quinta-feira, maio 6

On the Meaning of Reading


Todas as minhas melhores leituras aconteceram na casa de banho. Há excertos de «Ulisses» que apenas na casa de banho se podem ler se quisermos saborear completamente o seu conteúdo.

Henry Miller.


Não tenho dúvidas de que esta citação é verdadeira, ainda para mais sabendo de quem vem. Também eu admito ter tido momentos de leitura na casa de banho. Mas não a ler os clássicos gregos. Quando muito, contemplei as legendas de um busto feminino da estatuária da antiguidade clássica, estampado nalgum livro escolar. Todos os pretextos são bons para um rapaz adolescente se enfiar na casa de banho a ler. Seja como for, os lugares onde lemos parecem ter, para os estudiosos destas coisas, grande importância. O local pode influenciar de maneira significativa o prazer da leitura. Por exemplo, Marguerite Duras detestava ler na praia. Dizia ela: «Não se pode ler a duas luzes simultaneamente, a luz do dia e a luz do livro.» Omar Khayyam, apreciador dos prazeres da vida, recomendava a leitura de poesia ao ar livre, à sombra da ramagem de uma árvore, enquanto Shelley escreveu: «Tenho o hábito de tirar a roupa, sentar-me num penedo e ler Heródoto até parar de transpirar.» Eu, de gostos bastante mais prosaicos, onde de facto tiro maior prazer é na cama, a ler um qualquer clássico do século XVIII. Também o faço noutros sítios e com outros livros, mas prefiro fazê-lo na cama. Ler na cama é especial, tem-se maior privacidade, porque se é invisível aos olhos indiscretos, e, por se estar entre os lençóis, tem-se o sabor do picante das coisas proibidas e pecaminosas. A vida e a literatura estão cheias de relatos de escritores e leitores sobre as suas preferências quanto aos lugares e formas predilectas de leitura. No entanto, foi de um episódio da minha vida pessoal e não na literatura que retirei o melhor exemplo acerca da importância que pode ter o espaço circundante, o local onde se lê, o que se escolhe para ler, e o momento exacto para o fazer. Há uns meses, numa viagem que fiz em grupo ao Médio Oriente, partindo da grande metrópole africana que é a cidade do Cairo, no Egipto, passando pelo deserto da Península do Sinai, pernoitando em Taba, junto ao Mar Vermelho, depois de atravessarmos pelas estradas o Deserto da Judeia, chegámos ao Mar Morto, em território israelita. Desejosos de esticarmos as pernas, apreciarmos a paisagem, vestirmos o fato de banho, entrarmos na água para tirar a fotografia da praxe, flutuando com um livro na mão, como só se pode fazer nas águas saturadas do Mar Morto, reparo que um dos companheiros de viagem se afasta do resto do grupo. Completamente alheado da paisagem, vestido de calças e blazer, pega num banco, tira um livro de um dos bolsos e começa, sem perder tempo, a ler. Surpreendido com aquela reacção e, perante tal gesto, não pude deixar de pensar, imediatamente, que estava perante um verdadeiro intelectual. Aquele homem só pode ter, de certeza absoluta, uma exigência, uma sensibilidade muito pouco comum quanto aos locais que escolhe para ler. O que estaria ele a ler, naquele local carregado de história e religião, não muito longe de onde dizem que Moisés recebeu as Tábuas dos Dez Mandamentos? Pensei que fosse o que fosse que estivesse a ler teria de ter alguma ligação com lugar, talvez um texto bíblico, ou os Manuscritos do Mar Morto? Não resistindo à curiosidade, dirigi-me a ele:
-Posso perguntar-lhe o que lê?
Meio atrapalhado, o meu companheiro de viagem olhou para o livro como se não soubesse o título que estava a ler e respondeu:
- On the Meaning of Life.
- Eu sabia que o título teria a ver com o local!
- Como descobriu?
Pergunta o meu companheiro de viagem, perplexo.
- Não podia ser outra coisa.
- Mas como pôde, apenas pelo título do livro, que eu escolhi aleatoriamente, descobrir que o utilizo como disfarce para ver discretamente as miúdas em biquini?
-
Jaime Bulhosa

2 comentários:

Pedro Q. disse...

Na verdade Henry Miller nao se referia a nenhum clássico grego, mas sim ao clássico de James Joyce, que Miller pouco apreciava.

Abraco,
Pedro

Pó dos Livros disse...

Pedro Q,

Tem razão, seria a Odisseia. ;)

Jaime