quinta-feira, abril 22

O Livro de Cabeceira

(Retrato de Sei Shonagon)



-Por favor, queria um livro de cabeceira?

- Ah!... O Livro de Cabeceira, esse extraordinário relato dos costumes da Corte japonesa do século X, considerado um dos maiores clássicos da literatura japonesa, foi escrito por Sei Shonagon, a dama de companhia da Imperatriz Teishi. Sabe, ela foi contemporânea de Murasaki Shikibu, a mulher que escreveu o primeiro romance de sempre A Lenda de Gengi. Com certeza, já ouviu falar? Murasaki terá inclusive feito referência no seu livro a Sei Shonagon. Aliás, não em termos muito elogiosos, chegando a dizer que Shonagon era uma libertina (evidentemente para a sua época, o que lhe dá até uma certa graça) e profetizou que não iria acabar bem os seus dias. Nestes dois livros, tanto A Lenda de Gengi como O Livro de Cabeceira, a vida cultural e social dos homens e das mulheres é explorada em grande pormenor. Porém, e se calhar ainda bem, pouca atenção é prestada às manobras políticas que ocupavam uma grande parte do tempo dos funcionários masculinos da Corte japonesa, esse era um mundo completamente vedado às mulheres. Seja como for, estas duas mulheres escreviam, essencialmente, para si próprias e para outras mulheres. Analisando minuciosamente a sua vida ao espelho e partilhando com as outras a inteligência, a perspicácia e a observação das questões psicológicas muito comuns nas mulheres de todos os tempos.
Acho que já estou a falar demais. Infelizmente O Livro de Cabeceira nunca foi traduzido para português. Ou melhor, parece que está a ser traduzido agora, finalmente, ao fim de tantos séculos. No entanto, poderei encomendar uma tradução em inglês, alemão, italiano ou até, provavelmente, em espanhol, o que acha?

- Olhe! Toda essa conversa é muito bonita e deve fazer imenso sentido para si, mas o que eu pretendia, mesmo, era um livro de cabeceira. Sabe? Daqueles tipo diário!

Pensei para comigo: «Jaime andas a ler demais e estás a ficar um chato!»

Jaime Bulhosa

8 comentários:

Anônimo disse...

Ilusrativo. É bom botar um freio nas nossas paixões, literarias ou não, para não virarmos uns chatos. Embora com as literarias, dentro de uma livraria, seja a coisa mais difícil...
Nancy

disse...

Chato? De maneira nenhuma. Todos os dias por aqui passo, tanto pelas suas histórias como pelas recensões. Quando voltar à capital, farei uma visita à sua livraria.

Rosa Carioca disse...

Pelo menos, ouviu algo que desconhecia, não? E como diziam os antigos: "O saber não ocupa lugar."

Anônimo disse...

É muito possível ser «chato» um livreiro que fala sabendo do que fala. Culpa dele ou do cliente a quem dá atenção?
O que nunca será possível a um livreiro é ler de mais. Salvo melhor opinião!
M. Medeiros

fallorca disse...

Ahahahahah

Anônimo disse...

Brilhante! Não sei se as suas histórias são verídicas ou inventadas mas são deliciosas. Logo que possa passo pela sua livraria só para lho perguntar - e já agora encomendar uma tradução francesa do Livro de Cabeçeira!
Cristina Carvalho

LuLu disse...

Ah.. ainda bem que o Jaime compreendeu porque eu de certeza que iria para me dar mais detalhes quanto a esse.. diário..

No vazio da onda disse...

Deus dá nozes a quem não tem dentes. Ainda estou à espera de encontrar um livreiro deste calibre pela frente.
A minha experiência:
uns conhecem quase todos os títulos, mas não conhecem os livros; outros nem títulos, nem livros; uns ficam incomodados se por acaso fizer alguma pergunta; outros ficam podres porque a base de dados dá indicação da existência do livro, o que os obriga a ir 'lá dentro' buscar o dito cujo; uns nem sequer consultam a base de dados (isto quando têm uma) e respondem "se não está na estante é porque não há". E podiam continuar por aqui fora.
Cheguei mesmo a perguntar a uma se para ela havia alguma diferença entre vender livros e vender sapatos. Ao que ela respondeu: "pelo menos na sapataria só preciso de procurar o n.º e a cor".

Decididamente tenho de ir à 'Pó dos Livros'.