quarta-feira, julho 22

O aprendiz de livreiro


Há 40, 50 anos, não é necessário recuar mais no tempo, muitos rapazes e raparigas de 13, 14, 15 anos ainda eram desterrados involuntariamente dos seus lares nas longínquas aldeias da província para virem trabalhar na Grande Lisboa (faço ideia do medo que alguns sentiram). As raparigas iam para casa dos Senhores, servir como criadas internas. Os rapazes não, servir em casa particular era um trabalho para mulheres e muito mal pago, além disso, poderiam pôr em causa as virtudes das filhas dos Senhores. Por isso, vinham trabalhar ao mesmo tempo que aprendiam um ofício de sapateiro, carpinteiro, alfaiate etc. Também acontecia irem trabalhar para livrarias. No entanto, esta profissão normalmente requeria uma maior formação que na sua grande maioria estes rapazes não possuía. A formação posterior que adquiriam era, quase sempre, aquela que os Senhores ou Patrões entendiam oferecer-lhes.
Segue-se um pequeno episódio sobre um desses miúdos que veio nos anos 60 trabalhar para uma Livraria do Chiado:

- És tu o sobrinho do Manel?
- Xou xim, xenhor Armando.
- Como te chamas e que idade é que tens?
- Xico e tenho 14 anos, xenhor Armando.
- O teu tio disse-me que lá na tua terra te tinham ensinado as primeiras letras, é verdade?
- É xim, xenhor. - Disse o Xico vacilando a voz.
- Sabes, para se aprender a ser livreiro é necessário saber de letras.
- Xei xim, xenhor. - Afirma, disfarçando a voz cada vez mais trémula.
- Óptimo! Então tenho aqui um trabalho simples para tu fazeres.
- Tudo o que o xenhor mandar.
- Estás a ver esta estante? É nela que vamos colocar os livros de poesia. Sabes o que é poesia?
- Xei xim, xenhor, é a mesmo coisa que as cantigas, xó que falado.
- Pois é… mais ou menos, mas agora não interessa. Estás a ver estes livros aqui no chão? Vais ter de os arrumar na estante por ordem alfabética do último nome do autor, isto é, pelo apelido. Já agora, qual é o teu apelido?
Xou xó Francisco Zé*.
- Ah!... Mas entendeste o que eu te pedi?
- Xim, xenhor, por ordem alfabética de letra.
- Isso! Quando acabares vai chamar-me para eu ver o que fizeste.
- Xim, xenhor.
Passado um bom par de horas, o Xico, orgulhoso do seu trabalho, chama o senhor Armando.
- Vamos lá ver isto, então. Sim senhor: “A” de Carlos Drummond de Andrade, a seguir temos o “E”!?... Então, Xico, o que é isto!?... Desde quando é que a seguir ao “A” vem o “E”?
Tiritando por todos os lados, o rapaz responde:
- Xim, xenhor, “aeiou”, como me enxinaram.

* Naquele altura não era muito frequente, mas algumas pessoas não tinham apelidos, principalmente os filhos bastardos.

Jaime Bulhosa

10 comentários:

maria pereira disse...

Nada como começar uma tarde de trabalho com uma bela gargalhada :D

Anônimo disse...

li e reli esta história...tem um sabor agri-doce...

suelen.18 disse...

Muito legal!!!!

vou deixar aqui uma dica...o livro A Orde é Amém de John Chelh, um livro ótimo muito bom mesmo eu o encontrei no site:www.seteseveneditora.com.br

Bill disse...

Gostei, mas é um bocado melancólica. Relembra aquele cinzento Portugal de outros tempos...

Esparsa disse...

que ternura :)

Anônimo disse...

agora é que estamos cinzentos, antigamento esses rapazes pouco sabiam mas tinham sede de aprender.
Hoje nascem ensinados ou seja nada aprendem.

linda disse...

A vida era muito cinzenta, mas havia a curiosidade, hoje continua a haver (ainda) mais curiosidade, mas muitas respostas são cinzentas e o humor(quase)negro.Dantes não estávamos melhores mas o saber e a cultura pertenciam a alguns, infelizmente, hoje ninguém quer saber da cultura, mas todos os dias há gente a querer aprender. É esta réstea de esperança que vai acompanhando os livreiros -os poucos que restam - e os leitores que continuam curiosos

Anônimo disse...

Foi também por esses anos que eu fiquei a saber da existência da pedra para afiar agulhas...
... mas que saudades, ai ai!

Cat disse...

Delicioso!

bea disse...

Concordo: a história tem sabor agridoce.