quarta-feira, maio 5

Privilegiado


Estava almoçar no restaurante onde vou muitas vezes e, como de costume, quando estou sozinho levo um livro para ler.

- Ah! Como eu gostaria de ler assim, livros inteiros…
Diz-me o empregado de mesa.
- Então porque não o faz, não tem desculpa, aqui mesmo ao lado tem a minha livraria?
Perguntei eu, com um ar meio presunçoso.
- Para si é fácil falar, já tentei ler um livro e não percebi nada, para além disso são caros.
Senti a sinceridade da resposta como um murro no estômago.
- É verdade o que diz. Sabe, em questão de leituras, sou como os ricos, perco a noção do valor das coisas.


Jaime Bulhosa

4 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

Quando levo um livro para a cabeleireira também ouço esse desabafo e ainda a desculpa da falta de tempo...
Ou não será desculpa?!

Débora Orrico disse...

Uma pessoa quer ler Guerra e Paz e Anna Karenina e não pode, porquê? Por causa do preço. Avé bibliotecas municipais, amanhã lá vou eu à procura :)

e isso da falta de tempo é uma grande de uma desculpa, e que tal substituir a televisão por um livro? Não? Pois, a televisão traz a papinha toda feita (e diga-se, em muitos casos, muito mal feita), mas não proporciona a viagem, as emoções e a tranformação que um livro provoca. O mal não está no preço dos livros, está nos hábitos que se criam (ou na falta deles).

Mafalda Branco disse...

Caro Jaime,
sei que, de facto, os livros são muito caros para grande parte da população. Quem pode comprar os livros que quer, quando e onde quer é, ainda, ou cada vez mais talvez, um privilegiado. Acompanho adultos que fazem enormes sacrifícios a gerir o parco orçamento familiar e sinto-me ridícula quando lhes falo na importância de comprar livros e quando os ouço responder-me que têm que fazer opções e que o preço de um livro representa muitas vezes um investimento que não podem fazer. Alguns fazem um sacrifício gigante para conseguir dar aos filhos uma colecção de livros ou apenas um, de vez, muito de vez em quando.
Tenho divulgado as Bibliotecas, que sem dúvida proporcionam esse acesso gratuito à literatura. No entanto, compreendo que muitos não as frequentem, eu própria não sou grande fã de bibliotecas. Sinto-me limitada com prazos, multas e afins. Ler um livro deve ser um direito, a qualquer hora, em qualquer data, abrindo, fechando, voltando a abrir passado um mês... Muitas reflexões me desperta este tema... Por agora fico por aqui! :)
Um abraço,
Mafalda Branco

Pó dos Livros disse...

Mafalda Branco,


Tem razão no que diz. Para algumas pessoas os preços dos livros são de facto muito caros, mas para outros é uma falsa questão. Gasta-se mais em pequenas coisas, completamente supérfluas, do que se gasta em livros. A propósito, e se me permite sugerir-lhe a leitura de um pequeno livro, de George Orwell – que também em tempos foi livreiro –, "Livros & Cigarros", pode ler um texto curto, sobre esta questão da percepção que as pessoas têm de que os livros são caros. No entanto, quando escrevi o post pensei que o enfoque seria a expressão: «já tentei ler um livro e não percebi nada», que nos remete, a meu ver, para um problema mais relevante que a do preço dos livros, os níveis assustadores de iliteracia em Portugal.

Abraço

Jaime