quarta-feira, junho 2

Sonho de um livreiro feito de várias leituras


As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade do que as reais.
Fernando Pessoa


Durante o último quartel do século XIX, viveu no vale entre as duas colinas mais antigas de Lisboa um livreiro adivinho. Não sabemos se era mais livreiro ou se era mais adivinho. Certo é que comercializava livros ao mesmo tempo que lia aos seus clientes o que já estava escrito lá em cima, como diria Jacques, o Fatalista. O livreiro adivinho era uma figura estranha, de rosto comprido onde assentava na perfeição um bigode e pêra de Dom Quixote, barriga de Sancho Pança e sorriso largo de Huckleberry Finn. Vestia normalmente uma espécie de túnica, igual à do fiel criado asiático do Conde de Monte Cristo. Usava o cabelo comprido muito escuro, apesar da idade, preso atrás das orelhas, e tinha pele morena, que, juntamente com os livros que sempre carregava consigo, compunham o quadro do bibliotecário de Arcimboldo.
O livreiro adivinho acreditava que fantasmas de escritores falavam com ele. Principalmente um velho poeta a quem dava o nome de La Pléiade*. Contava que, de noite, quando se encontrava sozinho na livraria, lhe apareciam os espíritos dos escritores que involuntariamente evocava enquanto lia os seus livros. Dizia que a escrita só por si de nada valia, mas, quando complementada com a leitura, tinha o poder de se transformar em magia. Durante toda a sua vida, jurou ter partilhado opiniões com Voltaire, Diderot, Flaubert, Stendhal, Chateaubriand. Falava com eles na única língua estrangeira que conhecia, o francês. Também lhe aparecia, de vez em quando, Shakespeare a falar inglês antigo, língua de que infelizmente nada percebia, mas que jurou para si mesmo, na próxima encarnação, dominar na perfeição. No entanto, gostava de ouvir Shakespeare, só por ouvir. Os espíritos destes grandes escritores não o incomodavam, pelo contrário, até porque destes encontros esotéricos resultavam, normalmente, debates acesos sobre o que considerava serem os mais importantes temas da humanidade, a Metafísica e a Escrita, tendo sido esta última inventada para satisfazer duas necessidades humanas essenciais: comunicar com os outros sem estarmos presentes, por um lado, e porque essa é a melhor forma de falar com os deuses, por outro.
Comenta-se entre os livreiros que morreu a 13 de Junho de 1888 e renasceu no mesmo dia, com o nome de Fernando Pessoa.



Jaime Bulhosa

Um comentário:

Anônimo disse...

Que belo texto! Que pequeno conto com tanto para ler!
M. Medeiros