quinta-feira, novembro 25

Para todas as ocasiões

Uma amiga, ontem, pediu-me para lhe aconselhar um livro de Dostoiévski. Sugeri-lhe o Crime e Castigo. Ela perguntou-me:

- Porquê esse?


Quem trabalha ou já trabalhou com livros sabe o quanto é difícil aconselhar um clássico e conseguir que a sugestão seja aceite. Ainda mais quando o interlocutor não faz a mínima ideia do que seja um clássico. Na minha opinião, existem várias razões para que isso aconteça, e não é possível explicá-las num post. O facto é que basta mencionarmos a palavra “clássico”, que logo o cliente foge a sete pés.
Há muitos anos, trabalhei com um colega que era mestre a aconselhar clássicos. Porém, desconfio de que o próprio só teria lido um.

Parte I
- Por favor, poderia aconselhar-me um livro para eu ler?
- Com certeza, menina. Que tipo de livro é que deseja ler?
- Pode ser um policial.
- Tenho aqui um que vai adorar. O enredo é o seguinte: certo dia, um belíssimo e jovem estudante decide cometer o crime perfeito. Prepara minuciosamente e com muita antecedência o assassinato de uma velha agiota a quem devia dinheiro. Por incrível que pareça, o móbil do crime não era o roubo, nem a vantagem que a morte da vítima podia trazer-lhe. Era apenas o simples prazer, masoquista, de provocar um detective famoso, género Poirot, o qual odiava pela sua perspicácia, inteligência e infalíveis métodos. O livro é um jogo do rato e do gato. Um autêntico duelo psicológico entre assassino e polícia. E não conto mais, para não estragar a intriga.
- Como se chama o livro? - pergunta a cliente, já entusiasmada.
- Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Parte II
- Por favor, poderia aconselhar-me um livro para eu ler?
- Com certeza. E que tipo de livro o senhor deseja?
- Pode ser um thriller.
- Lembrei-me agora mesmo de um que li há pouco tempo. É fabuloso… até me dá arrepios, só de pensar nisso. A história é a seguinte: um homem misterioso e ainda novo, com um ar sorumbático, professor de línguas e estudante de direito, tem a teoria de que os seres humanos se dividem em dois tipos: os ordinários e os extraordinários. Os primeiros estão condenados a viver uma vida sem significado e a obedecer, servir e, se necessário, morrer em prol dos considerados extraordinários. Os segundos, aos quais o nosso protagonista julga pertencer, são homens de uma classe à parte. Génios capazes de mudar o mundo com os seus feitos fenomenais, os quais justificariam que eles fossem, sempre, considerados inimputáveis de quaisquer crimes, por mais odiosos, que pudessem cometer em nome de um interesse superior da raça humana. Por causa desta teoria idiota, o terrível psicopata decide assassinar de forma macabra uma pobre velha que vive honestamente, como prestamista. Junto com ela, assassina, barbaramente, com um machado na cabeça (de onde sai sangue por todo o lado), uma irmã deficiente da qual a velha cuida. Por diversas vezes, a polícia quase o captura. Mas sempre que isso está para acontecer, algo de providencial o ajuda a escapar. Nomeadamente, uma bela jovem que por ele se apaixona perdidamente. - Mais não conto, para não estragar o final surpreendente.
- Qual é o título do livro?
- Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Parte III
- Por favor, poderia aconselhar-me um livro para eu ler?
- Com certeza, minha senhora. Em que tipo de livro é que está a pensar?
- Pode ser um romance, uma história de amor. Sabe como são as mulheres!... Tão fáceis de fazer verter lágrimas.
- Oh, minha senhora!... Tenho aqui um livro de fazer chorar as pedras da calçada. O romance é o seguinte: um belo rapaz de corpo desenhado, dos seus vinte e poucos anos, no entanto, já maduro, pobre e miserável, vive amargurado, preocupado com a sua pobre mãe e bela irmã, que se prepara para casar, sob chantagem, com um velho e avarento homem de 45 anos. Contudo, o nosso Raskólnikov tudo faz para que a irmã se case antes com um seu amigo e muito bom rapaz, de seu nome Razumíkhin. Infelizmente, as coisas complicam-se, quando Raskólnikov comete, num acto irreflectido, um crime horrendo, de que naturalmente se arrepende. O que lhe vale é ter surgido na sua vida uma bela rapariga, que, embora seja prostituta, o é por uma causa nobre do mais valorizado altruísmo. Depois de muitos anos numa prisão da Sibéria, o… Perdão! Já lhe ia contar o fim do livro.
- Qual é o título do livro?
- Crime e Castigo, de Dostóievski.
Pergunta a cliente, meio desconfiada:
- É quase um clássico?
- Todas as grandes histórias são um clássico.
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Parte IV
- Por favor, poderia aconselhar-me um livro para eu ler?
- Com certeza, meu rapaz. E que tipo de livro deseja?
-Pode ser uma comédia.
-Tenho ali um que é de chorar a rir...
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Jaime Bulhosa

9 comentários:

Ana C. Nunes disse...

Inspirador.
E isto mostra que, visto por diferentes pessoas (ou no caso, fdiferentes perspectivas) um livro pode pertencer a vários géneros.
Mas claro, um clássico é um clássico e, sinceramente, não percebo porque as pessoas fogem dos clássicos.

Sara disse...

eu estou no quarto a trabalhar e parti-me a rir com este post. amei! mas é verdade! um livro pode ser vendido de várias formas, dependendo do leitor. nice! continuem.

disse...

Muito bom, embora algo menos do que Crime e Castigo.

a mesa de luz disse...

Uma "história" de leitura quase obrigatória para alunos de marketing! Adorei :)

Moura Aveirense disse...

Hilariante! LOL Bem, eu adorei o "Crime e Castigo", é um dos livros da minha vida!

No vazio da onda disse...

Excelente;
esse colega não teria uma percentagem sobre esse livro? ou um acordo com o editor? Tipo: por cada dez "crime e castigo" que venderes oferecemos uma viagem.
Agora a sério, um clássico é isto, de facto, aguenta tudo e todos.
Tal qual um fato preto, dá para casamentos, funerais e baptizados.

Xantipa disse...

Muito bom!

Isa disse...

:)

Anônimo disse...

já tinha lido este seu texto, jaime. aliás, foi este post que me converteu ao seu blogue. bom relê-lo e curioso.. no outro dia ofereci o "crime e castigo" a um familiar e estive mesmo para transcrever o "para todas as ocasiões", a preguiça falou mais alto :)

m.ª