segunda-feira, dezembro 12

Um amigo



Era considerado um dos escritores mais inspirados do século. Os seus romances e escritos despertavam as emoções mais fortes nos corações das damas e os ímpetos mais corajosos e nobres dos Cavalheiros da corte. Os encómios dos críticos eram uma constante e os seus pares elevavam-no ao estatuto de sumidade. Um séquito de admiradores seguia-o para todo o lado, bajulando-o constantemente.
Mas, como se afaz dizer, nada é perfeito. Amiúde a vida do nosso escritor não era fácil. No seu quarto vivia um rato, que embora minúsculo como um rato, de tamanho igual ou superior à inteligência do seu companheiro. 
Durante a noite, enquanto o escritor gozava do descanso merecido, o roedor saciava a fome de leitura e do estômago com os textos que o famoso escritor produzia durante o dia. Todavia, era sempre criterioso em relação àqueles textos que escolhia para refeição. 
Este rato era a desgraça do nosso escritor. Já tinha experimentado tudo. Porém, nada havia resultado. Nem mesmo um gato vigilante conseguia chegar-lhe ao pêlo nem as mais estranhas invenções, as mais variadas e engenhosas ratoeiras, conseguiam evitar a destruição de páginas inteiras de prosa escrita no mais doce papel. O desventurado escritor via-se obrigado a reescrever, continuamente, os textos perdidos, sem nunca os conseguir voltar a reproduzir na perfeição. Certo dia o escritor decide, como última e desesperada tentativa, passar a escrever poesia em vez de ficção. Na esperança que o rato não gostasse do género e o deixasse, definitivamente, em paz. Entusiasmado, inspirado, com tal ideia, escreve num só dia um livro inteiro. Jamais alguém terá escrito algo tão grandiosamente semelhante, os mais belos poemas foram escritos neste glorioso dia, nem mesmo Petrarca terá conseguido constituir tamanha beleza, pensou o escritor. O ego, inchado, fazia-o escumar de soberba. Extenuado, dorme feliz com a reflexão.
No dia seguinte, quase sem acreditar no que os seus olhos viam, seco como uma carcaça de pão de véspera, jazia, em cima de um dos seus poemas, o pobre rato.
- Finalmente morreste, maldito! – Disse o poeta – Que sorte a minha que o tempo não te chegou para roeres o meu primeiro verso.
No entanto, a vida tem revezes inesperados. Reza a história que nunca mais o escritor teve sucesso. Nem na prosa, ainda menos na poesia. A desgraça, miséria e solidão foram, desde aí e para sempre, as suas únicas companhias.
Anos mais tarde, ao perguntarem-lhe qual teria sido a causa da desdita sorte e depois de muito ter reflectido sobre a pergunta, terá respondido:

- Reconheço que matei o meu melhor amigo e mais exigente crítico, tão-somente com um mau poema.


Nota: esta história foi inspirada numa fábula da literatura espanhola.

Jaime Bulhosa

9 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

Muito interessante!

argumentonio disse...

ao menos, o rato não roeu a autocrítica ;_)))

George Sand disse...

Adorei o rato que comia textos. Devia achar as palavras doces sobremesa e, as ríspidas, entradas

Malu disse...

Ora, esse rato amigo era diabético
ou não possuía um fino paladar.
Como não achar saboroso um livro de poemas?
Você escreve divinamente, deliciosas tuas palavras.
Abraço!

Pó dos Livros disse...

Malu,

Obrigado pelo elogio, mas não exageremos.:)

Jaime

Malu disse...

rsrsrs
Eu não sou uma "rata crítica".
Se não gostar, também não vou depreciar.
Ficarei em silêncio.
Abraços.

Malu disse...

Por que esta postagem não apareceu em meu Google Reader?

Gostaria de ler algum poema teu.

Pó dos Livros disse...

Malu,

Não sei responder. Em ralação a um poema meu... não sou poeta. ;)

Jaime

Malu disse...

Poemas não são as cores, sons, fragrâncias e suspiros da alma?
Poetas não são aqueles que têm a ousadia de transformar o ritmo da alma em versos?
Versos são borboletas que habitam em nosso ser e quando querem voar se transformam em poesias.
Vou lhe enviar algumas das minhas borboletas por email.