terça-feira, fevereiro 2

Dumb readers, smart writers


Quando Dante Alighieri publicou A Divina Comédia, que inclui o poema alegórico O Inferno, muitos leitores aceitaram como sendo verdadeira a narrativa da descida de Dante ao Inferno. Quando a Utopia, de Thomas More, foi publicada pela primeira vez, ocasionou um agradável erro, mas infelizmente, como próprio título indica, uma pura esperançosa ilusão: a obra representa uma perfeita, mas visionária, república, algures numa ilha que alguns leitores acreditaram ter sido recentemente descoberta. Muitos anos após a primeira publicação de Viagens de Gulliver, persistiu-se na assunção de que os liliputianos e os gigantes da sátira de Jonathan Swift eram reais. Recentemente, ao ler uma passagem de um livro de qualidade duvidosa sobre a história das religiões – não me recordo qual era o título –, dei com uma pequena narrativa sobre uma suposta e muito antiga seita religiosa de origem judaico-cristã. A certa altura, depois de muito reflectirem, rezarem e interpretarem os textos sagrados, chegou-se à conclusão brilhante de que a praxis da seita devia assentar em quatro pilares essenciais, dos quais não se deviam desviar um milímetro que fosse. Segundo os membros dessa seita, os textos sagrados impediam-nos de questionar ou pôr em causa o que estava acima deles, evocar ou adorar o que estava abaixo deles, relembrar ou praticar o que estava por trás deles – numa evidente referência ao pecado original e concupiscências do passado; por fim, mas não menos importante, a quarta premissa consistia em não tentar adivinhar o que estava diante deles. O futuro unicamente a deus pertence. Após uns bons anos de paz e entendimento entre esta pequena comunidade, gerou-se a certa altura uma enorme discussão sobre qual deveria ser o caminho a seguir na futura organização da comunidade. Sem nunca terem ido a lado nenhum, provavelmente fartos uns dos outros e estando de acordo entre si, segundo os textos sagrados, relativamente ao facto de não poderem ir para cima, nem para baixo, nem para trás, nem tão pouco para frente, desentendem-se definitivamente sobre a omissão pecaminosa do eterno sobre o que estaria para sua esquerda ou para sua direita. Diz-se que foi assim que nasceram os partidos políticos.
Poderia referir outros exemplos, mas parece-me que estes são suficientes para demonstrar que a interpretação errónea que se faz do que se escreve ou dos livros é, na maior parte das vezes, culpa – como dizem os ingleses –, dos dumb readers e não dos smart writers.
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Jaime Bulhosa

3 comentários:

No vazio da onda disse...

Concordo com este post, mas está armadilhado. Vou arriscar caminhar sobre um terreno minado.
1. Começando pelo fim: "dumb readers Vs smart writers" - uma visão maniqueísta. Nem todos estúpidos, nem todos génios.
2. Quando coloca aqui os partidos políticos, então é que o caldo está mesmo entornado. Basta pensar no Lello e dou esta questão por arrumada.
3. Quando lemos o nosso articulado jurídico é difícil não pensar em "dumb writers" (o famoso "Legislador" que sob a capa da figura abstrata, esconde uma clara incompetência para a escrita em português legível). E aqui lembro-me das "Viagens de Gulliver", mais precisamente da 4.ª e última parte (julgo que a maioria não passou da primeira parte relativa a Liliput), quando Gulliver conversa com o cavalo (que é o seu senhor) na terra dos houyhnhnms e passo a citar:
"Existe entre nós - disse-lhe - uma associação de homens instruídos, desde a sua juventude, na arte de demonstrar, à força de verborreia, que o branco é negro e que o negro é branco, conforme as indicações de quem paga. o resto das pessoas é escravo desta associação" (4.ª parte, cap. V).
Ao que o cavalo (repito, o senhor de Gulliver) diz algo como isto: ou seja, existem uns homens que escrevem as vossas leis, mas ninguém as entende. Então, vocês têm que pagar a outros para que as decifrem, certo? Responde Gulliver: sim. Conclui o cavalo: então como é que vocês querem viver com justiça num Estado organizado desta forma?
Damn yahoos

Pó dos Livros disse...

No vazio da onda,

Maniqueísta? Eu tive o cuidado de Escrever "na maior parte das vezes".

Quando ao resto do seu comentário excelente. ;)

Obrigado

Jaime

No vazio da onda disse...

Tem razão, estava lá 'na maior parte das vezes'. Dumb reader!
Eu bem disse que o post estava armadilhado...lá se foi uma perna.