segunda-feira, setembro 21

O ego


O salão principal do Palácio Nacional foi preparado especialmente para o receber. Não havia ninguém que faltasse, naquela comunidade, que fosse realmente reconhecido como alguém. Escritores, poetas, matemáticos, políticos, cientistas e muitos mais, inclusivamente os mais altos representantes de todos os credos religiosos; e só não estava o rei porque de uma república se tratava. De resto, toda a gente estava presente para assistir ao acontecimento cultural mais importante do século: o lançamento da última obra-prima do mais ilustre e afamado escritor vivo.
O orador de serviço toma a palavra, o papel tremendo nas suas mãos, tal era a importância do momento, e inicia o discurso. De maneira a homenagear tão importante e distinta personalidade da cultura, não poupa nos elogios (eu diria mesmo «encómios», que, como toda a gente sabe, é o mesmo que «elogios», mas dito de uma forma mais erudita) e chega mesmo a adjectivar a obra com palavras que não constavam do dicionário da Academia. Às tantas, a meio do discurso, atreve-se a dizer:

- Temos hoje entre nós o melhor e maior escritor desde que Homero escreveu a Ilíada e a Odisseia.
- Cá está, eu sabia! - Pensa o escritor para com os botões da camisa. - Já começaram as restrições.

Nota: Esta pequena estória foi inspirada num conto originário do Médio Oriente.
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Jaime Bulhosa

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