segunda-feira, maio 17

Protesto livreiro


Se imaginarmos dois observadores, colocados em perspectivas diferentes perante um objecto com diversos contornos, e pedirmos a cada um deles que lhe tire uma fotografia, sabemos que, no final, teremos estampadas imagens necessariamente distintas. Depois, se pedirmos aos mesmos observadores que nos façam uma descrição do objecto que fotografaram, teremos obrigatoriamente duas visões discrepantes sobre o mesmo objecto e ambos estarão a dizer a verdade sobre o que vêem. Não consigo arranjar melhor exemplo para explicar o diferendo que divide, há anos, editores e livreiros (agora, cada vez mais, os pequenos e independentes livreiros) sobre os moldes em que devem ser realizadas as Feiras do Livro de Lisboa e Porto. Claro, temos, como em quase tudo, uma excepção à regra: se o objecto fotografado fosse uma esfera, mesmo com fotografias de perspectivas diferentes, seria sempre visto da mesma forma.
Era mais ou menos isto que eu esperava que a nova direcção da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) fizesse em relação às Feiras do Livro - isto é, que fosse limando as arestas do objecto, para que ele se parecesse cada vez mais com uma esfera que agradasse à grande maioria dos diversos agentes do mercado do livro.
Enganei-me, pelo menos até agora, sobre a nova direcção da APEL. Não alteraram em nada o que as anteriores direcções da associação já tinham feito. Como as perspectivas sobre as Feiras do Livro, entre editores e livreiros, continuam a ser divergentes, tal como um casal que não se entende acerca da forma como se deve relacionar e gerir os assuntos que lhe são comuns, acontece o que sempre acontece nestes casos (enquanto não culmina em divórcio): o mais forte dá uma paulada na cabeça do mais fraco, para que ele se cale, tendo o cuidado de não o matar, querendo apenas deixá-lo meio azamboado, até porque sabe que, de vez em quando, ele lhe é útil.
Os efeitos das Feiras do Livro de Lisboa e Porto sobre as já debilitadas tesourarias dos pequenos livreiros, começam a fazer-se sentir muito antes do seu começo e prolongam-se muito para além do seu fim. A influência na captação de público não se limita a retirar clientes às livrarias de Lisboa e Porto, chegando a outras cidades, como por exemplo Caldas da Rainha, Setúbal, Torres Vedras, Braga e muitas outras. É por isso que levanto um protesto em relação ao adiamento da data de término da Feira do Livro de Lisboa, unilateralmente decidido pela direcção da APEL.
Não vou aqui enumerar os argumentos sobre a necessidade da manutenção da existência de livreiros alternativos, até porque seria repetitivo e fastidioso para quem me lê e não pertence ao meio. Mas devo recordar que livrarias como a Trama, a Ler Devagar e a Pó dos Livros, só para dar três exemplos, fazem mais, proporcionalmente, pela divulgação da leitura, do livro e da cultura do que fazem outras grandes cadeias de livrarias pertencentes a grupos editoriais.
Se só quisermos ter no mercado editorial e livreiro catálogos de livros que apenas a preguiça mental se sente lisonjeada em ler, então é este o caminho a seguir. Mas, por outro lado, se queremos que se mantenham livrarias de qualidade que dêem resposta aos interesses e necessidades de todos, inclusivamente das minorias, então teremos de ter mais cuidado nas decisões que tomamos, apressadamente, visando unicamente o lucro imediato. Foi este o caso da decisão da direcção da APEL sobre o prolongamento, por mais uma semana, da Feira do Livro de Lisboa, com pretensos pretextos de que o mau tempo, a visita do Papa, os festejos do Benfica e o diabo a sete teriam prejudicado em muito as suas vendas.
O que diremos nós, pobres livreiros!?...

Jaime Bulhosa

11 comentários:

Isabel Castanheira disse...

Subscrevo inteiramente.
Isabel Castanheira

Fernando Frazão disse...

É por estas e por outras que não frequento a Feira do Livro.
Frequento, isso sim, as Livrarias (assim com letra grande) que não são meros depósitos de livros, com escaparates mais ou menos bonitos onde misturam Amis com Rebelo Pinto e Mcwean com Brown.
Suponho que a Isabel Castanheira que assinou o comentário anterior é a dona e mentora, juntamente com o irmão António José (que conheço muito bem), da magnifica Livraria 107 nas Caldas da Raínha que não visito há uns tempos e é uma fantástica resistente.
Nós, os leitores, temos a responsabilidade de manter viva esta atitude de grande coragem e empenhamento.
Grande abraço para vocês todos

josé luís disse...

idem (sem aspas)



[já pensaram em mandar chover durante a semana extra? parece que é só chegar lá cima com uma nespresso e falar com o malkovich...]

Anônimo disse...

A Assírio & Alvim manifestou-se contra este adiamento pelo muito respeito que tem pelos livreiros. Na consulta da APEL dissemos NÃO!!! No entanto, e por respeito aos seus leitores, não aceitou o repto «envenenado» (ao que chegámos!) de poder fechar os seus stands, enquanto outros permaneceriam abertos até ao próximo domingo. Somos, aliás, defensores de que as Feiras do Livro de Lisboa e Porto sejam encurtadas para 9/10 dias.
Luís Guerra

L. disse...

confesso - frequento a feira do livro. é um passeio anual que adoro, passo por lá 4 ou 5 vezes, compro um ou outro livro.

mas não compro livros (nem para mim, nem para oferecer) nas fnacs, nas bertrands, nas wooks, etc.

quanto a distinguir, e bem, pequenos livreiros independentes desses grandes grupos, pelos mesmos motivos e a proposito da feira do livro, cada vez mais se distinguem de fomra semelhante os grandes grupos editoriais e os editores independentes.

e tanto os livreiros independentes como os editores independentes sao cada vez mais o que resta em termos de genuina promocao da leitura e da literatura.

o resto é consumo, é o livro equiparado à pulseira ou ao acessorio da moda.

Pó dos Livros disse...

L.

Confesso, eu tb gosto da Feira do Livro. Não gosto é do abuso na duração e nos descontos praticados que representam uma concorrência completamente desleal. ;)

Jaime

Mendez disse...

"Não gosto é do abuso na duração e nos descontos praticados que representam uma concorrência completamente desleal."

Como frequentador há mais de dez anos da Feira do Livro posso garantir uma coisa. Os descontos praticados na generalidade das obras dão para rir: 10 - 20 % no máximo (com excepção dos "Livros do Dia". É mais um insulto do que outra coisa. A Feira do Livro tem a nota positiva de fazer com que os leitores se possam aperceber de livros que foram publicados e que são do seu agradado, tem a facilidade de aproximar os leitores dos seus escritores de eleição e por último permite que se chegue aos mais-que-fundos de catálogo. Se é com a intenção de se poupar não se vai à Feira do Livro - vai-se a Alfarrabistas!

É assim que eu vejo as coisas.

Não obstante compreendo que os Livreiros possam sair prejudicados. Claro que compreendo que apoio a necessidade de mudança do paradigma em que se tornou a Feira do Livro de Lisboa. Só não percebo porque razão os Livreiros não se juntam e obrigam a APEL a perder o L.

Por fim. Não sou purista - sou um amante de livros - por isso compro onde calha. No Senhor Manuel, na FNAC, na Bertrand, na Barateira. É onde surge a oportunidade. Perdoem-me a estocada final: não acredito nos defensores dos Livreiros e Anti-Grandes Superfícies Dedicadas Ao Comércio do Livro em Geral E De Tudo o Resto Em Particular – tenham paciência são muitos anos a virar frangos.

Em jeito de mea culpa: brevemente irei sorrateiramente visitar a Pó dos Livros - só tenho que descobrir como raio chego ai.

Anônimo disse...

«Protesto Livreiro»! Leio pela segunda vez e muitos mais comentários esperava de tanta gente que acompanha este blogue. Tantos blogues que andam pelo mundo dos livros! Não se juntam ao protesto porquê? Ainda não terão percebido quanto é anacrónico este modelo de feira do livro?
Ao menos isso: protestar! Lamuriar é difícil de evitar, mas protestar é muito melhor! Mesmo sabendo que não adianta sem uma associação de livreiros com a respectiva força para discutir as misérias do comércio livreiro português? Sim, sim! A lamúria deprime, o protesto dá alguma esperança.
Manuel Medeiros

sofia wahnon disse...

Para mim, confesso! foi a melhor notícia em dias... por aqui adoramos a FL, por tudo: ar livre, passeio, espaço formidável, family friend, o contacto directo com as editoras, com os autores, e porque a Feira (ainda) continua a dar lugar aos livros "mais antigos" (que por vezes não são tão antigos assim...), não repetindo o modelo que actualmente apenas nos permite comprar os livros mais recentes ou os mais vendáveis. Quando começamos a subir a Feira, gostamos também de ir em busca destes "tesouros perdidos e esquecidos". Por fim, pelos decontos,claro - podem não ser pechinchas mas para quem compra muitos livros mesmo 10% já faz diferença.

Claro que, depois da FL, lá retomaremos as nossas idas à Pó dos Livros, que tanto adoramos, e que tem uma coisa que a FL não tem: um ecrã com desenhos animados dos smurfs. Por aqui, isto faz muita diferença ;-)

a das artes disse...

Mesmo sem TGV, as pessoas não estão tão longe como isso da capital. Até porque aí podem passar despercebidos das suas misérias locais. Juntos à manada fingem fazer parte dela.
Apoio incondicionalmente o "Protesto Livreiro" de Jaime Bulhosa com a devida referência no blogue d'A das Artes.

ZMB disse...

Eu cá prefiro comprar selectivamente por via postal indo à fonte, seja ela o autor ou o editor.
Outras vezes vou ao alfarrabista onde encontro pérolas para muitas das quais não tenho dinheiro disponível no momento.
Quanto à feira do livro há muito que deixei de frequentar.