*imagem: pormenor de um cartaz desenvolvido pela Fischer para a Pó dos Livros

Segunda-feira, Novembro 30

Uma questão de gosto?

- Como se distingue um livro que contém em si quase uma “inspiração divina” de outro que é pura conversa da treta?
- Para além todas as diferenças óbvias, o segundo vende-se.
- Isso não será uma falsa questão que se resume apenas a uma questão de gosto?
- Quando um ignorante proclama que nada está escrito sobre o gosto, eu diria que nada está lido sobre o gosto, por ele é claro!

Monólogo de um livreiro anónimo, a partir de uma frase de Saint-Beuve, depois de ver uma novidade que era qualquer coisa... que me esqueci.

Sábado, Novembro 28

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Sexta-feira, Novembro 27

Para que não tenham que bater com a mão na testa


Má Sorte de Solteiro

Parece tão terrível ficar solteiro transformar-me num velho que luta para manter a sua dignidade enquanto suplica um convite sempre que quer passar uma noite acompanhado, ficar na cama doente a olhar, do canto onde a cama está, para um quarto vazio durante semanas, tendo sempre que dizer boa-noite à porta de casa, nunca correr escada acima ao lado da minha mulher, ter apenas portas laterais na minha sala que vão dar à sala de estar de outras pessoas, ter de levar o meu jantar na mão para casa, ter de admirar os filhos dos outros sem sequer me ser permitido dizer: «Eu não tenho nenhuns», moldando-me segundo a aparência e o comportamento de um ou dois solteirões recordados da minha juventude. É assim que será, excepto que, na realidade, tanto hoje como mais tarde, estarei ali com um corpo palpável e uma cabeça verdadeira, uma testa verdadeira, ou seja, para lhe bater com a minha mão.

Franz Kafka

Nota: Entre 1914 e 1924, Franz Kafka esteve três vezes perto do casamento. Desistiu sempre. Tentou primeiro por duas ocasiões com Felice Bauer, uma alemã com quem se correspondeu até 1917. E uma última vez com Milena Jesenská uma mulher muito mais nova que ele. Morreu solteiro e sem filhos no dia 3 de Junho de 1924, com apenas 41 anos no sanatório Kierling perto de Klosterneuburg na Áustria.

Neste Natal

Estrofes & Versos


O Abutre e Outras histórias, de Franz Kafka; Aventura da Memória e Outros Contos, de Voltaire; Insónia, de Aluísio de Azevedo e O Guinéu da Órfã, de Charles Dickens são os quatro primeiros títulos de uma nova editora nascida em Agosto deste ano, com o nome Estrofes & Versos, à qual damos as boas vindas. Estes apetecíveis livrinhos, com um formato 10x15cm, são totalmente feitos em papel reciclado. Dos contos não necessitamos falar, basta o nome dos autores.

Edição: Estrofes & Versos
Pvp: 7.00€

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Fio do norte- Também chamado fio de vela ou o sapateiro. Útil para juntar, em molhos, cartas de amor, amarrar pacotes ou fazer guita para papagaios de papel. Em caso de necessidade, pode substituir muitos outrso tipos de fio (excepto, talvez, o fio dental).


Ácido Muriático-o mesmo que ácido clorídico, solução aquosa de cloreto de hidrogénio. Serve para desencardir sanitas (tal como a coca-cola, diz-nos o Sr. Rufino).

Amigos do senhorio-São pregos especiais que permitem pendurar molduras e outros objectos sem danificar as paredes. Existem em diferentes tamanhos, para usar consoante o peso em questão.

Goma-laca-É uma substância extraída de um insecto (a cochinilha). Usa-se, por exemplo, para envernizar móveis. Já agora fique a saber que móveis envernizados com goma-laca não gostam de produtos químicos. Um pano macio basta.*

Não mudamos de ramo, apenas nos entrou porta adentro a Rufino & Filhos em forma de agenda para 2010 da editora Planeta Tangerina. O Sr. Rufino é muito simpático e já nos divertimos a aprender ou recordar, estes e muitos outros nomes e significados.

Rufino & Filhos desde 1948 - agenda 2010, Planeta Tangerina - pvp 9.60 euros.

Débora Figueiredo

Quinta-feira, Novembro 26

Quarta-feira, Novembro 25

Sou um livro de autor premiado


Papel de 80 gramas, traduzido, paginado e revisto sem pressas, com todas as regras que o melhor profissionalismo editorial exige. Foi assim que fui feito, depois de ter nascido da mão de um escritor, eu e mais 3000 irmãos gémeos verdadeiros. Deram-me uma capa. Infelizmente não é dura, como as que se dão aos clássicos, mas é condigna e tem uma foto tratada em photoshop, linda, como se usa agora. Assinado por um autor premiado e com boas críticas, tudo devidamente destacado numa cinta de cor garrida. Com um título sugestivo, estou sentado – ou melhor deitado, porque um livro sozinho não se consegue sentar, a menos que peguem nele –, como dizia, estou deitado numa mesa central da livraria, ao lado de outros romances, alguns tão novos quanto eu, à espera. Dizem, os mais velhos, que sou um sortudo, que a maior parte deles vai sozinho para as prateleiras de canto, enquanto esperam, coitados, de pé. Mas eu tenho tudo para que me vejam, toquem, cheirem, abram e, de um impulso, me levem.
Parecem passos, acho que vem aí alguém, não esperava que fosse tão rápido. Não consigo distinguir se é homem se é mulher, jovem ou mais velho. Disseram-me, em conversa com os outros, que a livros como eu costumam levá-los as mulheres maduras. Espero então que quem se aproxima seja uma mulher. Não vai ficar desapontada com o que tenho para lhe contar: o meu autor é, como já disse, premiado. Mas, para além disso, eu tenho tudo. Intensidade dramática, personagens bem construídas, uma narrativa fluida, ao mesmo tempo poética, bem escrita, original e um fim, esse então, completamente inesperado.
Sempre era uma mulher, mas não me levou, preferiu outro, um com uma flor na capa e dentes de vampiro. Não desespero, há-de aparecer alguém com mais bom gosto. Digo eu!...

Os meus pensamentos começam a ficar confusos, não sei se passou um dia, se passaram 15 dias ou meses. Seja como for, o tempo começa a esgotar-se. Senão aparecer ninguém rapidamente… Nem quero pensar nisso.
Finalmente, pegam em mim. Espera!... Eu conheço-o. É o livreiro que me pôs aqui, aquele que de vez em quando vem dar-me um jeito, virar-me com a cara para cima, porque me deixam desleixadamente de cara para baixo. Sejamos sinceros, quem é que gosta de estar de rabo virado para os outros?
Mas, o que...? Ele não veio para me virar para cima, porque assim já eu estou. Sei qual vai ser o meu destino. Já tinha ouvido rumores, contados com desprezo por aqueles que dizem ser de uma estirpe diferente, os livros de top. Todos achávamos que não passavam de rumores. Agora sei que é verdade, e está a acontecer comigo.
Fui levado numa caixa de cartão, juntamente com muitos outros indesejados da mesma editora, sem respeito, nem cuidados especiais, em monte, uns em cima dos outros, como se fossemos livros sem direitos e sem qualquer identidade. E agora é o fim, ingloriamente transformado em pasta de papel.

Eu tinha tudo, ouviram? Sou um livro de autor premiado...


Jaime Bulhosa

Terça-feira, Novembro 24

O Homem Que Não Tira o Palito da Boca



«O autor usa uma linguagem magnificamente técnica, semiótica, de lógica formal e jurídica – obsessivamente perfeccionista, requintada, paranoicamente explicativa – para tratar de questiúnculas ou, pelo contrário, explicar formalmente, com uma lógica administrativa, a podridão familiar, política, económica, o quotidiano de miséria, prostituição, indecência, malfeitoria e sacanice (no Sambila e outros bairros) de pobres diabos e cidadãos abandonados pelos coevos. Histórias de casais e traições (infidelidades) são uma das obsessões divertidas de Melo. E, depois, há o tema das raças, cores de pele, classes, mas também o do assassinato piedoso, entre tantos.»


Edição: Editorial Caminho
Autor: João Melo
sbn:9789722120777
Pvp: 13.00€

O Homem Que Não Tira o Palito da Boca

(para ampliar clique sobre a imagem)


O livro nem sempre foi democrático

Que o livro se democratizou é uma realidade inquestionável. Hoje em dia, tem-se acesso aos livros um pouco por toda a parte. Quase poderei dizer que, actualmente, toda a gente sabe o que é um livro. Não digo que todos tenham lido um livro, mas, provavelmente, já viram ou até já lhe tocaram. Quando comecei a trabalhar em livrarias, há mais ou menos 25 anos, ainda existia gente que tinha receio (não sei bem porquê) de entrar nesse local “sagrado” que eram as livrarias. Não que não houvesse, por parte dessas pessoas, interesse pelos livros, mas a verdade é que era muito mais por mera curiosidade, como aquela que se sente por aquilo que sabemos não poder atingir, do que por um verdadeiro empenho em os adquirir. Podem achar exagerado, mas a verdade é que essas pessoas apenas olhavam para a montra e, quando muito, através dela para dentro da loja. Como quem olha para um clube privado inglês, a que só alguns têm acesso, cheio de gente com poder, um pouco excêntrica por gostar daqueles artefactos estranhos, que contém segredos inescrutáveis, só ao alcance da sabedoria, entendimento e carteira de alguns privilegiados. Obviamente, havia aqueles mais afoitos que se atreviam a entrar, a medo, muito discretamente, olhando em volta, deslumbrados por aqueles objectos cheios de segredos e cores que, para eles, sempre tinham sido intangíveis. Com muito respeito e as palavras escolhidas, nunca tocavam nos livros sem antes pedir autorização, depois voltavam, com muito cuidado, a colocá-los no mesmo lugar, como se fossem frágeis, como copos de cristal. Sem darem conta, revelavam a sua condição quando ousados comentavam:
- Que linda papelaria o senhor aqui tem! E os livros são todos ao mesmo preço?
Estes tempos felizmente acabaram. Porém, houve tempos piores. Um velho livreiro já falecido contava-me a história de como antigamente, isto é, durante o Estado Novo, eram poucos os que entravam nas livrarias e aqueles que entravam nem sempre eram clientes. Acrescentava:
- Naquele tempo, havia livros proibidos, que se vendiam unicamente por debaixo do balcão, eu só os vendia quando tinha a certeza de que era mesmo um cliente que tinha à minha frente, não fosse ser apanhado.
Perguntei-lhe como conseguia distingui-los. Disse-me:
- A maior parte, já os conhecia, eram sempre os mesmos; mas, em caso de dúvida, tinha um método infalível para os distinguir. Fazia-lhes, dissimuladamente, um pequeno teste de cultura geral, antes de lhes dizer se tinha ou não o livro. Se passassem no teste, eram clientes, se não passassem, eram agentes da PIDE.

Jaime Bulhosa

Segunda-feira, Novembro 23

A Fábula


Uma história alegórica da Primeira Grande Guerra, passada nas trincheiras em França e que trata de um motim num regimento francês, foi originalmente considerada um afastamento vincado das obras anteriores de Faulkner. Nos últimos tempos começou a ser considerada como um dos seus principais romances e uma parte essencial da obra de Faulkner. O próprio Faulkner combateu na guerra, e as descrições que faz dela «ascendem ao magnífico», segundo o New York Times, e incluem, nas palavras de Malcolm Cowley, «algumas das cenas mais poderosas que ele alguma vez concebeu.» Este romance foi galardoado tanto com o Pulitzer Prize bem como com o National Book Award em 1955.


«Se todos nós, o inteiro batalhão, pelo menos um batalhão, deixar as carabinas e as granadas e tudo para trás de nós na trincheira: trepar apenas de mãos nuas por cima do parapeito e atravessar o arame farpado e depois caminharmos apenas de mãos nuas, não de mãos erguidas para nos rendermos mas apenas abertas para mostrar que não temos nada para magoar, para ferir ninguém; não a correr, a tropeçar: apenas a avançar como homens livres que não querem nada excepto voltarem para casa e enfiarem-se em roupa limpa e trabalharem e beberem um pouco de cerveja à noite e conversarem e depois deitarem-se e dormirem e não terem medo. E talvez, apenas talvez, muitos dos alemães também queiram o mesmo, ou apenas um alemão que não queira mais do que isso, que ponha a sua carabina e granada no chão e também saia de mãos vazias não para se render mas apenas para que todos os homens vejam que não tem nada nelas nem para magoar...»

Edição: Casa das Letras
Autor: William Faulkner
Tradução: Maria João Freire de Andrade
Isbn:9789724618777
N.º Pág.331
Pvp:18.00€

Sexta-feira, Novembro 20

Disparates literários


Poderíamos considerar diversos candidatos ao prémio de autor dos maiores disparates da literatura. Como Shakespeare, que assumia que a Boémia, situada onde é hoje a República Checa, tinha uma longa costa marítima, ou Walter Scott, que no seu livro The Antiquary escrevia que o sol se punha a leste, ou Miguel Sousa Tavares, que no seu livro Equador imaginou o governador de S. Tomé a fazer uma visita ao delegado do procurador da República, em Março de 1906, em pleno regime monárquico. A ficção científica também é pródiga, por razões óbvias, em afirmações que mais tarde se vem a verificar serem disparatadas e até engraçadas. Por exemplo: Arthur C. Clarke afirmou em 1966 que as casas voariam por volta do ano 2000: “(…) e virá o tempo em que comunidades inteiras migrarão para o sul no Inverno, ou mudarão para novas terras sempre que sentirem vontade de mudar de cenário.” Dionysius Lardner (1823) escreveu: “As viagens de comboio de alta velocidade não serão possíveis, os passageiros, impedidos de respirar, morrerão por asfixia.” John Langdon-Davies, no seu livro A Short History of the Future (1936), disse: “Por volta de 1960 o trabalho será limitado a três horas por dia” (era bom, não era?). R. Buckminster Fuller (1966) tem uma tirada fabulosa: “No futuro (2000), os políticos simplesmente desaparecerão. Não veremos mais nenhum partido político.” Ou quando alguém acerta (1949): “No futuro, os computadores não pesarão mais do que 1,5 toneladas. Na passagem da literatura para o cinema, também encontramos exemplos. No filme The Third Man, adaptação do livro de Graham Greene (que não tem qualquer responsabilidade sobre o erro), a personagem de Harry Lime faz o seguinte discurso:

A Itália, durante trinta anos sob o poder dos Borgias, ofereceu-nos guerra, terror, assassínios e derramamento de sangue. Mas também nos deu Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. A Suíça tinha amor fraterno, 500 anos de Democracia e paz, para além de ter inventado o relógio de Cuco (...).

O discurso foi composto por Orson Welles quando representava o personagem Harry Lime. Welles escreveu um excelente texto, mas era péssimo em Horologia. O relógio de cuco foi inventado em meados do século XVIII não na Suíça, como ele afirma, mas sim na região do sul da Alemanha, que também nos deu Goethe, Kant, Schiller, Beethoven e Hegel. A mesma região que nos proporcionou, provavelmente, o maior erro e disparate de todos os tempos, e do qual saiu imensa produção literária, Adolf Hitler, Mein Kampf e seu Partido Nacional Socialista.

Jaime Bulhosa

Quinta-feira, Novembro 19

História de Angola


Este livro História de Angola resulta de um incomparável trabalho de investigação e, simultaneamente, de síntese, levado a cabo por dois historiadores do colonialismo africano internacionalmente consagrados.
Num só volume, ficamos a conhecer a composição social do território angolano, a evolução do domínio português e as formas de organização económica e política ainda no tempo da mais dura escravatura, bem como o lentíssimo avanço para formas mais modernas de organização colonial. Ficamos também a compreender a inexorável formação dos inúmeros movimentos nacionalistas angolanos – dos europeus independentistas às tribos associadas em trono de líderes carismáticos -, até à formação de partidos políticos consistentes, disputando o país contra Portugal e entre si próprios. Finalmente, ao desfecho da conquista da independência segue-se um resumo dos violentos anos de guerra civil, rematados pela recente história de relativa acalmia política, com enfoque nas condições socioeconómicas da Angola contemporânea. Neste livro, os leitores podem ainda usufruir de uma extensa bibliografia internacional única em Portugal, com as mais diversas perspectivas sobre Angola.

Edição: tinta-da-china
Autor: Douglas wheeler e René Pélissier
Tradução:Pedro Gaspar Serras Pereira
N.º Pág. 469
Isbn: 9789896710057

Pvp: 24.90 €

Marcas da Lusofonia na Literatura Portuguesa Contemporânea

Realiza-se hoje aqui na Pó dos livros pelas 18h30, conversas à volta do livro Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas. Estas conversas terão como tema central as marcas da lusofonia na literatura portuguesa contemporânea. Para além de Francisco José Viegas teremos também como convidados: Mónica Marques e José Eduardo Agualusa.

Quarta-feira, Novembro 18

Querem reinar ao guelas?

Lá na minha rua no bairro social dos Olivais sul, no tempo em que ainda praticamente não havia barreiras nem muros de espécie alguma entre os quintais, nós tínhamos um assobio. Era um assobio personalizado, com uma melodia própria, de forma que fosse facilmente identificado entre os assobios de outros grupos de miúdos, e que usávamos como chamamento para as brincadeiras ou aviso de aproximação de algum perigo. Soava mais ou menos assim: fiiiuuu, fuuuiii, viiuuu (nunca consegui assobiar bem). Na minha rua, os amigos e as brincadeiras estavam divididos hierarquicamente por idades e sexo, e as regras eram feitas, quase à semelhança do livro de William Golding, O Deus das Moscas, na ausência da supervisão dos adultos. Como uma ilha dentro de uma cidade, a rua organizava-se por grupos: o grupo dos miúdos dos cinco aos oito, o dos nove aos doze, o dos treze aos dezasseis e por aí fora. Também como no livro, os mais velhos e fortes ditavam as leis. Mas ditavam também as modas, e as modas eram as brincadeiras. Elas apareciam sazonalmente, por épocas: a época do pião, a dos carrinhos de esferas, a do jogo de berlinde, etc. No Inverno, os jogos de casa: o mikado, o dominó, o monopólio e muitos mais, só o futebol atravessava o ano inteiro.
Se conhecessem o meu assobio, assobiava agora mesmo para vos convidar a «reinar» comigo ao «guelas», ao mikado, ao dominó ou a outro jogo qualquer. É que estes e outros jogos chegaram à Pó dos Livros. Assim que os vi, regressei à minha infância.

Jaime Bulhosa

Terça-feira, Novembro 17

Inspiração literária


Num evento literário, numa conversa de circunstância entre escritoras:

- Há quanto tempo!
- É verdade, há muito.
- O quê… há mais ou menos vinte anos que não nos víamos?
- Ou mais! E tu estás igualzinha.
- Tu também, e o cabelo loiro fica-te muito bem.
- Obrigada. O que é fazes aqui num evento de editora?
-Sou professora e autora de alguns livros. E tu?
Muito orgulhosa responde:
- Eu escrevi um livro, um romance.
- Parabéns. Dizem que para escrever um romance é necessário ter um momento de grande inspiração?
- Sim, não é fácil imaginar uma história que seja apelativa e ao mesmo tempo original, a inspiração não surge constantemente e o processo de escrita pode ser penoso. Algumas ideias deste livro foram retiradas de acontecimentos recentes e verídicos, passados comigo e muito dolorosos.
- Não sabia, mas está tudo bem?
- Sim já passou. E tu, que tipo de livros é que escreves?
- Livros de matemática, mais precisamente exercícios de integrais duplos, triplos, de linha e de superfície e também de cálculo diferencial em IRn.
- Que interessante!... E onde vais buscar a tua inspiração?
Sem saber bem o que responder:
- Também em momentos muito dolorosos; mas neste caso para os meus alunos.

Jaime Bulhosa

Pergunta ao Pó

Chegaram recentemente às livrarias os primeiros títulos publicados pela Ahab Edições. Com sede no Porto, a editora aposta na literatura traduzida e começa com obras de Fante, Solstad e Stuparich. O nome da nova editora Ahab é a personagem central do romance "Moby Dick", de Herman Melville, cuja versão cinematográfica de 1956 contou com Gregory Peck no papel do inflexível capitão. É na obstinada perseguição à baleia que os responsáveis por este novo projecto vão buscar o paralelismo: "Nós embarcamos na editora com essa obstinação, para caçarmos a boa literatura por todas as paragens do Globo", diz Tiago Szabo.


Pergunta ao Pó é a história de Arturo Bandini, um jovem aspirante a escritor recém-chegado à Los Angeles dos anos 30. Lutando pela dura sobrevivência diária enquanto sonha com o sucesso literário, Bandini vai-se deixando fascinar pelo lado sórdido da cidade até se envolver com a esquiva e temperamental Camilla Lopez, uma empregada de bar mexicana. A paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace. Pergunta ao Pó é uma obra marcante de um mestre da ficção americana do século XX e foi adaptado ao cinema por Robert Towne, que o classificou como o melhor romance alguma vez escrito sobre Los Angeles.


Edição: AHAB
Autor: John Fante
Tradução:Rui Pires Cabral
Isbn:9789899634008
Pvp: 17.95

Sábado, Novembro 14

De Espanha...


Minotauro é uma nova chancela das Edições 70, com direcção editorial de António Sáez Delgado, que vem colmatar uma lacuna na edição em Portugal. "O projecto Minotauro visa dar a conhecer ao leitor português textos de autores espanhóis contemporâneos cujas obras se destaquem pelo seu cunho literário e pela universalidade dos seus temas. Inclui obras de autores consagrados, mas pretende também fazer a ponte com a nova geração de escritores, sinal da pujança de um idioma e de uma cultura que nos são próximos, ainda que, por vezes, distantes."

Estes são os quatro primeiros títulos editados:

Título: Crematório
Autor: Rafael Chirbes
Tradução: Miguel Serras Pereira
ISBN: 9789724415482
PVP: 23.00€







Título: Sem Necessidade
Autor: Julián Rodrigues
Tradução: Luís Filipe Sarmento
ISBN: 9789724415574
PVP: 12.00€



Título: Bingo!
Autor: Esther Tusquets
Tradução Luís Filipe Sarmento
ISBN: 9789724414478
PVP: 12.00€


Título: Contra-natura
Autor: Álvaro Pombo
Tradução: Miguel Serras Pereira
ISBN: 9789724414461
PVP: 24.00€
Isabel Nogueira




Quinta-feira, Novembro 12

Leitura colectiva


«Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Este lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade como por exemplo a portuguesa.»

Manuel Medeiros em Papel de Mais

Papel a Mais


Na sua génese, Papel a Mais estava pensado para ser um livro de poesia, reunindo alguma da produção poética de Resendes Ventura de 1993 até 1998, completando-se com o conjunto «3 Rédea-soltas». Com o adiamento da publicação, sentiu o autor necessidade de se explicar num texto introdutório, «Papeis de um Livreiro – uma Introdução a Papel a Mais», onde, entre elementos biográficos de carácter mais pessoal, R.V. vai discorrendo sobre a sua condição de livreiro desde 1969, num país de grande atraso cultural e fracos índices de leitura, onde tem sido difícil implementar elementos reguladores que permitam um acesso eficaz de todos à leitura.
As reflexões sobre a problemática do livro e da leitura continuam em «Post--Scriptum Redundante a Papel a Mais», no texto «Elogio da Redundância», escrito já em 2009, pouco antes de se iniciar a publicação da obra.
Papel a Mais é claramente um livro de afectos, afectos manifestados de diversas formas. Neste sentido tem especial destaque uma parte do livro designada por «Escrita Amiga»: surgindo entre o núcleo principal da obra e o «Post-Sriptum Redundante», encontramos um conjunto assinalável de textos inéditos de escritores relevantes, amigos do autor. São eles Armando Côrtes-Rodrigues, Avelino de Sousa, Eduíno de Jesus, Fausto Lopo de Carvalho, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Sebastião da Gama, Silva Duarte, Urbano Bettencourt, Urbano Tavares Rodrigues e Teresa Rita Lopes. José Ruy colabora com uma ilustração.
Cada parte do livro separa-se da seguinte através de um desenho da autoria de Resendes Ventura, daqueles que o autor vai deixando espalhados nas páginas dos diversos cadernos que sempre o acompanham, criados entre 2002 e 2008, a fase mais produtiva dos seus «traços a tinta negra».
Conhecedor profundo dos meandros do livro, já que em 2009 completa quarenta anos de actividade livreira, reflectindo, muitas vezes publicamente, sobre as questões do livro em Portugal nas suas diversas dimensões, o autor dá, assim, um precioso contributo para o estudo deste sector, dando a ver/ler a posição e a voz do livreiro, esse agente cultural importantíssimo e, infelizmente entre nós, quase sempre ignorado e votado ao ostracismo pelo poder, pelas instituições e seus decisores.
Papel a Mais é, pois, um livro a ser lido por aqueles que gostam de poesia, mas, acima de tudo, deve ser lido por todos os agentes culturais e institucionais que se movem no meio do livro e da leitura e desejam fazer sobre ela uma reflexão séria: decisores do poder central e local, livreiros, bibliotecários, jornalistas culturais e críticos literários, editores e distribuidores livreiros, investigadores do livro e da leitura, promotores, animadores e mediadores de leitura, professores e educadores, enfim, todos os que se interessam pelo livro, procurando que o número de leitores seja algo em permanente crescimento.
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Edição: Esfera do Caos
Autor: Resendes Ventura

Segunda-feira, Novembro 9

Os livreiros


Fui convidado para fazer parte do júri dos Prémios Edição Ler/Booktailors deste ano. De entre muitas categorias propostas para atribuição de prémios, há uma que me é especialmente cara: a categoria de Livreiro.

Os livreiros?... Quando digo “livreiros” não me refiro às pessoas que casualmente ou temporariamente vão vendendo livros um pouco por toda a parte (sem qualquer tipo de desconsideração para com estas). Os livreiros, e eu conheço alguns, são aqueles que por terem passado tanto tempo manuseando livros se começam a confundir com eles. São como aqueles casais, cujo fácies, após tantos anos de casamento, se assemelha. – Estão a ver?
Um livreiro é praticamente um livro, ou melhor, bocadinhos de muitos livros. Não dos novos, os de quinze minutos de fama, mas daqueles com folhas amareladas, coladas que se abrem com uma lâmina e que fazem comichão no nariz, do pó que levantam. Daqueles que até as traças (mais conhecidos por peixinhos-de-prata, que pertencem à ordem Thysanur) sabem que são melhores para alimento, ou que, como dizia George Orwell, as moscas azuis escolhem para morada eterna. Os livreiros, porque já não se vendem, só raramente se encontram nas prateleiras das livrarias. Porém, quando os encontramos, dificilmente passamos sem os consultar. Se os abrimos a surpresa é grande: cheios de histórias para contar, deles, dos outros e dos livros. Pode ser uma pequena estória, um diálogo que ouviram, um poema que leram, um aforismo muito antigo, lido e repetido em tantos livros que deixou de ter autor e passou a ser deles. Normalmente são cultos, não tanto pelo que lêem, embora leiam muito; mas muito mais pelo que ouvem. - Só provavelmente num confessionário ou num bar se ouve mais. Os livreiros são aqueles que melhor têm a noção da futilidade ou da importância dos livros. Sabem que os livros também são uma mercadoria que se compra e se vende e de que eles próprios, livreiros, fazem parte.

Os livreiros são livreiros porque têm uma dupla finalidade, uma delas é pública, a outra é, muito secretamente, pessoal. A pública é a de vender livros e divulgar a leitura, fazendo-o ao partilhar com os outros as suas próprias leituras. A outra, como dizia um editor meu conhecido, no fim da sua vida: «Eu errei sucessivamente de profissão, o que eu queria era estar junto dos livros para poder ler o que me apetecesse.»


Jaime Bulhosa

Sábado, Novembro 7

Ilusão (ou o que quiserem)



Jorge é uma espécie de actor que vive de expedientes (anúncios, dobragens, figuração), à espera da sua oportunidade; o grupo de teatro a que pertence não se entende sobre o próximo projecto. Quando a mulher, uma professora de Português profundamente deprimida, entra em furor pedagógico, abre espaço e põe em marcha uma série de acontecimentos que terão para Jorge a importância de uma única, ténue revelação.

Esta é a história de uma separação, mas também de uma paixão obsessiva, de uma viagem patética, de um projecto que corre bem demais, e de outras peripécias.

Ilusão (ou o que quiserem) é um romance satírico sobre um homem à procura da realidade, no meio de tantos, tantos fantasmas, vozes sem corpo, corpos sem voz, e da multidão de desconhecidos que faz parte da nossa vida de todos os dias.
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Edição: Dom Quixote
Autor: Luísa Costa Gomes
ISBN: 978-972-20-3893-5
Páginas: 192
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm
Colecção: Autores de Língua Portuguesa
Encadernação: brochado
Preço : 12.95 €

Atentar Contra Si

Atentar Contra Si é uma reflexão filosófica sobre a morte voluntária sem chegar a ser um ensaio filosófico no sentido mais estrito de um escrito disciplinar. Nele são pensados certos temas que desde os primórdios do pensamento filosófico foram articulados com a reflexão sobre a morte: a relação entre corpo e espírito, a liberdade e responsabilidade intrínsecas à decisão humana, a relação com o Outro. São pensados sem que lhes seja dada uma solução, e não somente pensados, pois Améry debate-se com o que pode ser a decisão de se dar a morte, uma morte livre. O suicídio é enfrentado num plano íntimo e absolutamente pessoal, o que equivale a um ponto de vista anterior a qualquer consideração da psicologia ou da sociologia. Améry descobre o suicídio como um acto paradoxal, mas não absurdo; paradoxal pois contrário à lógica da vida, mas não um sem-sentido. No embate com a morte voluntária, o encontro do paradoxo permite-lhe tentar a conquista do lugar que é o de todos os suicidas, seja qual for a sua situação particular.
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Edição: Assírio & alvin
Autor: Jean Améry
Tradução: Pedro Panarra
Isbn:9789723714067
Pvp:17.00€

Sexta-feira, Novembro 6

O Espectáculo da Vida



A evolução é um facto que não suscita dúvidas razoáveis, dúvidas sérias, dúvidas inteligentes, informadas e saudáveis. Não há dúvida de que a evolução é um facto. As provas da evolução são pelo menos tão fortes como as do Holocausto, mesmo considerando a existência de testemunhas oculares deste último. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés, primos mais distantes dos macacos, primos ainda mais afastados dos papa-formigas e manatins, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos… a lista poderia continuar para sempre. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma. A evolução é um facto e este livro demonstrá-lo-á. Nenhum cientista respeitável o discute e nenhum leitor imparcial concluirá este livro com dúvidas a esse respeito.
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Edição: Casa das Letras
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Isabel Mafra
Isbn:9789724619354
Pvp: 19.00€

Quinta-feira, Novembro 5

Quarta-feira, Novembro 4

Crise nos livros... qual crise?


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O mais curto poema


Um dos mais vezes encurtados poemas de referência da língua inglesa é a 4.ª secção do poema de T.S.Eliot The Waste Land, o qual foi drasticamente reduzido por Erza Pound no seu poema il miglior fabbro, a dez linhas elípticas. Mas o poema geralmente considerado como o mais curto poema narrativo na língua inglesa é Fleas” (pulgas):

Adam
Had’em

(tradução: Adam tinha-as)

Nota: Autor desconhecido e completamente não canónico.

Ainda sobre Pseudo-editoras

Retirado daqui (vale a pena ler)

Terça-feira, Novembro 3

Comentário ao post anterior "Pseudo-editoras"

Achámos pertinente publicar este comentário, não pelo elogio que nos faz mas pela importância da denúncia.
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«Muito bom post! Fico contente por os próprios livreiros denunciarem a situação destas "pseudo-editoras" que têm proliferado assustadoramente nos últimos anos, graças a Internet e facilidades de impressão digital. Tenho desenvolvido uma certa cruzada contra essas pseudo-editoras, e ainda recentemente encontrei mais um exemplo péssimo vindo do Norte (não sei bem porquê, mas a maioria destas empresas estão sedeadas no Norte) em que se promovia um concurso de conto e poesia com direito a publicação numa "antologia de talentos". Ora foram seleccionados 80 (!!) autores que foram encafuados numa edição péssima, sem revisão, sem paginação digna desse nome. Preço final: 20 euros. Os autores não tinham direito a um exemplar grátis. O pagamento dos direitos equivalia apenas a um desconto de 20% com prazo de validade de 1 mês... É inacreditável a desfaçatez! E a pseudo-editora promoveu uma festinha de lançamento em que à custa de venda de exemplares a autores não só pagaram os eventuais gastos que tenham tido, como ainda meteram €€ no bolso. E quando se pergunta onde anda essa antologia à venda, ninguém sabe responder... E há muitos outros casos. Dói-me ver pessoas que não têm noção de como o mercado de edição funciona a serem completamente roubadas por esses esquemas gananciosos e desonestos. Se algumas não passam dos 250 a 300 euros outras há as que têm assumido uma fachada bem mais sofisticada e cobram valores na ordem dos 1000 euros para cima. Não ajuda o facto de as vantagens do sistema POD estarem constantemente a serem enfiadas no mesmo saco dessas empresas que recorrem a esse tipo de impressão. Uma coisa é o sistema que é bom, outra coisa é o aproveitamento desonesto que se faz desse sistema. Isto tem muito que se lhe diga, mas é urgente lançar o alerta aos leitores e aspirantes a escritores incautos. No estrangeiro, o trabalho de vanity-presses já foi mais do que denunciado, mas em Portugal ainda há muito a fazer.»
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Safaa Dib

Pseudo-editoras


Todos nós sabemos que a Internet, para além das muitas vantagens, traz consigo algumas desvantagens, como a de potenciar crimes e burlas. Na Internet o que não falta são blogues, dos mais diversos assuntos e gostos, mas todos com uma coisa em comum: são escritos por pessoas, as quais podem ser enganadas. Existe um grande número de blogues pessoais que traduzem sobretudo o gosto pela escrita, desde a poesia, os aforismos, pensamentos, contos, etc. A maior parte dos autores dos blogues nesta área terá no seu íntimo, nem que seja secretamente, o desejo de um dia vir a ser escritor, editado e reconhecido. Independentemente de se ter noção da qualidade daquilo que se escreve, quem é que resiste à tentação de responder a um e-mail que elogia a nossa escrita e nos pergunta: «Por acaso nunca pensou em editar em livro o seu magnífico blogue?», ou «Quer editar o seu livro?», «Quer editar os seus poemas?», «Quer editar os seus contos ou romance?»
O que aqui denuncio não sei se pode ser considerado crime, mas é no mínimo desonesto. Não posso revelar os nomes das pseudo-editoras, porque apenas disponho do testemunho de pessoas que vêm à livraria perguntar pelo seu livro. A resposta é invariavelmente a mesma: nunca recebemos esse livro nem sequer temos conhecimento da sua existência. Desiludidas por raramente encontrarem o seu livro numa livraria, estas pessoas acabam por desabafar e contar-nos como se sentem enganadas. O truque consiste no seguinte: as pseudo-editoras, aproveitando-se do desejo, natural, de quem gosta de escrever e tem um blogue, envia um e-mail elogiando a escrita do autor e propondo-se a ajudá-lo a editar os seus esplêndidos textos. Em troca, com o argumento de que ele ainda é um ilustre desconhecido, pedem-lhe uma comparticipação nos custos da edição e distribuição. Os valores em causa não são grandes, na ordem dos 200 ou 250 euros. Se tiver em conta que poderá ver, no futuro, o seu livro editado e distribuído por todo o país, estes valores parecem ainda mais insignificantes. Não resistindo ao apelo, muito boa gente entra no negócio e só mais tarde se apercebe de que pagou esse valor por 20 exemplares, a que necessariamente tem direito como autor. Compra-se um serviço que oferece livros impressos digitalmente, com miseráveis revisões, péssimo papel e capas horrorosas que valem bastante menos do que o dinheiro que o autor adianta. Para além disto, o contrato que estas pessoas assinam não lhes concede direitos de autor, a não ser que exista no futuro uma segunda edição, coisa que nunca sucede, pois é raro as livrarias receberem sequer estes livros. Não sabemos se de facto se editam mais exemplares e se é feita uma posterior distribuição da mesma pelo mercado. Os seus autores não têm nenhum tipo de controlo neste tipo de edição, na maior parte das vezes feito totalmente por e-mail, não havendo nunca um contacto directo e presencial com os pseudo-editores. Fica aqui o alerta.

Jaime Bulhosa

Segunda-feira, Novembro 2

Criação de traças

A Pó dos livros vai começar a fazer criação de traças e se na próxima Feira do Livro lhe poisar uma no seu ombro não se assuste, ela vai estar apenas em missão publicitária.

Bartleby, o Escrivão


No segundo decénio do nosso século, Franz Kafka criou uma forma notável do género fantástico em cujas páginas inesquecíveis o inacreditável assenta mais no comportamento das personagens do que nos factos. Assim, em O Processo (Der Prozess) o protagonista vê-se julgado e executado por um tribunal destituído de qualquer autoridade, cujo rigor aceita sem o mínimo protesto. Melville, mais de meio século antes, cria o estranho caso de O Escrivão Bartleby, que não só age de forma contrária a toda a lógica, como constrange os outros a tornarem-se seus desalentados cúmplices.


Edição: Presença
Autor: Herman Melville
Colecção A Blioteca de Babel dirigida: Jorge Luis Borges
Tradução: Maria João da Rocha Afonso
Isbn: 9789722342414
Pvp: 12.00€