terça-feira, abril 13

As livrarias que não caçam com cão, caçam com gato


Saiu no passado dia 11 de Abril, no jornal Público, um artigo sobre as livrarias independentes de Lisboa:

«As livrarias que não caçam com cão, caçam com gato. Escolha criteriosa de títulos, atendimento personalizado e eventos. Face à pressão das grandes cadeias, é preciso diversificar. Porque só vender livros não chega. É preciso que aconteça alguma coisa.»

«Desde a entrada em Portugal da cadeia mundial Fnac, em 1998, o conceito de livraria alterou-se radicalmente. Para além de concentrarem num só espaço diferentes produtos culturais e técnicos, as Fnac surgiram com salas de leitura, cafetarias e uma programação permanente, obrigando as pequenas e médias livrarias a seguirem algumas ideias. Um ano depois do encerramento da Byblos, aquela que foi a maior livraria do país, descodificámos o que as livrarias independentes de Lisboa fazem para sobreviver. "O mercado do livro não está em crise. Edita-se e vende-se cada vez mais", começa por dizer José Pinho, um dos sócios da Ler Devagar, instalada, desde Abril de 2009, na Lx Factory, em Alcântara, Lisboa. O problema está na multiplicação dos espaços que vendem livros: "Os CTT, as gasolineiras, os supermercados e os aeroportos estão a roubar vendas. E como só vendemos livros, temos uma capacidade de atracção menor." Eventos imprescindíveis. Depois de ter apostado em cinco livrarias em diferentes pontos de Lisboa, José Pinho resolveu concentrá-las num só espaço. "Em todos os pólos, tínhamos à venda livros muito especializados. Depois de só perdermos dinheiro, chegámos à conclusão de que em Portugal não existe mercado para livrarias especializadas." A nova Ler Devagar tem 150 accionistas, ocupando agora a área onde trabalhava uma rotativa que imprimia jornais. São cerca de 600 metros quadrados distribuídos por dois pisos, com estantes repletas, um auditório, uma sala de conferências que também dá para concertos, uma galeria e dois bares. "Uma livraria independente só consegue sobreviver nestes moldes. Se não organizarmos eventos, acabamos por desaparecer", justifica. Em Março, como em todos os meses, houve uma programação diversificada: a peça de teatro. Os meus não dão problemas..., do grupo Holofote; o lançamento de Um Pai em Nascimento com a presença do autor, José Eduardo Agualusa; a exposição Something and spoken sobre Anne-Marie Schwarzenbach; o debate. O Clima Farto de Nós; e um jantar gastronómico a fechar.Na Ler Devagar só encontrámos um best-seller, o 2666, de Roberto Bolaño. "Não recebemos muitas novidades e as que aparecem aqui obedecem a um único critério: o nosso gosto pessoal. Somos uma livraria generalista, direccionada para os fundos de catálogo, e é nisso que tentamos ser bons", diz Pinho. A tramar qualquer coisa. Desde que abriu portas na Rua São Filipe Nery, a Trama também apresenta mensalmente uma programação recheada de concertos, apresentações, sessões de poesia, workshops e exposições. "O nosso objectivo nunca passou por vender só livros. Também queremos que na Trama aconteça alguma coisa nova todas as semanas", explica Catarina Barros, 26 anos. Tiago Sousa, Gonçalo Prazeres, Diogo Chaves, Goran Titol, Rui Pereira, a banda Prowl e João Berhan são alguns dos músicos que vão dar música à Trama em Abril. Há aqui um amor notório à causa. "O que aqui acontece tem a ver com o nosso imaginário do que deveria ser uma livraria. Um sítio que é mais do que um espaço comercial, onde se cria e estabelecem relações entre pessoas, através dos livros, da música e do cinema", conta Ricardo Ribeiro, 30 anos, sócio da Trama. Muitas vezes saem da livraria já depois da meia-noite e na manhã seguinte estão de serviço. "Numa semana podemos chegar às 70 horas de trabalho. Saímos muitas vezes dormentes, mas quase sempre entusiasmados." Os dois livreiros assumem, no entanto, que o propósito destes eventos é dar a conhecer a livraria: "O que organizamos paralelamente serve para ajudar a publicitar o espaço." O Senhor Teste de Paul Valéry, dado como esgotado na editora, é um dos destaques do primeiro piso. No segundo, encontrámos um conjunto de livros da Relógio d"Água a preços de saldo. Há também uma edição inglesa de Leaves of Grass de Walt Whitman, entre outros livros usados. Quanto mais criteriosos são na escolha das obras, mais vendem. Dois pisos, muitos sofás virados para duas janelas enormes e uma pequena cafetaria ajudam o leitor a sentir-se em casa, rodeado por lombadas e capas que não vai encontrar nas livrarias de grandes dimensões. Blogues também ajudam"O sucesso da Pó dos Livros está muito ligado ao blogue. Muitos leitores vêm cá porque seguem a nossa página na Internet", começa por explicar Jaime Bulhosa, sócio da Pó dos Livros, a par de Isabel Nogueira. Nesta livraria bairrista, localizada na Avenida Marquês de Tomar, a dois passos da Fundação Calouste Gulbenkian, não encontrámos livros cobertos de pó, mas duas salas repletas de estantes pretas, paredes azuis e muitas velharias espalhadas entre os livros. É uma livraria moderna com visual retro, aberta desde Setembro de 2007. Os clientes têm um "grau cultural muito elevado" e é a este público que Jaime Bulhosa se dirige quando escreve no blogue, destacando algum título ou contando as peripécias que diariamente acontecem na livraria. Sem capital para investir em publicidade, aposta nos sites, blogues e redes sociais para divulgar os seus espaços e livros. Para além dos textos, no blogue há vídeos caseiros feitos por Jaime Bulhosa, com a câmara do telemóvel. O sucesso é imediato. Em cima das mesas, muitas novidades seleccionadas: "Nos lugares de destaque colocamos livros considerados mais elitistas porque os best-sellers são menos procurados", diz Jaime Bulhosa, que se dirige a um nicho, apostando numa selecção diferenciada. Aqui também há eventos, mas ao contrário da Trama, que aposta muito na música, na Pó dos Livros são mais as apresentações, tertúlias e debates políticos. No último mês organizaram um "atelier estrambólico" para crianças dos 5 aos 9 anos, sobre o universo do Animalário Universal do Professor Revillod. Uma equipa de livreiros com mais de 20 anos de experiência é outra das mais-valias. "A Pó dos Livros não é só comércio. É também um prazer", sublinha Bulhosa. Aposta na especialização"É um sinal de progresso existir numa cidade uma livraria de poesia. Não é só um SPA ou um restaurante gourmet que torna uma cidade cosmopolita", diz Changuito, enquanto acende mais um cigarro. Poesia Incompleta é o nome da primeira livraria exclusiva de poesia em Portugal que abriu no n.º 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Novembro de 2008. Aqui não há eventos. O espaço é pequeno, mas tem um sofá vermelho que convida a sentar e a meter conversa. "É preciso muito pouco para um espaço destes subsistir. Não tenho empregados e a renda, embora me custe muito a pagar, não é astronómica." O importante é disponibilizar a maior diversidade possível, desde edições de autor a tudo o que de relevante se edita em Portugal, e muitos livros importados, em várias línguas. "Dá para ir aguentando", conta. Mantém um segundo emprego: a exploração do bar do Teatro da Barraca. "Não pretendo comprar um Bentley com esta livraria. E quem já percebeu isso, é aqui que compra os seus livros de poesia", ressalva, com a ironia de sempre. O blogue potencia a venda através da Internet e "dá uma ajuda". "Mas não deixa de ser um contra-senso. Em média, [o blogue] recebe 250 visitas diárias e existem momentos em que estou completamente só. No Facebook, a livraria tem 1000 amigos e quase nunca aparece cá algum." "As livrarias independentes têm de ser acarinhadas. E acarinhar não é ser amigo no Facebook ou encontrar o livreiro na rua e dizer "tenho de lá ir". É mesmo ir." Avessa a modasQuem não vai em modas é a Letra Livre, a casa dos "livros impossíveis", com as portas abertas desde 2006, na Calçada do Combro. "Não estamos no mundo do espectáculo. O que me importa é comprar e vender bons livros", diz Eduardo de Sousa. Especializada em literatura e ciências humanas, a Letra Livre disponibiliza livros novos e usados. Dá primazia às pequenas editoras como a Averno, Antígona, Frenesi, Fenda, Deriva ou & Etc, que têm direito a prateleiras próprias. "O que nos interessa não é a literatura ligeira, de grande circulação, mas a boa literatura. Se alguém quer ler um Foucault, um Derrida ou um Marx, acabará por cair nestes espaços." Os próprios livros que editam, com tiragens muito reduzidas, não têm pretensões comerciais: "Publicamos livros que ninguém quer editar em Portugal. Também lançamos alguns de poesia e estamos a preparar a edição de alguns clássicos", explica Eduardo de Sousa, realçando que a actividade principal continua a ser a livreira. Pontualmente, há uma ou outra apresentação de obras publicados pela Letra Livre e de amigos da casa. A publicidade está bem longe das preocupações: "Os leitores que verdadeiramente interessam sabem dos espaços que existem. O mundo é pequeno." Este ano, a Letra Livre abriu um novo espaço, na Galeria Zé dos Bois, seguindo os mesmos princípios. "Estamos a sobreviver com alguma tranquilidade, mas sem grandes pretensões", afirma. O prazer vem antes do negócio. Afinal, as livrarias independentes não pretendem imitar as grandes cadeias dos espaços comerciais. Embora não deixem de aplicar o ditado "quem não tem cão caça com gato". Só que os livros são outros, os leitores também. E como pergunta Changuito, "se vamos ao melhor dentista ou se levamos o nosso carro à garagem da Mercedes para não sermos enganados, por que não vamos às melhores livrarias?".»

Por Eduarda Sousa

(in Público).

4 comentários:

Fernando Frazão disse...

Eu não quero livrarias para ir ao teatro, conversar com os amigos, beber cerveja, ver exposições de artistas vanguardistas, tal como não compro livros (apetecia-me dizer coisas impressas com formato de livro) no mesmo sítio onde meto gasolina no carro , ou compro fruta.
Eu (que só caço prato) não caço com cão nem com gato.
Eu quero livrarias onde se comprem livros, ponto.
Podem as livrarias (os livreiros) acharem que com eventos atraem o pessoal mas o que está a acontecer é que o MESMO pessoal está a rodar por essas livrarias.
Percebo a angustia do guarda- redes antes do penalty mas, meus caros, ou se ganha gente nova para a leitura ou assim não vamos lá.
De qualquer modo um abraço de solidariedade de quem só vai às livrarias para comprar livros, aos teatros para ver peças, aos cinemas para ver filmes, aos auditórios para ouvir música.
Uso um sistema para ouvir música, uma televisão para ver o Benfica (hoje 2-0 aos lagartos), um PC para trabalhar e escrever comentários em blogues, um telemovel para fazer telefonemas, (passe a redundância) e destesto o cinco em um.
Abraço ao José Pinho à Catarina Barros ao Ricardo Ribeiro ao Jaime Bulhosa à Isabel Nogueira ao Eduardo de Sousa e parabens à Eduarda Sousa por este magnifico artigo.

Anônimo disse...

eu gostava que houvesse pó dos livros na minha cidade.. sério :) resta-me mesmo seguir o blogue que acho estupendo.

este artigo lembrou-me a série de dylan moran, black books.. conhece?

m.ª

Pó dos Livros disse...

Black Books, até, se não me engano, coloquei um video dessa série no blogue. ;)

Obrigado

Patty disse...

Aqui em Cascais temos a Galileu. E até eu, que sou cliente desde os quinze anos, quando vendia roupa em 2ª mão para comprar livros, lá vou cada vez menos.
Porque é prático entrar nas livrarias do shopping (FNAC nunca mais!), porque apanho promoções no supermercado, porque peço cada vez mais livros emprestados (e depois vou comprar os que adorei), enfim, é só comodismo!
Mas se um dia a Galileu fechasse seria como se um bocadinho de mim desaparecesse. E a responsabilidade também seria minha.