terça-feira, março 23

Bestsellers inesperados

Quase todos os editores, embora alguns não admitam, gostariam de editar, nem que fosse uma vez na vida, um bestseller. Os bestsellers são normalmente considerados pela crítica como livros de pouca qualidade literária, e, na minha opinião, geralmente são-no. Porém, são eles que conferem às editoras poder financeiro para colocar no mercado muitos outros livros que de outra maneira nunca seriam editados. Mas conseguir editar um livro que se torne num bestseller não é fácil. Pode-se recorrer às mais variadas técnicas de marketing para fabricar um, mas habitualmente o resultado é um redondo falhanço comercial. O verdadeiro bestseller, aquele que um dia se transformará num verdadeiro fenómeno de vendas a nível mundial, é muito mais do que marketing. É necessário que o editor tenha um feelling, uma visão, a capacidade de perceber, ao contrário de outros, que naquele manuscrito original estão alguns ingredientes, qualquer coisa diferente, talvez uma necessidade que paira no ar e que ainda não foi satisfeita.

Cinco exemplos de bestsellers inesperados:

Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach (1970)
Uma fábula sobre a demanda de uma gaivota. Ninguém foi nessa, avisaram várias pessoas, incluindo o agente do autor: «eles não estão interessados numa gaivota que fala». A primeira edição americana foi de 7500 exemplares; o livro vendeu até hoje milhões de exemplares em diversas línguas.

O Dia do Chacal, de F. Forsyth (1971)
Um correspondente estrangeiro, cujo livro anterior tinha sido um relato da guerra no Biafra, recebeu várias rejeições do seu primeiro thriller, talvez porque os editores não esperavam que os leitores se entusiasmassem com uma história da qual sabiam o resultado final (o assassino não consegue matar De Gaulle). Vendeu milhões, foi feito um filme e estabeleceu a carreira de um dos mais bem-sucedidos romancistas do nosso tempo.

Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking (1988)
É um livro que poucas pessoas compreenderão. No entanto, muitos compraram-no e foi traduzido para mais de 30 línguas. O génio da mente de Hawking, preso num corpo incapacitado por uma doença neurológica, revelou-se irresistível; e o título, prometendo iluminar “o interior de uma casca de noz”, foi outro interessante incentivo às vendas.

Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling (1997)
Numerosos editores rejeitaram a primeria história de Harry Potter, da autoria de Rowling, porque um romance de 250 páginas para crianças estava profundamente fora de moda. Nem sequer os elementos de magia e o colégio interno os convenceram.

O Código Da Vinci, de Dan Brown, (2003)
Depois de ter editado outros romances do mesmo género, mas sem grande sucesso comercial, Dan Brown lançou O Código Da Vinci, que causou polémica ao questionar a divindade de Jesus Cristo. A trama do livro envolve desde grandes organizações católicas conservadoras, como a Opus Dei, até à sociedade secreta conhecida como Priorado de Sião, que de acordo com documentos encontrados na biblioteca nacional de Paris possuía inúmeros membros famosos, como Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. O resto foi o que toda a gente sabe.

Jaime Bulhosa

3 comentários:

pco69 disse...

Eu diria que falta ainda um outro best seller. Produzido pelas capacidades financeiras da familia do autor. Eragon....

fallorca disse...

Arranjaste uma ilustração Salinger chapada: «...até à reaberura da escola de arte, estudando o mais interessante dos animais de Verão, a Rapariga Americana de shorts.»
Não sei se (ele, Salinger) chegou a ser bestseller, foi?

Rosa dos Ventos disse...

Destes só li o primeiro e o último e para mim Fernão Capelo Gaivota fica muito além do Código Da Vinci.
Quanto ao Harry Potter iniciei a leitura mas não consegui ir muito longe...
Acabei por oferecê-lo num concurso de leitura feito nas aulas de Português.
O miúdo que ficou com ele exultou de felicidade...e ainda bem! :-))