 1 de Setembro deste ano, os 70 anos do início da Segunda Grande Guerra Mundial. A Pó dos livros tem à sua disposição uma mesa temática de livros sobre o acontecimento histórico mais importante do século passado. Ficam aqui alguns exemplos:


- Eu Fui o Capitão do Exodus, de Ike Aronowich, Sextante
- 1939 Contagem Decrescente Para Guerra, de Richard Overy, Livros D’Hoje
- O Tambor de Lata, de Günter Grass, Dom Quixote
- As Benevolentes, Jonatham Littell, Dom Quixote
- Testemunhas da Guerra, de Nicholas Stargardt, tinta-da-china
- The Storm of War, de Andrew Roberts, Allen Lane
- Those Who Marched Away, de Irene & Alan Taylor, Canongate
- Masters and Commanders, de Andrew Roberts, Penguin
-The Third Reich AT War, de Richar S.Evans, allen lane
- Entrevistas de Nuremberga, Leon Goldensohn, tinta-da-china

Dia 22 pelas 18h30


terça-feira, outubro 20

Vencedores das piores capas de livros de sempre

Depois de uma concorrida participação para a eleição das 3 piores capas de livros de sempre da edição em Portugal, apresentamos aqui os vencedores:

- Em 1.º lugar com 201 votos O Falo Perdido, de Eurico Cebolo, edição de autor.

- Em 2.º lugar com 194 votos A Religiosa, de Denis Diderot, edição Europa-América

- Em 3.º lugar com 148 votos Exercícios de Estilo, de Luiz Pacheco, edição Editorial Estampa.


Nota: Agradecemos a todos os nossos leitores a participação e divulgação desta iniciativa.

O Mar em Casablanca

O novo romance de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com a obra Longe de Manaus. O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial - e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século. História de uma melancolia e de uma perdição, O Mar em Casablanca retoma o modelo das histórias policiais para nos inquietar com uma das personagens mais emblemáticas do romance português de hoje.

Páginas: 240
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04287-3
Colecção: MARCA D'ÁGUA
Pvp: 15.50€

segunda-feira, outubro 19

Brainstorming de frases de incentivo à leitura

Criar uma boa frase publicitária não é uma tarefa fácil. Para que uma frase ou um slogan comunique com o público-alvo e atinja os efeitos desejados e não o contrário, como muitas vezes acontece, é necessário respeitar uma série de regras. Os publicitários alertam-nos para os perigos e dificuldades de aplicação dessas regras: «(...) elas são bem mais complexas do que à primeira vista podem parecer. A ideia que se tem de que, para resultar, basta uma frase conter um benefício-chave, ter um trocadilho ou ser de fácil memorização não é suficiente.» No entanto, apesar disso, as empresas, sobretudo as mais pequenas, caem facilmente na tentação de fazer estas coisas com a prata da casa. Numa empresa onde trabalhei, foi pedido a alguns funcionários, em jeito de brainstorming, que pensassem numa ou várias frases de incentivo à leitura, para depois algumas serem usadas em cartazes publicitários de livraria. As frases que se seguem são algumas das que resultaram desse brainstorming, tendo sido recusadas, por razões óbvias, pela gerência. Contudo, guardei-as por achá-las engraçadas e nonsense. Não resisto a publicá-las, agora devidamente organizadas por fonte de inspiração.


AS DOMÉSTICAS
«Se até a bruta da tua sogra lê...»
«Ou lês ou comes a sopa.»

AS DE ÍNDOLE SEXUAL
«Finalmente só! Eu e o meu livro.»
«À noite dói-lhe a cabeça?... Faça como ela, leia!»
«Tocas num livro, tocas num homem.»

AS DE SUPERIORIDADE INTELECTUAL
«Samos cada bêz menos anal-fabetos, ler acaba con nôs.»
«Os verdadeiros analfabetos são aqueles que não lêem.»
«Ler não evita a estupidez, mas disfarça-a muito.»

AS MISÓGINAS, HOMOFÓBICAS E MACHISTAS
«Não ler é coisa de gaja, deixa de ser larilas!»
«Uma mulher que não lê, não é uma mulher, é um homem.»
«Não pintes o teu cabelo loiro, lê!»

AS PSEUDO-FILOSÓFICAS
«Ler é um modo engenhoso de não pensar.»
«A leitura engrandece a alma e o corpo.»

AS POLÍTICAS OU JURÍDICAS
«Ler é um vício legal!»
«Em terra de cegos, quem lê é rei.»
«O povo que lê jamais será vencido.»

Jaime Bulhosa

Ricardo Araújo Pereira fala da sua colecção de literatura de humor

Interpretation of dreams

(clique nas imagens para aumentar)

sexta-feira, outubro 16

Os novos livreiros


O grupo Leya escolheu as estações de Sete Rios e de Santa Apolónia, em Lisboa, para instalar as suas primeiras máquinas de venda automática de livros da colecção BIS. Fomos saber como se têm comportado estes novos livreiros.

- Por favor, podia dizer-me se a tradução de A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoy, é feita directamente da língua russa?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- É a 1.ª edição?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- Já leu? E gostou?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- O livro é para oferta, podia embrulhar-mo?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- Se a pessoa a quem eu vou oferecer o livro já tiver, posso trocar?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

-Ah, não responde! Então, queria o livro de reclamações, por favor.

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.


Nota: Agora sem brincadeiras, até acho uma ideia engraçada.

Jaime Bulhosa

Entrevistas da Paris Review


Em meados dos anos cinquenta, um grupo de jovens intelectuais americanos criou uma revista chamada The paris Review. Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar.
Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.

E.M. Foster
Graham Greene
William Faulkner
Trumam Capote
Ernest Hemingway
Lawrence Durrell
Boris Pasternak
Saul Bellow
Jorge Luis Borges
Jack Kerouac

Edição: tinta-da-china
Selecção e Tradução: Carlos Vaz Marques
N.º de Pág. 343
Isbn:9789896710149
pvp:19.90€

quinta-feira, outubro 15

Entrada directa para o Top


Esta semana com apenas um post de sucesso (As piores capas de livros de sempre) o blogue da Pó dos livros entrou directamente para o Top dos blogues mais vistos do Blogómetro. É uma honra para nós colocar os livros no lugar onde eles realmente merecem estar e ter como companhia, de muito perto, blogues afamados como:

- Sexo Portugal
- Beijo na Boca
- Rosa Cueca
- Vídeos Eróticos
- A Maçã de Eva
E o não menos conhecido Irmão Lúcia.

Obrigado

segunda-feira, outubro 12

Escolha as 3 piores capas de livros de sempre em Portugal

A ideia partiu deste post com a eleição das 10 piores capas de sempre nos Estados Unidos. A Pó dos Livros propôs-se fazer o mesmo, mas com capas de livros editados em Portugal. Para a concretização desta eleição pedimos ajuda aos nossos leitores, para que nos enviassem imagens de capas de livros de acordo com os seguintes critérios:

1.º Mau gosto,
2.º Pior grafismo,
3.º Incongruência com o tema
4.º Um tiro ao lado em relação ao público-alvo.

Após três meses e algumas dezenas de capas enviadas, a Pó dos Livros seleccionou as 10 que considerou piores. Propomos-lhe agora que nos ajude a eleger as três piores de sempre, votando no inquérito, criado para o efeito, no canto superior direito do nosso blogue.

Nota: Esta eleição, pela dificuldade de recolha de imagens, não representa, de todo, o universo possível de capas que poderiam ter ido a concurso. Por isso, para quem não se sente representado nesta votação e de alguma forma se sente lesado por considerar ter conseguido fazer muito pior, pedimos desde já as nossas desculpas.

n.º1



n.º2

n.º3

n.º4

n.º5

n.º6


n.º7


n.º8


n.º9


n.º10

sábado, outubro 10

Que saudades do tempo em que um livro não era um artigo


- Está sim… é do serviço de apoio ao cliente da ****?
- É sim.
- Estou a ligar-vos porque tenho uma dúvida acerca do preço de um livro que acabei de receber.
- Qual o número de cliente?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é número da factura?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é o artigo?
- O título do livro é ****.
- Não! Diga-me antes o número do artigo?
-O Isbn do livro?
-Sim.
- É o ***.
- Só mais um momento… O artigo em causa é o último da factura?
- É sim.
- Diga-me então, por favor, o que é que se passa de errado com este artigo?
- Com o livro, quer você dizer?...
- Sim… com o artigo!
- Bem, passemos adiante… O que se passa é que acabo de receber um livro que está facturado com o preço de 4.75 euros, o que me parece uma impossibilidade, tendo em conta que é uma novidade, 1.ª edição e ainda para mais tratando-se de uma tradução.
Evidentemente do outro lado os termos: “novidade”, “1.ª edição” e “tradução” não têm qualquer significado.
- Não estou a perceber qual o problema com este artigo, não é esse o preço que está na factura?
- Sim!?...
- Então qual é o problema?
- O problema é exactamente esse… Fui confirmar o preço do livro e verifiquei que existe um engano, da vossa parte, a nosso favor. O preço correcto do livro é de 13 euros.
- Ah!... Como é que sabe o preço deste artigo?
Obviamente estamos a falar com um(a) funcionário(a) de telemarketing que para além de não estar familiarizado(a) com a linguagem dos seus clientes, nunca ouviu falar na Internet.
- Fui ver na Internet.
- Talvez seja melhor eu verificar?
- Se calhar é melhor.

Até hoje a factura não foi corrigida, fazendo com que a honestidade da minha colega não tenha servido para nada. Felizmente desta vez quem ganhou fomos nós.

Nota: Não divulgo o nome do(a) funcionário(a), porque não me parece ser o(a) principal culpado(a), nem o nome da empresa por razões óbvias.
-
Jaime Bulhosa

sexta-feira, outubro 9

A sabedoria


«A sabedoria encontra-se nos grandes livros e está à venda no mercado aberto, onde ninguém os quer comprar. »

Livreiro anónimo a partir de uma frase de William Blake

Dirigismo cultural


No outro dia reparei que o meu filho do meio lia um livro que me pareceu estranho - era qualquer coisa asiática ou ligada à manga. Perguntei-lhe se estava a ler manga, ao que ele me respondeu:
– Mais ou menos, mas é bastante mais à frente.
Imediatamente e com um ar reprovador, disse-lhe:
- Com tanta coisa boa cá em casa para leres…
Sem me deixar acabar, respondeu:
- Não fazes ideia do que é isto, pois não, pai?
A resposta fez-me pensar se eu não estaria a ser ignorante na forma de dirigir as leituras do meu filho. Lembrei-me desta história:

Entra uma senhora que vem com uma missão específica.
- A minha filha está fora do país e pediu-me que lhe levasse esta lista de livros. Diz ela que fazem parte de uma colecção de clássicos gregos.
- Com certeza, minha senhora, só um momento... Aqui tem: Ilíada e a Odisseia, de Homero, a Apologia de Sócrates, de Platão, e a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Todos os títulos que a sua filha pediu.
Após uns minutos de espera:
- Sabe, estive a dar-lhes uma vista de olhos e verifiquei que estes livros são todos mais velhos do que Cristo. Estou a pensar em fazer-lhe uma surpresa, coitadinha... Olhe, em vez destes vou levar-lhe dos de agora, que são tão bonitos.


Jaime Bulhosa

Quem ama, odeia


Quando o doutor Humberto Huberman chega a um afastado hotel de Bosque del Mar para um merecido repouso, está longe, muito longe, de imaginar o que o aguarda. Em vez da desejada deliciosa e fecunda solidão que procura, vê-se envolvido nas complexas e estranhas relações que os hóspedes do hotel foram gradualmente urdindo e assiste, intrigado e perplexo, ao assassinato de um hóspede e ao desaparecimento de outro.Isolados durante quatro dias por uma tempestade de vento e areia e sob a ameaça dos caranguejos do sapal e do mar, as já muito frágeis relações entre as personagens vão piorando. A novela transforma-se então numa fascinante viagem pelo mundo das paixões, do amor, da inveja, da vingança e do ódio, ganhando, então, o carácter das personalidades extrema importância: os fantasmas e os desejos de cada um, esses mundos imaginários e recônditos, integram o mistério que se irá revelando ao longo da obra.Narrativa de grande subtileza, escrita sem mácula e extremamente fascinante, Quem Ama, Odeia é uma obra obrigatória em qualquer biblioteca.

Edição: Oficina do Livro
Tradução: Jorge Fallorca
N.ºpág: 154
Isbn:9789895554737
Pvp: 12.00€

lançamento Caderno Afegão

(clique na imagem para aumentar)

quinta-feira, outubro 8

O Pantagruel já era

É de alguma forma contrariado que divulgo este novo e excelente serviço gastronómico do chef Frederico Carvalho (já tinha falado nele, mas de outra forma, aqui), porque há coisas que gostamos de guardar só para nós, como se fossem um segredo que de vez em quando partilhamos apenas com alguém muito especial. Mas, para além de meu amigo, ele é tão bom cozinheiro que eu não podia deixar de o fazer. Não abusem e deixem um bocadinho para mim.

Jaime Bulhosa

E o vencedor é...

2009 - Herta Müller

Obras traduzidas:
O Homem é um Grande Faisão, Cotovia
A Terra das Ameixas Verdes, Difel

2008 – Le clézio
2007 – Doris Lessing

2006 – Orhan Pamuk
2005 – Harold Pinter
2004 – Elfriede Jelinek
2003 – J. M. Coetzee
2002 – Imre Kertész
2001 – V. S. Naipaul
2000 – Gao Xingjian
1999 – Günter Grass
1998 – José Saramago
1997 – Dario Fo
1996 – Wislawa Szymborska
1995 – Seamus Heaney
1994 – Kenzaburo Oe
1993 – Toni Morrison
1992 – Derek Walcott
1991 – Nadine Gordimer
1990 – Octavio Paz
1989 – Camilo José Cela
1988 – Naguib Mahfouz
1987 – Joseph Brodsky
1986 – Wole Soyinka
1985 – Claude Simon
1984 – Jaroslav Seifert
1983 – William Golding
1982 – Gabriel García Márquez
1981 – Elias Canetti
1980 – Czeslaw Milosz
1979 – Odysseus Elytis
1978 – Isaac Bashevis Singer
1977 – Vicente Aleixandre
1976 – Saul Bellow
1975 – Eugenio Montale
1974 – Eyvind Johnson, Harry Martinson
1973 – Patrick White
1972 – Heinrich Böll
1971 – Pablo Neruda
1970 – Alexandr Solzhenitsyn
1969 – Samuel Beckett
1968 – Yasunari Kawabata
1967 – Miguel Angel Asturias
1966 – Shmuel Agnon, Nelly Sachs
1965 – Mikhail Sholokhov
1964 – Jean-Paul Sartre
1963 – Giorgos Seferis
1962 – John Steinbeck
1961 – Ivo Andric
1960 – Saint-John Perse
1959 – Salvatore Quasimodo
1958 – Boris Pasternak
1957 – Albert Camus
1956 – Juan Ramón Jiménez
1955 – Halldór Laxness
1954 – Ernest Hemingway
1953 – Winston Churchill
1952 – François Mauriac
1951 – Pär Lagerkvist
1950 – Bertrand Russell
1949 – William Faulkner
1948 – T.S. Eliot
1947 – André Gide
1946 – Hermann Hesse
1945 – Gabriela Mistral
1944 – Johannes V. Jensen
1939 – Frans Eemil Sillanpää
1938 – Pearl Buck
1937 – Roger Martin du Gard
1936 – Eugene O’Neill
1934 – Luigi Pirandello
1933 – Ivan Bunin
1932 – John Galsworthy
1931 – Erik Axel Karlfeldt
1930 – Sinclair Lewis
1929 – Thomas Mann
1928 – Sigrid Undset
1927 – Henri Bergson
1926 – Grazia Deledda
1925 – George Bernard Shaw
1924 – Wladyslaw Reymont
1923 – William Butler Yeats
1922 – Jacinto Benavente
1921 – Anatole France
1920 – Knut Hamsun
1919 – Carl Spitteler
1917 – Karl Gjellerup, Henrik Pontoppidan
1916 – Verner von Heidenstam
1915 – Romain Rolland
1913 – Rabindranath Tagore
1912 – Gerhart Hauptmann
1911 – Maurice Maeterlinck
1910 – Paul Heyse
1909 – Selma Lagerlöf
1908 – Rudolf Eucken
1907 – Rudyard Kipling
1906 – Giosuè Carducci
1905 – Henryk Sienkiewicz
1904 – Frédéric Mistral, José Echegaray
1903 – Bjørnstjerne Bjørnson
1902 – Theodor Mommsen
1901 – Sully Prudhomme

É hoje

(clique sobre a imagem para ampliar)

quarta-feira, outubro 7

Morriñas


Peguei num livro com mais de trinta anos, desses que temos nas estantes de casa e nunca lhes tocamos, nem sequer sabemos que os temos ou então, se sabemos, não lhes prestamos atenção. O livro tem como título La Guerra Civil Española 1936/1939. Abri-o e reparei que tinha uma dedicatória. Era uma dedicatória do meu pai, escrita para mim no ano de 1979. Tinha eu apenas quinze anos. O meu pai tinha por hábito escrever dedicatórias sem que necessariamente depois as desse a ler ou oferecesse o livro de imediato. Dizia que era uma forma de ir fazendo partilhas sem querelas daquilo que tinha para deixar com maior valor. Eu desconfio de que era uma forma de relatar a sua vida, espalhada por muitos livros, devidamente contextualizados, e que como um puzzle espera ser reconstruída. A dedicatória dizia mais ou menos isto, digo mais ou menos, porque a letra do meu pai é difícil de decifrar:

«Para o meu filho Jaime Manuel, na esperança de que um dia leias a história de uma das guerras mais sangrentas, sem sentido e perpetradas entre irmãos: a Guerra Civil de Espanha. Para ti esta guerra é longínqua e faz parte do passado, mas para mim ela foi determinante no rumo da minha vida. Conto-te um pequeno episódio que me liga a ela, muitas outras histórias na família haveria para contar. Como sabes, fui criado sozinho pela minha avó materna, entre os anos de 1923 e 1936, numa aldeia que dá pelo nome de Pousa. Enquanto criança, gosto de dizer: fui pastor de vacas nas montanhas onde havia lobos e cavalos selvagens, lá onde nasce a cordilheira Cantábrica, numa província de Espanha chamada Galiza. A minha terra era uma terra muito pobre e mais ficou depois da guerra civil. Muito por culpa de um homem que se esqueceu da sua terra. - Já deves ter ouvido falar, chamado Francisco Franco. - Sou de um lugar de onde os homens partem e as mulheres sentem morriñas*.
Em 1936, com o início da guerra civil, contrariado e a mando dos meus pais, imigrados em Portugal, com apenas treze anos de idade, fugi da guerra e viajei sozinho para Lisboa. Viagem que nunca mais esqueci e que naquele tempo levava uma eternidade a fazer-se. Cheguei a esta cidade de Lisboa, que passou a ser a minha cidade, quando se deu um dos momentos mais marcantes que alguém pode viver. Conhecer seu pai e sua mãe em carne e osso. Não penses que os meus pais não queriam saber de mim, como eu também cheguei a pensar. Naquele tempo era assim, e a muitos outros como eu, devido à extrema pobreza, aconteceu-lhes o mesmo. Só depois de dois longos anos consegui voltar à minha terra, apesar dos avisos dos meus pais para não o fazer, pois estávamos em plena guerra civil e seria perigoso. Mas eu não aguentava de saudades da minha avó e, sem ouvir ninguém, parti. Acto que me valeu um dos maiores sustos da minha vida. Com apenas quinze anos de idade, fui compulsivamente alistado nas fileiras nacionalistas do Generalíssimo Franco. Felizmente para mim e para ti, consegui fugir antes de ser integrado, numa madrugada nos finais de Agosto de 1938, com a ajuda de alguns portugueses, amigos do teu avô, que se dedicavam ao contrabando. Passei a fronteira de noite, pelo Rio Minho, num pequeno bote, perto de uma terra chamada Troporiz. Depois de alguns quilómetros a pé, montámos a cavalo e dirigimo-nos para Valença do Minho. De lá apanhei o comboio e só parei quando cheguei são e salvo a Lisboa. Não voltei a viver na minha terra, como é sonho de tantos imigrantes.

Do teu pai com todo o carinho,

Gonzalo Bulhosa»

De pastor de uma aldeia galega a editor em Lisboa, o meu pai, nacionalista galego, morreu num estúpido acidente em 1990, com apenas sessenta e sete anos de idade. Encontra-se sepultado, como era de sua vontade, na sua terra, a Galiza.

*Morriñas: Palavra galega que significa «saudades ou melancolia» e que, ao contrário do que é hábito dizer-se, não existe apenas na língua portuguesa.

terça-feira, outubro 6

Ricardo Araújo Pereira fala da sua colecção de literatura de humor

Aqui temos o vídeo de apresentação da nova colecção de literatura de humor dirigida por RAP para a tinta-da-china.

Na hora de virar a última página

«Tal como na vida, em relação a um bom livro, na hora de virar a última página, é indiferente que se tenha lido mil ou apenas uma. É sempre escasso.»

Livreiro anónimo, a partir de uma frase de Voltaire

sexta-feira, outubro 2

Já chegaram as obras de arte, perdão literárias


Os Cadernos de Pickwick
«Antes de mais, deve registar-se o primeiro adjectivo que qualifica o Sr. Pickwick: imortal. Segundo nos diz o título completo do livro, os papéis que documentam a sua vida são póstumos – mas, o que é curioso, ele é imortal logo desde a primeira linha. Dickens está, claro, a ser irónico, mas a ironia contida naquele "imortal" dura apenas umas dezenas de páginas – e de dias: muito rapidamente, o Sr. Pickwick tornou-se imortal a sério, quer no livro, quer fora dele. "Os Cadernos de Pickwick" foram publicados em fascículos entre 1836 e 1837. Em Outubro de 1837, o crítico da "Quarterly Review" registava que "menos de seis meses após a publicação do primeiro número, todo o público leitor falava" das aventuras do Sr. Pickwick. Sobretudo depois do aparecimento de Sam Weller na narrativa, as vendas dos fascículos dispararam, deram origem a "merchandising" (polainas Pickwick, bengalas Pickwick, chapéus Pickwick, charutos Pickwick) e à formação de clubes Pickwick (que ainda hoje existem) em que cada membro adoptava o nome de uma das personagens do romance. Um leitor rebentou um vaso sanguíneo, de tanto rir, e os amigos lamentaram a sua sorte quando o médico o proibiu de prosseguir a leitura. Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, o ouviu suspirar: "Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Cadernos de Pickwick, graças a Deus." (...) "Os Cadernos de Pickwick" são, então, um romance heterogéneo a ponto de não ser considerado um romance, povoado de personagens que, apesar de tudo, não são exactamente personagens. À primeira vista, trata-se de uma escolha pouco feliz para inaugurar uma colecção de literatura de humor. No entanto, "Os Cadernos de Pickwick" foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos – não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro – e, no entanto, temos a sensação de que não foi ele quem mudou. As personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance (o Sr. Pickwick continua a ser um ingénuo bem-intencionado, o Sr. Snodgrass um péssimo poeta, o Sr. Winkle um desportista desastrado, o Sr. Tupman um pinga-amor celibatário), mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma-se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual – como os deuses. Como diz Chesterton, "Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia".»

Ricardo Araújo Pereira, «Prefácio»

tema: Literatura de Humor,Ficção Humor
tradução: Margarida Vale de Gato
ilustração: Robert Seymour e Hablot Knight Browne
prefácio: Ricardo Araújo Pereira
coordenação: Ricardo Araújo Pereira
1.ª edição: Setembro de 2009
n.º de páginas: 936
formato: 14x21 cm
isbn: 9789796710095
pvp: 32.9 euros

Jacques o Fatalista
«(...) Que é que impede a estabilização da verdade? Acima de tudo, o prazer de falar. Esse prazer pode ser uma verdadeira paixão. E tem uma característica – não olha a obstáculos: “Não há gente que mais goste de falar que os gagos, não há gente que mais goste de andar que os coxos.” Falar, conversar. Porque a conversa tem uma característica absolutamente extraordinária: ao mesmo tempo que reúne tudo, dispersa tudo. A conversa dispara em todas as direcções, a gente atravessa-a com o fio de uma ideia, mas a ideia vai-se disseminando no decurso da travessia. E a dada altura, como se explica logo nas primeiras linhas deste livro, ninguém sabe para onde vai nem donde vem, nem em que ponto é que está. (...) Trata-se de amar as palavras naquilo que elas têm de desajustamento em relação à realidade, e de compreender que essa realidade se transforma à medida que nós usamos as palavras em configurações diferentes. Trata-se de perceber que as palavras não servem apenas para referenciar a realidade, mas também, e sobretudo, para gerir distâncias (é essa a verdadeira definição da retórica) e para aproximar ou afastar as pessoas. Trata-se ainda de não pretender privilegiar apenas o que é útil, mas de ver até que ponto o inútil é tão útil como o útil (ou, se preferirem, o útil é tão inútil como o inútil). E é tudo isto que nos prende apaixonadamente à longa digressão que é este livro. Sentido de perder tempo, evidentemente. Mas sentido também de ir ao encontro do prazer do tempo perdido. (...) Em “Jacques, o Fatalista”, Diderot fala, conversa, dança com as palavras, traça figuras de uma coreografia arrebatadora. Diderot não nos deixa repousar um minuto: as personagens saltam, desaparecem, morrem, amam, enganam-se, agridem, ressuscitam, e tudo se processa numa agilidade e desenvoltura absolutamente surpreendentes. (...) O essencial não está, portanto, na estabilização, mas num valor precisamente oposto: na velocidade com que o jogo continua a ser jogado.»

Eduardo Prado Coelho, «Prefácio»
tema: Literatura de Humor, Ficção Humor
tradução: Pedro Tamen
prefácio: Eduardo Prado Coelho
coordenação: Ricardo Araújo Pereira
1.ª edição: Setembro de 2009
n.º de páginas: 296
formato: 14x21 cm
isbn: 9789896710101
pvp: 19.9 euros

Aprende-se mais com 1 destes que 10 dos outros


- Dom Casmurro, de Machado de Assis
- Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski
- Pastoral Americana, de Philip Roth
- A Corja, de Camilo Castelo Branco
- O Estrangeiro, Albert Camus
- 2666, de Roberto Bolaño
- A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
- A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis
- Zadig ou do Destino, Voltaire
- O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima

Nota: Para além de todas as outras vantagens evidentes, a leitura destes 10 livros em vez de 100 dos outros representa uma poupança na ordem dos 1350 euros e evita muitos meses de tempo perdido.

Débora Figueiredo, Carlos Loureiro, Jaime Bulhosa

A Sombra do Que Fomos


Luis Sepúlveda regressa ao romance com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores. Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal.

Prémio Primavera de Romance 2009, A Sombra do que Fomos é um virtuoso exercício literário posto ao serviço de uma história carregada de memórias do exílio, de sonhos desfeitos e de ideais destruídos. Um romance escrito com o coração e o estômago, que comove o leitor, lhe arranca sorrisos e até gargalhadas, levando-o no fim a uma reflexão profunda sobre a vida.


Edição: Porto editora
Autor: Luis Sepúlveda
Tradução: Helena Pitta
N.º Pág. 159
Isbn: 9789720040763
Pvp: 14.40€

quinta-feira, outubro 1

Os Dias de Saturno


No dia 7 de Novembro de 1699, reúnem-se no Convento de Cristo dois grandes amigos alquimistas: Domingos Rodrigues, cozinheiro do rei D. Pedro II e autor do primeiro livro de cozinha publicado em Portugal; e o médico da Casa Real João Curvo Semedo, um dos mais conceituados do seu tempo. Ambos vêm para assistir do terraço do convento a um eclipse do Sol — fenómeno misterioso que dificilmente voltarão a presenciar durante as suas vidas. Na tarde desse mesmo dia, nas cercanias da vila de Tomar, a escuridão que se abate de repente sobre o mundo precipitará o parto de uma jovem a caminho de casa, cujo filho nasce com uma estranha marca no peito, vista imediatamente como castigo divino e maldição eterna. Mas será, curiosamente, esse sinal raro que aproximará a vida do recém-nascido da dos dois alquimistas e coserá para sempre os seus destinos. Mesmo que o rapaz só o venha a saber muitos anos depois. Quiçá tarde de mais. Passado numa época de grandes transformações sociais, fausto, riqueza e avanço científico e intelectual, Os Dias de Saturno – do autor do aplaudido A Demanda de D. Fuas Bragatela – é um romance fascinante sobre o amor e a sua impossibilidade, com doses iguais de humor e dramatismo, escrito numa linguagem que torna a sua leitura irresistível. A não perder.


PAULO MOREIRAS nasceu em 1969 em Lourenço Marques, Moçambique. Veio para Portugal em 1974. Viveu em Finzes (Cinfães), Laranjeiro (Almada) e vive actualmente em Meirinhas (Pombal). Desejou fazer cinema de animação e enamorou-se pela banda desenhada. Após algumas experiências com fanzines, começou a publicar poesia em edições artesanais. Apaixonou-se pela literatura picaresca e publicou o seu primeiro romance A Demanda de D. Fuas Bragatela (2002), seguindo-se um livro de poesia Do Obscuro Ofício (2004) e o Elogio da Ginja (2006). Entre outras coisas, escreveu também o BI da Cereja e da Ginja (2007), o BI do Palito (2007) e o BI do Tremoço (2008).

Nota: O lançamento de Os Dias de Saturno, realizar-se-á na Pó dos Livros dia 22 de Outubro pelas 18h30. A apresentação de Maria Lúcia Lepecki.

Edição: QuidNovi
Autor: Paulo Moreiras
N.º Pág. 208
Isbn: 9789896281502
Pvp: 14.95€