segunda-feira, março 22

O nariz


Como não conseguimos ver o nosso próprio nariz, temos a tendência para olhar o mundo sob a sua perspectiva.
Nikolai Gógol
Num fim de tarde de uma quinta-feira de futebol, quando o movimento de leitores na livraria é igual ao de uma biblioteca em dia feriado, entra um critico literário conhecido do meio. Daqueles que dão poucas estrelas aos livros e se pudessem davam cinco estrelas às suas próprias críticas. Apanhando-me completamente distraído a ouvir no computador o relato do Benfica e com a cara enfiada num livro, comenta:
- Muito bem! Lendo Nikolai Gógol, Contos de São Petersburgo?
Tentando disfarçar e baixando o som do rádio.
- Boa tarde. Olhe, como não posso estar a ver a bola, deu-me para ler uns contos russos.
Completamente indiferente ao futebol, corrige:
- Gógol não era russo! - E acrescenta: nasceu em 1809, em Sorotchinski, na Ucrânia e morreu em 1852, em processo de ascese e grande sofrimento. Aliás, aquilo a que você chama contos russos é o que se convencionou chamar Histórias de Petersburgo, e que consistem nas seguintes cinco: Avenida Névski (1841), Diário de um Louco (1834), O Nariz (1836), O Retrato (1841) e O Capote (1841). E esta é uma etapa específica da obra de Gógol, que se segue às suas histórias fantásticas ucranianas… 
- A partir daqui deixei de o ouvir – … é inevitável referirmos as correntes literárias em que se inspira Gógol para a feitura destas histórias de Petersburgo: os elementos fantásticos, por vezes místicos, aproximam-se do romantismo, sobretudo alemão; alguns elementos destas histórias, por exemplo O Nariz, com a situação da perda de uma parte do “eu”, lembram de facto o aparecimento do duplo hostil, o rival, da História Fabulosa de Peter Schlemihl… 
- Vindo do computador, muito baixinho, ouve-se o som do rádio: «Di Maria falha escandalosamente!...» – … em O Sistema Poético de Gógol, Moscovo, 1978, Iúri Mann escreve que as ligações genéticas dos contos de Gógol com a literatura do romantismo já estão suficientemente estudadas pela crítica, O que faltava era descobrir a mudança fundamental que esta tradição sofreu em Gógol. Este, diferentemente dos românticos… 
- «Golo do Marselha, merda!» – … nunca introduz o fantástico no plano do presente histórico, existe só no passado representado por lendas e relatos problemáticos; no presente, fica apenas uma influência dele. E também, para Gógol, o fantástico/diabólico não é milagre, é antes o não humano, ou desumano. O fantástico é suplantado pelo absurdo, e o absurdo manifesta-se e revela-se como o quotidiano da vida que, em si, é anormal: a vida moderna, … 
- «ia sendo quase, quase, golo do Benfica!» – … a vida da grande urbe, personagem principal dos cinco contos de Petersburgo. São de facto cinco histórias maravilhosas. E você o que é que acha de Gógol?
- GÓ, GOG, GOLO DO BENFICA!

Jaime Bulhosa

3 comentários:

No vazio da onda disse...

Eu estava a ler o post e a ficar ligeiramente irritado (para não dizer f**ido) com a verborreia do tal crítico e a tentar imaginar o sofrimento de quem tentava ouvir o relato (isto quando o Glorioso estava a perder) e ao mesmo tempo mantendo o sangue-frio. Agora imagine-se se o gajo me impedia de ouvir o golo da vitória? Levava tamanho chuto que só parava em Vladivostok. Pronto, já passou, lá ganhámos e está tudo bem.
Agora vou ler as "Almas Mortas" in memorium do Marselha.

jaa disse...

GÓ LOL.

andreia am disse...

Ah 'ganda' Jaime. eh eh eh eh eh.