quarta-feira, fevereiro 17

Clientes especiais III


Há vinte e poucos anos, o centro comercial das Amoreiras era o maior e mais famoso centro comercial da cidade de Lisboa. Durante os fins-de-semana, faziam-se autênticas romarias, vindas em excursão de todo o país apenas para o visitar.

- Bom dia. Eu queria um livro para ler!
- Sim…
Silêncio.
Depois de alguns segundos embaraçosos, o livreiro franze o cenho e diz:
- Qual é mesmo o livro que deseja?
- Sei lá! Você é que é o livreiro, não sou eu.
- Sem dúvida, uma boa piada!
- Nunca ouvi falar... Mas se você diz que é bom, eu levo.
- Não!... Referia-me simplesmente ao facto de ter dito: «Você é que é o livreiro.»
- Ah!... Não percebi, quer explicar melhor?
- Deixe estar, não tem importância. Quer, portanto, que eu lhe escolha um livro para ler?
- Isso!
- Sabe, não é fácil, eu não o conheço, não sei o que já leu e o que gosta de ler.
- Não seja por isso. Muito prazer, o meu nome é José, venho de uma aldeia perto de Santarém, tenho 75 anos e até aos 74 fui analfabeto. Se tiver a amabilidade de me aconselhar um livro, esse será o primeiro de muitos que ainda pretendo ler. - Disse o cliente, orgulhoso de si mesmo. E com razão.

Nota: Espero sinceramente que o senhor José tenha lido muitos mais e bons livros. Como curiosidade, o livro aconselhado foi O Velho e o Mar, de Hemingway. Para quem nunca leu o livro, e embora não pareça, o enredo tem muito que ver com esta pequena estória. O Velho de Hemingway, depois de uma extraordinária perseverança, levou para casa uma colossal espinha de peixe, mas valeu a pena.

Jaime Bulhosa

15 comentários:

Silvestre Gavinha disse...

Que bela história.
Hemingway estaria com inveja.
Marie

pontodeluz disse...

uma história bem fofa :)

josé luís disse...

gosto sempre de ser lembrado.
espadarte
[:)]

Rosa dos Ventos disse...

Muito bem aconselhado!
Eu li a história e também a "ajudei" a ler a alguns alunos de um longínquo 8º ano de escolaridade!

Ana C. Nunes disse...

Um cliente, realmente, muito especial. Houvesse mais como este senhor e o nosso Portugal não teria a taxa de leitura que tem.

Anônimo disse...

Que história doce e comovente!
Seria, certamente, o livro que recomendaria a alguém tão... raro (não consegui encontrar melhor palavra.

Anônimo disse...

Que história doce e comovente!
Espero, sinceramente, que o Senhor José tenha lido muito e bons livros!

Nine disse...

Uma bela história. E um belo livro pra se começar na arte da leitura. Ainda mais desse ponto da existência do senhor José. Que ele tenha feito muito bom proveito com sua sugestão. Acredito que sim!

Abraços

Esparsa disse...

Que bela é esta história de encantar. Nada a ver com o Sr. elegante e bem parecido, com um rosto entalhado por uma vida que imaginei nunca exposta às frieiras da pobreza e que, degustando ao meu lado o seu chocolate quente na festa de natal do museu do azulejo, fazia certas caretas. Disse-lhe então: o chocolate quente é como disse da coca-cola o poeta - primeiro estranha-se depois entranha-se...
O Sr. bem apresentado não se descompos, e rematou:
- o meu pai conheceu esse Sr., era um bêbado...
Sorri e virei-lhe educadamente as costas.

Anônimo disse...

Engraçado... a minha avó, embora alfabetizada desde infância, leu o seu primeiro livro com 70 e muitos anos... Aconselhada por mim, "O Velho e o Mar" foi o 2º livro que leu na vida e adorou... Mas o 1º é que lhe ficou lá no goto: “Lisboa em camisa” de Gervásio Lobato ao ponto de ainda hoje me falar das peripécias retratadas no livro...
CBorges

Manuel disse...

si non é vero é bene trovato...

No vazio da onda disse...

Esta estória é, de facto, muito bonita. Agora uma triste:
Este senhor tinha 70 anos. Mas quantos não conhecemos nós que têm entre os 25-35 anos, alguns com curso superior, e nunca leram um livro?

Anônimo disse...

O Pó dos Livros,
mas também os Livros do Pó.

Amauri Nolasco Sanches Junior disse...

o que é um "bom livro"?

Pó dos Livros disse...

Caro Amauri Junior,

Ora ai está! Uma "boa" pergunta para várias respostas e para um filósofo poder responder. No entanto, posso tentar explicar-lhe o que é para mim ler um "mau" ou um "bom" livro: - A diferença entre ler um bom livro ou um mau livro, é a mesma entre jantar num restaurante gourmet ou no McDonald’s, com a vantagem de nos livros pagar exactamente o mesmo.