terça-feira, abril 27

De geração em geração


Devia ter uns nove anos – seria um pouco mais velho do que tu – e decorria o ano de 1932, quando ainda vivia na Galiza e era pastor. Um dia, perdendo a noção do tempo, talvez por causa da brincadeira, e, como acontece nos dias de Inverno, sem se dar por isso já a luz do dia esmorece, dei conta de que poderia estar em apuros. Por mais que eu corresse ou fizesse correr o gado que comigo se encontrava nas montanhas, nunca conseguiria chegar antes que a noite me assombrasse o regresso a casa. Assim pensei, assim aconteceu. No caminho descendente, ainda longo, que ligava os trilhos dos montes marcados pelas pedras milenares das estradas antigas do Império Romano, à minha minúscula aldeia, composta por apenas três casas num lugar muito bonito e de nome poético, A Pousa – já lá foste com o pai –, trazendo apenas comigo os animais, um pau e uma pequena lanterna de petróleo que a minha avó sempre me obrigava a levar para em caso de necessidade, como este, me iluminar o caminho, dei de caras com pior pesadelo de criança. Seis pares de olhos e seis pares de grandes e brancos caninos reluziam na minha frente.
Era uma pequena alcateia, muito comum naquela época, na Galiza, que se encontrava a uns escassos metros de mim e me barrava o caminho para as já visíveis e protectoras luzes da aldeia. Não eram os primeiros lobos que via, mas nunca tinha estado tão perto deles, só dos mortos, como aqueles que os caçadores exibiam em dias de festa. Também me lembro dos momentos inesquecíveis, junto à lareira, com a minha avó a contar-me velhas histórias assustadoras ao mesmo tempo que ouvia os uivos dos lobos, nas noites frias de Inverno, nas austeras montanhas galegas.
Eu sabia que os lobos não atacariam as vacas, pois só em casos muitos raros os lobos atacam vacas adultas, preferindo presas mais fáceis e menores, como bezerros, potros ou ovelhas.
O lobo alfa, todo negro, fitou-me nos olhos, eu tremi quase sem me mexer, estendi o braço, balouçando a lanterna. De repente, apercebendo-me de que naquele dia não trazia novilhos, potros, nem ovelhas, numa onda de terror que me percorreu todo o corpo vindo do chão até ao cocuruto da cabeça, subiu-me em forma de remoinho uma náusea que tudo fez girar à minha volta, numa tontura enorme, e, imaginando-me transformado num bezerro, perdi os sentidos.
Quando acordei, não posso precisar exactamente quantos segundos ou minutos depois, dei por mim rodeado pelas minhas vacas, colocadas estrategicamente como se fossem um escudo protector. Sem saber se tinha sido intencional ou não, o que é certo, felizmente para mim, é que os lobos, ou porque não tinham fome, ou porque temeram a luz da pequena lanterna, ou simplesmente porque sempre recearam o homem, mesmo sendo eu apenas um miúdo, tão silenciosamente como tinham surgido, desapareceram na escuridão da floresta.
Corri o mais que pude em direcção às luzes da minha aldeia, sempre entre as minhas amigas vacas, com um olho mirando adiante e outro mirando a retaguarda, abracei-me à minha avó.
Mais tarde, já no meu quarto, vendo-me ao espelho pronto para me lavar, reparo que tinha a cara suja de terra com aquilo que parecia ser a marca de uma enorme pata de lobo.

Esta foi a história (verdadeira) que o meu pai me contou, quando um dia lhe pedi para me ler, antes de dormir, uma história com lobos. Recordo-me de ter sonhado, nessa noite, com o que ainda eram lobos maus. Ontem, contei-a eu ao meu filho que imediatamente me disse:

- Pai eu não tenho medo de lobos, eles são tão queridos!

Jaime Bulhosa

10 comentários:

Esparsa disse...

que história magnífica!
o meu pai também me contou muitas, mas passavam-se todas num sítio distante, numa cidade sitiada pelo deserto e o mar...

Rosa Carioca disse...

Mas são queridos :)

Rosa dos Ventos disse...

Os lobos agora são outros! :-))
Bela estória...

Eduardo F. disse...

Em nome de certas "tradições" o nosso divórcio tem sido responsável pela destruição da vida.

É importante quebrarmos esse elo que se vem perpetuando como um veneno nas cabeças que educamos.

Bem-haja, portanto esse filho novo e e essa fala nova.

fallorca disse...

Está visto que todos temos «uma história com lobos». Na do meu pai, quando miúdo e pastor na Estrela, era atacado por uma loba com filhotes. Não me recordo como terminava, só que continuo a partilhar o sentimento do teu filho

AM disse...

E bolas para o Jack London...

Esparsa disse...

Sr. Livreiro, tenho uma dúvida léxico-existencial: não me consigo habituar a dizer estória!

Pó dos Livros disse...

Esparsa,

Se tem um problema em dizer estória diga antes pequena história. :)


Jaime

maria disse...

De acordo com o que tenho lido e ouvido, em particular pela voz de cientistas portugueses do "Grupo Lobo" da FCL, não há qualquer registo de que, alguma vez, um lobo saudável tenha atacado um ser humano :))

papu disse...

mudam-se os tempos, mudam-se os medos :)

Gosto muito do blog e hoje comentei pela primeira vez porque me saltou a tampa. Às vezes é preciso uma coisa assim radical para quebrar o silêncio :)

Quando estiver em Portugal ainda hei-de ir à livraria e mexer naquelas maquinetas antigas que atraem as mãos e os olhos da miudagem, e em que os adultos não se atrevem a tocar :)