sexta-feira, maio 14

2012


Coloca o livro no balcão, entre as mãos, com todo o cuidado, como se aquele objecto fosse mais do que apenas um livro. Soergue a cabeça, olha para o livreiro e diz, mais em jeito de comentário do que de pergunta:

- Vendem-se mais… agora que está aí o Santo Padre?

- Refere-se à Bíblia? Para lhe ser sincero, já se vendeu mais.

- É o sinal dos tempos. As pessoas deixaram de temer pelas suas almas, julgam que tudo lhes é permitido fazer, agindo sem moral nem ética, e, no fim, o perdão ser-lhes-á concedido de qualquer das formas, bastando para isso que se finjam arrependidas. Deus não é assim tão ingénuo. Agora não se reza e já ninguém se confessa, o unanimismo prevalece e toda a gente acredita nas baboseiras que a comunicação social diz sobre Teoria da Evolução. Agora, o Sagrado é a Televisão, é nela que acreditamos. Declararam a morte de Deus e agora tudo é permitido*. Os jornalistas reescrevem o passado, seleccionam, desvirtuam o presente e tudo é relativizado. O final dos tempos está próximo, o Dia do Julgamento Final está para chegar e aí... quero ver! A Justiça Divina far-se-á inexoravelmente. Essa é a mensagem que o Santo Padre nos traz.

O livreiro faz cara de quem leva sério as palavras ditas, com tanta solenidade, e finge um arrepio.

- O Dia do Julgamento Final está a chegar, tem a certeza? Já tinha ouvido dizer que o mundo ia acabar em 2012. É verdade que até se fizeram filmes sobre isso e que foi profetizado por Nostradamus, porém, tinha esperança de que não passasse de ficção de Hollywood.

- Não sou eu que digo, nem esse Nostradamus de que fala. Está confirmado pelas Escrituras.

- Quer dizer então que temos uma confirmação oficial?

Atrapalhado, o cliente pergunta:

- Uma confirmação oficial?

- Quero dizer… já foi confirmado pela comunicação social?

Mais do que nunca, o cliente fica baralhado.

- Como pela comunicação social?

- Se houve uma conferência de imprensa dada pelo próprio?

- Ó homem, de que é que está a falar, do Papa?!...

- Não! Dele, em pessoa, a falar na televisão.

Exasperado, o cliente quase se zanga:

- Por Deus! Não!

- Não apareceu na televisão? Hmm… então não existe!

- Você é um malandro…

* Talvez uma referência à frase de Nietzsche, «Deus está morto», em Assim Falava Zaratustra ou à frase «Se Deus está morto, então tudo é permitido», da personagem do romance de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov

Nota: Esta história aconteceu com um cliente habitual, muito simpático, que gosta de se afirmar católico e de brincar connosco, brindando-nos constantemente com pequenos sermões.

Jaime Bulhosa

Um comentário:

Luís Graça disse...

Dada a proximidade com a Igreja de Fátima, é normal que haja bastantes católicos frequentadores da Pó dos Livros.