quarta-feira, abril 14

Outros pós


A Pó dos livros está cheia de velharias, junto aos livros, um pouco por todo o lado. Telefones, máquinas de escrever, grafonolas, rádios, taxímetros, microscópios, etc. É engraçado ver a reacção dos mais novos aos objectos que nunca tinham visto ou o despertar da memória dos mais velhos perante aparelhos que já há muito não viam. As máquinas de escrever, se calhar por se encontrarem mais à mão, ou porque o teclado lhes é mais familiar, são as velharias que maior curiosidade despertam. As crianças mais pequenas (as mais crescidas nem se atrevem a tocar-lhes) rapidamente percebem como funcionam e logo se põem a carregar nas teclas e, sentindo o peso, carregam com demasiada força. Ao mesmo tempo que escrevem, carregando em várias teclas simultaneamente, perguntam aos pais para que é que aquilo de facto serve, para além de escrever. A resposta é, invariavelmente, a comparação com outro aparelho que nem sequer existia na altura:
- Ó filha! Eram os nossos computadores e só serviam para escrever.
- Que grande porcaria… - respondem elas depois de encravar a máquina. Muito aflitas, sem saber o que fazer, perguntam:
- Como é que se faz delete?
O telefone de disco que temos no balcão, e que ainda funciona, é outro dos aparelhos antigos que mais perguntas suscitam: - O que é isto? – É um telefone antigo? – Que pesado e grande que ele é! Sem perceberem que o disco é para rodar, imediatamente, carregam nos números como se fossem botões e exclamam: - Mãe, isto não funciona! – Onde está a lista de contactos?
A grafonola, essa, é demasiado arcaica para que consigam instintivamente perceber para que serve e como se dá à corda; por isso, as perguntas que se seguem a o que é isto?, são: – Onde está o botão para ligar? – Por onde sai o som?
Os livros em papel, claro, ainda reconhecem, mas por vezes acontece os mais pequenos mexerem em capas de livros brilhantes e com relevo, como se fossem os iphones dos pais. Isto é, tocam-lhes com o dedito para ver se a imagem mexe.
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Jaime Bulhosa

4 comentários:

josé luís disse...

:)
e o taxímetro? conta palavras?

eMe-a-eMe disse...

experiência única mesmo : )

fallorca disse...

Tenho uma foto tirada a «escrever» numa das tuas máquinas que é um mimo. Fica com a minha nova morada e responde se a tal frase é tua ou não. Sou anti-plágio por natureza

Samuel disse...

A minha filha J. tinha quatro anos (agora tem seis) quando me fez sentir pela segunda vez a generation gap, justamente perguntando o que era a tal máquina de escrever aí na Pó dos Livros. A primeira vez que me fez sentir datado, ela tinha um ou dois anos, eu teria 31 ou 32 e perguntou-me apontado para um livro ilustrado: "O que é isto?" Era um telefone dos tais de disco.