sexta-feira, maio 7

Filho Adolescente

- Pai, tens cá em casa, ou na livraria, algum livro sobre a morte?

- Sim, temos cá em casa uma História da Morte muito interessante…

Conhecendo-me bem, o meu filho interrompe-me.

- Não pai! Desses também temos na biblioteca lá da escola. Esses livros são sobre a história dos vivos perante a morte dos outros, ao longo dos tempos, e não sobre a morte em si.

- Ah! Referes-te àqueles livros com relatos de pessoas que passaram pela experiência da morte clínica?

- Também não pai. Isso é treta! Não passam das memórias dos milionésimos de segundo vividos imediatamente antes do cérebro apagar, ou dos segundos vividos depois do cérebro reacender. Estás a perceber pai? Eu quero ler alguma coisa sobre a morte absoluta, definitiva.

Depois da humilhação, levanto-me e dirijo-me à estante. Retiro um livro cujo título poderia ser Compêndio dos Conhecimentos Científicos e Teológicos Sobre a Morte, composto por apenas duas folhas e peço para que o meu filho me leia alto:

PRÓLOGO

Num enterro numa aldeia normanda. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo fúnebre. «Ainda era novo, tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»

EPÍLOGO

Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.

E. M. Cioran


Jaime Bulhosa

3 comentários:

Raul e Joel Carvalho disse...

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Isabela Figueiredo disse...

Adorei ler este texto.

Rosa dos Ventos disse...

E é assim mesmo...