terça-feira, abril 20

O poder da leitura


Da ignorância do fraco, nasce a força do déspota
Livreiro anónimo

Em 1660, Carlos II de Inglaterra decretou que o concelho das Plantações Estrangeiras ensinasse os preceitos do cristianismo aos nativos, servos e escravos das colónias britânicas. Os opositores ao decreto de Carlos II não acreditavam naqueles que defendiam que a alfabetização através da Bíblia reforçaria os laços da sociedade. Se os escravos fossem capazes de ler a Bíblia, poderiam também ler panfletos abolicionistas e, mesmo que isso não acontecesse, acreditavam que nas Escrituras seria possível encontrarem ideias de revolta e liberdade. A oposição a este decreto foi mais forte nas colónias americanas, onde, um século mais tarde, foram promulgadas leis rigorosas que proibiam todos os negros, escravos ou homens livres, de serem ensinados a ler. Estas leis vigoraram até meados do século XIX. Durante centenas de anos, os escravos aprenderam a ler em condições extraordinariamente adversas, arriscando a própria vida. Por todo o sul dos Estados Unidos da América era comum os proprietários enforcarem os escravos que tentassem aprender ou ensinar outros a ler e escrever. Existem muitos relatos: o escritor americano Frederick Douglas, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloquentes abolicionistas do seu tempo, recorda na sua autobiografia: «O facto de ouvir com frequência a minha dona a ler a Bíblia em voz alta […] despertou-me a curiosidade em relação ao mistério da leitura e acicatou-me o desejo de aprender. Até àquela altura, eu nada sabia desta maravilhosa arte e a minha ignorância e inexperiência daquilo para que me poderia servir, assim como a confiança que tinha na minha patroa, deram-me a ousadia de lhe pedir que me ensinasse a ler […]. Em pouquíssimo tempo, com a sua bondosa ajuda, aprendi o alfabeto e consegui ler palavras de três ou quatro caracteres... O meu amo proibiu-a de me continuar a ensinar, mas a determinação que ele expressara em me manter num estado de ignorância apenas me deu mais determinação a procurar instrução.» Thomas Johnson, um escravo que veio a tornar-se um pregador missionário famoso em Inglaterra, explicou que aprendera a ler estudando as letras de uma Bíblia que furtara. Como o seu patrão lia todas as noites em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson pedia-lhe que lesse o mesmo capítulo várias vezes, até o saber de cor e ser capaz de encontrar as mesmas palavras na página impressa. Quando o filho do amo estava a estudar, Johnson sugeria ao menino que lhe lesse parte da lição em voz alta. «Deus nas alturas», dizia Johnson para o animar, «leia isso outra vez», o que o menino fazia com frequência, julgando que o escravo estava a admirar os seus dotes de leitor. Graças à repetição, aprendeu o bastante para conseguir ler jornais. Outro escravo, de identidade anónima e doméstico (porque aqueles que trabalhavam nas plantações não tinham as mínimas condições para aprender a ler), aprendeu as artes da leitura, pelo mesmo método da repetição de frases de uma Bíblia. Conta-se que, ao surpreendê-lo a ler em voz alta uma passagem da Bíblia, a sua dona, muito admirada, ter-lhe-á perguntado: «Como aprendeste a ler?» Atrapalhado, respondeu: «Pela Bíblia, minha senhora.» «Foste abençoado por Deus.» Ao que o escravo replica: «Se Deus me ensinou a ler... então, também ele me fez escravo!»
Para os escravos, aprender a ler não significava um salvo-conduto para a liberdade, mas antes uma forma de aceder a um dos instrumentos mais poderosos dos seus próprios opressores. À semelhança de ditadores, tiranos, monarcas absolutistas e outros detentores ilícitos do poder, tinham consciência da força da palavra escrita. Sabiam, muito melhor do que alguns dos nossos actuais leitores, que ler é uma força avassaladora mais poderosa do que muitos exércitos.

Jaime Bulhosa

Bibliografia consultada: James Walvin, Uma História da Escravatura, tinta-da-china, Lisboa, 2008, e Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998.

3 comentários:

paula simoes disse...

«Como aprendeste a ler?»

Pó dos Livros disse...

Obrigado,

Acabei de dar conta.;)

Jaime

Blog de um Brasileiro disse...

Simplesmente belíssimo esse texto. A frase inicial eu copiarei e colocarei em camisas para rodar aqui em minha região, oprimida pela ignorância.