quarta-feira, março 31

Taras, manias e outras coisas

Livreiro é uma profissão que, como todas as outras profissões, tem lugar para um Inferno e um Céu inteiro de gente. Gente diferente, com taras, manias e gostos completamente distintos, e que às vezes tem em comum a profissão. Há livreiros que sempre que podem estão à caixa, assobiando para o lado, contando: «três para o patrão e uma para mim». Há livreiros que não gostam de livros e outros que, por mais inacreditável que pareça, até gostam de ler. Há livreiros que são camilianos, aceitando no entanto que existem outros bons escritores, como o Eça de Queirós, mas Camilo é que é… Há livreiros que são queirosianos, porém, aceitam que existem outros bons escritores, como Camilo, mas Eça é que é… Há os livreiros que são francófonos e os que são anglófonos. Há livreiros trombudos e calados, sorridentes e faladores, competentes e incompetentes. Há os livreiros estúpidos, os inteligentes e os irritantes, que fingem que não nos vêem e levam uma eternidade para atender. Há os comichosos, como aqueles que detestam que os clientes lhes mexam nos livros. Há livreiras pequeninas que gostam do silêncio, têm muita cultura e são hiperletradas. Sempre que as queremos impressionar, dizendo: «Eh pá, li uns contos de Tchékhov muito bons!», elas imediatamente respondem: «Gostei imenso dos três primeiros volumes dos contos de Tchékhov, mas ao quarto comecei a cansar-me. Mas já que falas nos autores russos, devias ler Tolstói ou Gógol. O Máximo Gorki não! Esse era um estalinista naturalista, não, não… Começa antes com Dostoiévski. Mas não comeces por onde toda a gente começa, como por exemplo o Crime e Castigo. Não é que não seja bom, mas lê antes Os Irmãos Karámazov, são dois volumes, bem sei… contudo, vais ver que vai valer a pena e blá, blá, blá, blá…» A humilhação é total.
Enfim… Há livreiros para todos os gostos e feitios. Infelizmente, ultimamente, tem surgido com mais frequência um outro tipo de livreiro: o pára-quedista. É aquele que, como o próprio nome indica, caiu aqui de pára-quedas e julga, ingenuamente, como eu ouvi no outro dia numa livraria cujo nome não vou dizer, que Philip Roth é um pseudónimo homofóbico e Sebald é uma alcunha dos tempos de escola: «Meu caro senhor, do Zé Baldas e do Filipe Roto, não temos nada, não senhor!»

Nota: Este post é dedicado à… não posso dizer, que ela não deixa.

Jaime Bulhosa

5 comentários:

Anônimo disse...

E há livreiros como o Jaime Bulhosa, que me fazem sorrir um bocadinho quase todos os dias e ter uma enorme alegria de saber ler (e gostar) e de comprar livros em livrarias pequenas, de bairro, que cheiram a livros, que mandam vir e que gostam dos clientes!
Obrigada.

Fernando Frazão disse...

Até conheci um que insultava os clientes quando lhe pediam coisas do tipo Margarida Rebelo Pinto.
- Você pensa que isto é o Pingo Doce ou quê? Isto é uma casa séria.
Já me fez dar uma gargalhada com essa do Roto porque a avaliar pelo que escreve deve ter sido fresco deve, como diria a minha mãe.

C.M. disse...

"Impagáveis" os seus "posts"! Vou levar o pc portátil no fim de semana, não vá perder algum post seu...

LuLu disse...

O que nós livreiros ouvimos devia ser compilado num livro como se faz agora com blogs e colunas de revistas e jornais..

Uma ideia?

Anônimo disse...

Seve disse...

Leya meu amigo Jaime, Leya...

Seve