quarta-feira, março 24

Entre a ficção e a realidade


Entra na livraria, decidido, com cara de poucos amigos. Vai direito à mesa das novidades e retira um livro. Dirige-se ao balcão e interpela o livreiro, com um tom de voz arrebatado:
- O que me diz deste livro que saiu agora? Foi escrito de certeza absoluta e cobardemente sob pseudónimo. Li um resumo no jornal, parece que a história é autobiográfica. Não gostei nada!
Meio atarantado pela forma como foi interpelado, o livreiro responde de forma sincera:
- Para lhe dizer a verdade ainda não o li, mas…
O cliente interrompe com aquilo que pareceu ser um suspiro de alívio pelo facto de o livreiro ainda não o ter lido.
- Como estava a dizer, ainda não o li, mas as críticas a esta reedição têm sido óptimas.
- As críticas!... Tenho muitas dúvidas sobre as críticas... São sempre a mesma coisa. Uns dão uma estrela e os da concorrência dão cinco. Vá-se lá entender os críticos!
- Bem… o autor do livro é altamente referenciado e premiado.
- Prémios! Tenho muitas dúvidas sobre quem atribui os prémios... É sempre a mesma corja de amigos!
O livreiro, apercebendo-se de que pelos elogios não ia lá, tenta contar um pouco do que sabia do enredo.
- A história deste livro é uma história de sempre: trata-se de um romance sobre uma lindíssima mulher, casada com um homem mais velho que desconfia constantemente da sua lealdade. Muito religioso, machista e déspota, trata-a como se fosse um objecto. Naturalmente carente, a mulher apaixona-se pelo melhor amigo do marido.
- Aí é que está o problema… Digo-lhe mais: isto não passa de um monte de mentiras e tenho muitas dúvidas sobre a integridade desta mulher e a sinceridade desse homem. Garanto-lhe! Nesta história não vou ser o último a saber!
O livreiro, muito aflito:
- Mas… Meu caro senhor! Este romance trata-se apenas, afinal, de um clássico do século XIX!...
- Ah!...

2 comentários:

Anônimo disse...

perante isto, não sei se tenho medo de entrar na sua livraria ou se não gostaria de ser livreiro...
Maria

Anônimo disse...

Pois, se me permitem, sempre vos digo que da proxima vez que passar por Portugal, ou melhor, por Lisboa (Setembro?), vou entrar na livraria de manha e ficar la' dentro o dia todo a inspirar o po' dos livros, a espirrar que nem uma louca e a deliciar-me com tudo o que puder! ♥
Maria (... mais uma!)