quinta-feira, junho 18

Bibliomancia

Desde os tempos mais imemoriais da História da Humanidade que os homens acreditam que o destino está escrito algures. E se está escrito poderá ser lido, e se for lido poderá ser reescrito, principalmente quando o que está escrito não lhes agrada. Foi partindo desta premissa que se desenvolveram as mais variadas técnicas de adivinhação, desde a Aritmancia (através dos números), Cafeomancia (através das borras do café), Capnomancia (através do fumo), Escatomancia (através das fezes), Onicomancia (através das unhas), etc. Enfim, um nunca mais acabar de técnicas adivinhatórias muito interessantes.
Para mim, a Bibliomancia continua a ser a melhor forma de adivinhar. Acredito que é através dos livros que o Homem tem mais hipóteses de prever o seu futuro.
Sobre este assunto, e não só, aconselho a leitura de um livro extraordinário, Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani, edições tinta-da-china.

Há muitos anos, algures numa livraria da cidade de Lisboa:
- É pá, esteve aqui um cliente que perguntou se nós tínhamos livros sobre Bibliomancia. Como eu não sei o que é, com vergonha, respondi que não tínhamos nada. Sabes o que é Bibliomancia?
- Sei, Bibliomancia é a adivinhação do futuro, através dos livros, nomeadamente dos livros sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão, mas pode ser através de outro livro qualquer.
- Ai sim… e como é que isso funciona?
- Imagina que queres saber o que nos vai acontecer quando sairmos da livraria. Pegas num livro qualquer, pode ser este do Cocteau, pões a palma da mão por baixo, abres numa página ao calhas e lês um excerto, como este, interpretando-o:

Um jovem jardineiro pediu ao seu príncipe:
«Salva-me! Esta manhã, encontrei a Morte no jardim, e ela fez-me um gesto ameaçador. Quem me dera estar esta noite, por milagre, muito longe daqui, em Ispahan.»
O Príncipe emprestou-lhe o mais veloz dos seus cavalos. Nessa tarde, ao passear pelo jardim, o príncipe deparou-se com a Morte.
«Porque foi», perguntou-lhe, «que esta manhã fizeste um gesto ameaçador ao meu jardineiro». Respondeu a Morte.«Foi um gesto de surpresa. Espantou-me vê-lo longe de Ispahan, sabendo como sei que logo à noite terei de tomá-lo em Ispahan.»

- Ouve lá, a profecia que acabaste de ler é para mim que a oiço, ou para ti que a lês?
De repente, e ao mesmo tempo, os livreiros rodam a cabeça na direcção da porta, vendo quem entra, um silêncio de Morte instala-se entre os livros.
-
Jaime Bulhosa

6 comentários:

Hotel Crônica disse...

Muito interessante post,
parabéns.

Patty disse...

E a profecia, cumpriu-se?

Blondewithaphd disse...

Talvez lendo Eça, Ramalho, Martins cheguemos à conclusão que também eles profetizaram o futuro-presente do seu país...

MCS disse...

Acho que não devia ter lido este post. chiça!

Desiderio disse...

"O amo não dizia nada e Jacques dizia que o seu capitão dizia que tudo o que nos acontece de bem e de mal cá em baixo está escrito lá em cima"

Jacques, o fatalista - Denis Diderot

Fica a dúvida: escrito como? No caso português, de acordo com que que grafia? Será que "lá em cima" são a favor ou contra o AO?

https://referendoao90.wordpress.com/

bea disse...

O conto árabe é muito bonito. Até para quem não acredite num destino traçado.