segunda-feira, janeiro 18

Ler à distância de um gesto.

A minha mãe - não digo a sua idade porque, como ela me ensinou, não se diz nem se pergunta a idade de uma senhora - pediu-me como prenda de Natal livros para ler. Objectos que, desde que me recordo de mim, sempre vi na sua mesa-de-cabeceira. Foi o que fiz. Convém antes explicar que à minha mãe foi diagnosticada a doença de Parkinson com apenas 40 anos de idade. Doença que nos últimos anos a colocou de vez numa cadeira de rodas. Levei-lhe cinco livros, com o corpo de letra grande, porque a vista já não é o que era, pouco pesados, no sentido literal do termo, isto é, com poucas páginas, leves, para que não lhe pesassem muito nos braços, que como ela diz têm muita preguiça em movimentar-se. Noutro dia fui jantar com ela e perguntei-lhe se tinha gostado de ler os livros que lhe tinha oferecido, ao que ela me respondeu – «Não fui capaz de ler nenhum!» Fiquei momentaneamente triste, diria egoistamente ofendido. Eu, um livreiro, não fui capaz de aconselhar à minha própria mãe um livro para ler. Infelizmente não foi nada disso: Simplesmente, os livros que eu lhe tinha oferecido eram pesados demais para que os mesmos braços que um dia me pegaram ao colo os pudessem suster ou folhear.


Jaime Bulhosa

15 comentários:

Alice, só Alice disse...

Gosto imenso destas histórias, das alegres, das cómicas e destas,das verdadeiras.

Esparsa disse...

Essa é precisamente a imagem que tenho também da minha mãe. Uma mulher muito branca e de majestosos cabelos negros, sentada num sofá a ler. E o cigarro, o cigarro sempre, ora preso entre os dedos, ora abandonado no cinzeiro.
Uma imagem que embora já não se reflicta nela na totalidade, eu ainda conservo, como ela os livros, sempre na mesa ao lado de sofá.

(parabéns pelo blog. Um dia tenho de passar a conhecer a livraria)

Rosa dos Ventos disse...

E que tal ir fazendo fotocópias? :-))
Isto não se diz a um livreiro...

Anônimo disse...

E que tal um kindle, ou outro leitor electrónico que pudesse ficar apoiado numa mesa ou outra base qualquer? Mesmo não proporcionando o prazer de manusear um livro, pode ser uma solução.
É um dos medos que tenho, e em que às vezes penso: e se um dia eu deixar de poder ler, seja por perder a visão ou por outra razão qualquer, como esta...
Felizmente já há alternativas, e o kindle parece-me mais parecido com a leitura do que o audiobook, por exemplo (pessoalmente, sempre preferi ler uma história do que ouvir contar)
Vera S.

Pó dos Livros disse...

Vera S.

Obrigado pelas sugestões. Sou tão livreiro de papel que nem me tinha lembrado.

Jaime

PallasAthena disse...

Infelizmente conheço de perto essa doença, da qual a minha avó, pessoa que me criou e me é muito querida, também padece. Não sabendo de que outra forma ajudá-la, fiz a única coisa que sabia, emprestei-lhe os meus livros, pois foi dela que herdei a minha adoração pela leitura, tais como Nora Roberts, Victoria Hislop, e de tudo um pouco, pois vejo que é uma forma de fazer com que a sua mente seja estimulada, nem que seja pelo mero facto de se distrair e de se motivar e não se deixar vencer pela doença, e é raro o dia em que não veja os livros espalhados pela sua casa, o marcador sempre avançando mais um pouco nas páginas, e em breve chega um novo dia em que tenho de trazer mais livros. E nesses dias sinto-me feliz. Porque enquanto ainda conseguimos ler, nem tudo está perdido.
Por isso, use outras soluções, como fotocopias ou o kindle (apesar de ainda ser bastante caro), mas não permita que a sua mãe deixe de ler.

Patti disse...

Que triste...
Veja lá isto.
Tem várias alternativas de se conseguir ler um livro, sem o auxílio dos braços para o sustentar.
Por baixo da foto principal, espreite as várias hipóteses.

Pó dos Livros disse...

Obrigado patti pela ajuda e a todos outros tb.

Mariana Canto e Castro disse...

São os mesmos braços que um dia se entrelaçaram no pescoço dela, quando era ela a base e o centro de tudo, que agora a vão a ajudar nesta fase...

ampulhetas disse...

é nestas alturas que penso na utilidade da tecnologia

bj
teresa

CPrice disse...

Um abraço.

Susigan disse...

Acompanho o seu blog e nunca tinha decidido colocar um post, mas hoje, ao ler a sua história, fiquei comovida, muito comovida. Pensar que a vida nos prega partidas e que um simples prazer como a leitura pode ser tão penoso. Se estive mais perto, me oferecia para ler para a sua mãe. Cristina

fallorca disse...

Que Senhora bonita!

C.M. disse...

Um abraço solidário. A vida é dura...

Anônimo disse...

Comoveu-me, Jorge...pela sensibilidade e pureza de sentimentos. É adorável testemunharmos a bonita ligação de um filho com a sua Mãe.
Mafalda

PS - Mais uma vez Parabéns pelo blogue