segunda-feira, maio 3

Mau prenúncio


É mau prenúncio quando percebemos o fim de um livro logo no seu começo. Principalmente quando não nos referimos ao seu epílogo.

Pais e Mães, aonde ides? Para onde levais os Vossos Filhos? Por que Caminhos?

São estas as perguntas com que abre o livro editado pela Fronteira do Caos e de título “sugestivo” Pais e Mães, a Educação dos Pequenos Homens e Mulheres. Dos seus autores, Cidália Laranjo e Francisco de Almeida Garrett, nada sabemos, porque nada no livro está escrito sobre eles. Como se esta lacuna fosse a demonstração plena da vergonha que sentem pelo que escrevem, ou, por outro lado, e não querendo parecer parcial, por ser este apenas um gesto da mais exemplar humildade. O livro abre em forma de carta, anunciando-nos uma palestra dividida em 350 pontos.
Não é papel do livreiro fazer considerações sobre o conteúdo de um livro, embora, enquanto cidadão, tenha o direito de o fazer. Mas, infelizmente ou felizmente, não me ocorrem neste preciso momento os adjectivos necessários para o qualificar. Deixo-vos com alguns dos pontos desta palestra. Cada um que julgue por si.

74. Os rapazes devem ser habituados desde a meninice a cultivar o cavalheirismo e é importante que tenham sempre na ponta da língua palavras como bom dia, por favor, com prazer, obrigado, desculpe.

76. Já as raparigas – emancipadas, sim, mas não da virtude – devem ser ensinadas a comportar-se de acordo com a sua dignidade, exigindo as honras que são devidas à sua delicadeza feminina, em vez de se aproveitarem, ou de se tornarem injustas por presunção, quando são alvo da deferência que a sua nobre condição impõe, acrescida, ou não, de circunstâncias particulares de afecto.

164. Hoje, todos os meninos vão à escola, por força de uma imposição legal que não tomou em conta que muita ciência em muita miudagem não compensa a ausência de virtude, ao passo que pouca ciência em pouca miudagem basta para formar corações rectos. É bem preferível a ignorância do que pseudo-conhecimentos que tornam os jovens interiormente piores.

196. Não os deixeis ler, em vez dos clássicos, as desgraças disseminadas por todo o lado, num tempo em que a própria literatura infantil, que outrora apelava à responsabilidade e ao bom sentimento, está agora repleta de criaturas ociosas, mulheres quase nuas, homens que voam e de todo um cortejo patético de inverosimilhanças.

199. A ignorância escandalosa dos estudantes modernos deriva muito do facto de só terem psicologia “pop” para meditar. São cada vez mais iguais entre si, não porque o desejem, mas pelo facto de não conseguirem ser de outro modo, e por isso procuram diferenciar-se uns dos outros pintando o cabelo de cores garridas, furando as orelhas, vestindo os paramentos mais ousados, embelezando o corpo de todas as formas e, enfim, investindo somente em factores de ordem externa.


206. Por entre tatuagens, brincos, roupas ousadas e comportamentos que nem os cães costumam ter na via pública, dificilmente o pensamento dos jovens se fixa em alguma coisa, sendo notória a incapacidade que revelam de raciocinar e de estruturar discursos com sentido.

edição: Fronteira do Caos (Março 2010)



Jaime Bulhosa

28 comentários:

fallorca disse...

Eu bem digo, «eles andem por aí»...

Luís R. disse...

Estranho os anacronismos. Um livro de 1810 que fala de psicologia pop?

Carole disse...

Este livro foi editado em mil oitocentos e quantos?

disse...

As frases indiciam uma obra-prima. Ou uma obra da prima? E a referência às mulheres quase nuas e à psicologia pop é genial. Bem como a igualdade, que obriga os jovens a procurar a diferença. Vê-se que há ali honesto estudo com muita experiência misturado.

Shyznogud disse...

O livro é de qdo, Jaime?!

Manel disse...

que medo...

Anônimo disse...

Mas o ano
de publicação disto é?...

Menina Limão disse...

o.O

(esta sou eu a esbugalhar os olhos.)

Pó dos Livros disse...

O livro é de Abril 2010

Cristina Gomes da Silva disse...

Confesso-me aturdida. Trata-se de um livro escrito há muitos anos e agora reeditado ou é mesmo uma revisitação/defesa de valores mortos que alguém quer desenterrar?

João M Almeida disse...

...os autores é que são de 1800 e troca o passo

fallorca disse...

Já disse isto tantas vezes que, com a vossa licença, passo a citar: «Eu bem digo, "eles andem por aí"...»

Rosa Espartilho de Rótula disse...

hihihihihih!
se calhar compro um para mim.

Rosa Espartilho de Rótula disse...

pensando bem...é um pouco antiquado em certos +ensamenso mas...concordo que se deve dar às criaças clássicos para ler e livros não clássicos igualmente interessantes...as tristezas dos adultos não lhes devem ser apresentadas muito cedo.

Vou antes comprar o livro do Dr Benjamin Spock:P

Mariana Canto e Castro disse...

Muito, muito perigoso....
sobre a autora, um interessante e cada vez mais estranho dado:
http://bancadadeleao.blogspot.com/2010/02/sporting-em-poesia.html
opus dei meets juve leo ?????

Anônimo disse...

Custa-me a crer que o original seja atual. A construção das frases e algum vocabulário são nitidamente arcaicos. Parece mais uma adaptação de um texto antigo...

manuela disse...

O mau prenúncio vai muito mais longe, trata-se mesmo de caos na fronteira da língua.

Ou sou eu que estou com muito sono, ou isto faz parte de uma campanha para que não se comprem livros.

Vigora como opinião oficial no meio académico e literário, a concepção que rejeita a autoria de Arte de Furtar, ao génio do padre António Vieira. Tendo-se erradicado este título da lista de obras deste autor. Sem grande ponderação e com demasiada leviandade se tomou a decisão…

Tirem-me deste filme!

{anita} disse...

bizarrrooOOO!
Mariana, os poemas do leão também prometem :D
(e o nome da editora é muito sugestivo, olé se é...)

AM disse...

Quer dizer... Há aí pontos que são completamente ridículos como o 164 ou o 196. Mas concordo com o (supérfluo?) ponto 74 a dizer que as crianças têm de aprender a dizer "Bom dia." ou "Obrigado" ou "Por favor" ou "Desculpe"...
Quero dizer... Não vejo o grande problema que daí advém...

Miguel disse...

Jaime,
Ao teu "Mau prenúncio", acrescento Péssimo Livro.
Mesmo sem o ter lido (e não irei certamente), as breves passagens que transcreves denunciam um chorrilho de asneiras, e distorções na abordagem à educação das crianças e porque não dizer: daqueles pais, se o forem.!?
De mentes distorcidas resultam comportamentos desviantes.

Uma sugestão a esses autores:
Ide conhecer o caminho do vulcão islandês, ide!

Um Abraço

Shyznogud disse...

AM não lhe parece estranho que se associem esses comportamentos ao cavalheirismo e não à boa educação?

Catarina disse...

a maior responsabilidade será dos autores ou dos editores? (é importante pensar nisto, acho eu...)

Bruaá disse...

- Que lindo berço, Mamã. É para o menino? Não foi a Mãezinha que o comprou, pois não?
- Não, meu amor; eu não tinha dinheiro. Foram umas meninas que andam a estudar no Liceu, as meninas da Mocidade Portuguesa. Tiveram pena de nós, por sermos pobrezinhos, e deram-nos o berço e os vestidos para o nosso menino.
- Mamã, são tão boas essas meninas! Eu, se as visse, dava-lhes um beijo e havia de lhes dizer: Muito obrigada! Bem hajam! A Mãezinha até chorou de alegria com o bercinho e o enxoval para o menino.

Anônimo disse...

A Fronteira do Caos dá aqui um passo em falso ...

Anônimo disse...

"comportamentos que nem os cães costumam ter na via pública"...

pergunto-me, sinceramente, em que ruas passam estes senhores, para verem tais coisas!

papu disse...

pois, realmente é uma chatice, estes jovens de hoje não serem capazes de raciocinar assim brilhantemente como os autores deste livro genial mostram ser capazes. E realmente hoje a literatura infanil e juvenil é uma aberração, dantes é que era, os livros da coleção azul, por ex, são exemplos irrefutáveis do que deveria ser o univeso infantil, se todas as crianças fossem como as personagens da Condessa de Segur o mundo estava salvo... um mundo cheio de bons sentimentos onde as crianças eram castigadas impiedosamente e as meninas bem comportadas amostras irrepreensíveis de casos patologicos da infância... mas cheios de virtude, ainda que falsa. Acho q não há inf sobre os autores pq, coitados, contrariamente ao q eles pensam hoje as pessoas reagem contra barbaridades destas e expressam a sua opinião mt + frontamente do q há 40 anos atrás...

obrigado pela partilha

pedro santos disse...

Estive já a pesquisar sobre o livro e está anunciado na editora com o texto que agora faço copy paste: “Pais e Mães, aonde ides, para onde levais os vossos filhos e por que caminho?", assim começa a discursar, em Paris, um sem-abrigo assumidamente moralista e muito dado a conselhos. Sebastian Goene é o nome deste invulgar personagem ficcionado pelos autores, que faz uma síntese muito pessoal de como deve ser entendida a educação à luz do que foi ensinado por grandes filósofos, desde Plutarco a Maimonides, passando por Herbart e Allan Bloom.
Dirigindo-se aos país e às mães, que são cidadãos do mundo global, independentemente do seu território de origem e da sua religião, Sebastian Goene ensina que não há crianças más, mas sim crianças bem ou mal educadas. O lar, a escola e a religião são, segundo ele, as grandes forças educadoras, e só através destas forças é possível os jovens obterem cultura, moralidade, utilidade social e polidez nas maneiras.
O mundo sem fronteiras e que a todos concede direitos iguais merece uma fraternidade polida, e não uma fraternidade tribal, porque onde não existir uma cultura intelectual, moral, de espírito e de cortesia, não é possível falar em liberdade e civilidade.

ADMIN disse...

Engraçado