terça-feira, janeiro 12

Facturas obituárias


Conto esta história de memória, conforme ma contavam a mim. Não sei a sua origem, nem se é verdadeira. Dizia-se que um livreiro e a sua secretária e amante, com cara de poucos amigos, mantinham uma livraria decrépita e decadente na baixa de Lisboa, o assunto dava que falar entre as pessoas do meio. O que é certo é que iam mantendo a livraria aberta ao longo dos anos. O segredo era o seguinte: o livreiro e a sua amante liam todos os dias os obituários dos jornais, à procura de anuviadas viúvas da alta sociedade. Conseguindo facilmente as suas moradas, enviavam-lhes cartas, lamentando o incomodo, juntamente com pesadas facturas de listas de livros e revistas pornográficas que alegadamente os seus falecidos maridos tinham comprado. As viúvas, horrorizadas, pagavam rapidamente, sem fazer muitas perguntas, com medo de algum escândalo. Outras, dizia-se, continuavam clientes, mas creio que era só má-língua. Parece que este esquema rendeu milhares de contos. O negócio manteve-se, como quase sempre acontece, até que se facilita e se comete um erro. Um dia uma viúva, cujo marido era cego, recebe uma destas cartas que levantou, como devem calcular, suspeitas.
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Jaime Bulhosa

6 comentários:

josé luís disse...

... sobretudo por (ainda) não haver pornografia em braille...
;-)

Anônimo disse...

Fabulosa história!!!

Teresa C.

{anita} disse...

:D

fallorca disse...

Suspeitas? O livro ou revista podiam estar impressos em Braille, não? Uns aprendizes, essse livreiro e a amázia :P

Bill disse...

Deliciosamente obscura e arrepiante. Esquema brilhante; fica a ideia.=D

Newstein disse...

Assim que terminei de ler o conto me ocorreu logo numa desculpa esfarrapada, o dito falecido havia comprado livros em braile, mas aqui nos comentários, posso ver que não fui o único a ter essa idéia.
Que pena, o cara era cego, o esquema era um tanto escuso, mas "brilhante"!!!
Abraços!

Jairo - Belém do Pará