terça-feira, março 9

Entre o Céu e o Inferno


Sabíamo-lo tanto assíduo de igrejas como de livrarias, o cliente que se transformou em motivo de curiosidade e assunto de conversa entre livreiros. O mistério, na origem de tanta bisbilhotice, residia no facto, pouco comum, de um cliente que se definia como um bom católico praticante comprar sistematicamente livros de autores considerados anti-religiosos, desde Sade, Voltaire, Diderot, Montesquieu ou William Blake, Nietzsche, David Hume, José Saramago, Philip Roth, etc. No entanto, para além desse pormenor curioso, o que por si só, na nossa opinião, demonstrava apenas bom gosto, o cliente fazia também questão, talvez para se autojustificar, de classificar os livros que comprava, afirmando em alto e bom som, perante os livreiros, como tendo sido escritos por autores ímpios, blasfemos e hereges, sobre os quais recaíam os piores sacrilégios e pecados. Insistia para que nós, os livreiros, não os aconselhássemos a outros clientes, menos preparados para resistir a tanto encorajamento ao pecado.

Um dia, repetindo-se a cena do costume, certo livreiro, não aguentando mais de curiosidade e enchendo-se de coragem, pergunta-lhe:
- Desculpe a impertinência, mas, se os considera a todos uns heréticos, porque os lê?
Ao contrário do que se esperava, o cliente misterioso respondeu com um sincero sorriso nos lábios:
- Eu, aprecio muito o Céu, por causa do clima, e o Inferno, por causa dos frequentadores *.

Nota: Soube-se mais tarde que o cliente era um cónego muito bem-humorado.
* A frase é geralmente, mas abusivamente, atribuída a Mark Twain. Na realidade pertence ao Cardeal Bernis 1715-1794.

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Jaime Bulhosa

2 comentários:

juno disse...

nao vou comentar neste post mas quero dizer que gosto muito deste blog e visitarei a loja logo que esteja em Lisboa. adoro as livrarias portuguesas, estou em inglaterra e aqui ja nao existem livrarias independentes, é muito triste.
boa sorte e obrigada :)

Anônimo disse...

Fabuloso!!! :))