sexta-feira, novembro 18

Uma lista de livros voluptuosos


Entra na livraria um homem aparentando ter cinquenta anos, cinquenta e picos no máximo, de tez carregada, sobrancelhas grossas, negras, aparentando uma enorme preocupação.

- Onde estão os livros de fazer levantar o ânimo?
- Como? Desculpe! Não sei a que se refere.
- Os livros voluptuosos?
- Continuo a não perceber.
- Como hei-de explicar?... Vou contar-lhe uma história tal como me foi contada por alguém que por sua vez a tinha ouvido de outro alguém que a contou a outro e assim por diante até que a história se transformou numa lenda que provavelmente pouco terá a ver com o que aconteceu na realidade:

Entre as gentes da paróquia da vila de X, uma vila igual a muitas outras e que não importa aqui descrever porque dá muito trabalho, corria o rumor de que o benemérito cidadão padre Mário, ao contrário do que precedia a sua fama, após ter começado e pela terceira vez consecutiva, deixava por ouvir a confissão de uma viúva. Os rumores confirmaram-se, os sinos da igreja tocaram e o alarme foi dado. A verdade, por mais que doesse, é de que já não havia viúva que conseguisse renovar, ao clérigo, a fé perdida. Não tinha sido, como se pensou no início, apenas um mau dia, uma indisposição passageira, ou desinteresse momentâneo pela prática da purificação das almas. O veredicto quanto ao estado debilitado do pusilânime alento do padre Mário tinha sido dado pelo milenar teste da cotovia – a cotovia é uma ave da qual se diz que, sendo levada à presença de um enfermo e se o dito enfermo estiver para morrer, ela volta a cabeça para o lado oposto e nunca o olha; se esse enfermo deve salvar-se, a ave nunca o abandona de vista, o que aliás é causa de lhe passar toda a doença 
– .
A sentença da cotovia, ao contrário do que se esperava, deixou o padre de cama, com tamanha depressão que degenerou em doença desconhecida.
Toda a gente sabe que a ausência de missa, numa pequena e pacata comunidade, causa sempre instabilidade, principalmente, entre as paroquianas casadas. Uma coisa é a expiação dos pecados das viúvas estar entregue nas santas mãos do padre Mário, outra coisa era o consolo das mesmas cair nas mãos sabe-se lá de quem, como se costuma dizer: em freguesia de viúva sem padre, ao marido Deus olhe e guarde. A novidade viajou de orelha em orelha tão rapidamente, que acabou, inevitavelmente, nos ouvidos do bispo da diocese. O bispo, palavra que vem do grego e que quer dizer supervisor, teve que supervisionar a situação. Sem perder tempo, ainda de boca aberta perante a notícia, não pôde deixar de tomar as devidas providências. Os tempos eram de crise de vocação, os padres rareavam, por isso, não houve outro remédio se não tomar medidas excepcionais. Mandou chamar, directamente do Convento do Bom Senhor dos Milagres, a freira Maria. Foi-lhe pedido em pessoa, pelo próprio bispo, que lhe rogou, por Deus Nosso Senhor, que tomasse em seus braços os cuidados do doente padre Mário. A irmã Maria, para além de afamada pelos excelentes conhecimentos de enfermagem, era também célebre por ter realizado autênticos milagres na recuperação da fé perdida de inúmeros e ilustres membros da Igreja, inclusive a do bispo. Diziam que se irmã tivesse vivido no tempo de Lázaro que também o tinha feito levantar. Mas isso era o que dizia o povo, na verdade a vida e a mentira são sinónimos. As suas técnicas, terapias e remédios eram um dos mistérios mais bem guardados da Igreja, até porque os seus pacientes, por dever de confissão, eram obrigados a guardar segredo. Mesmo assim, e apesar da fama da religiosa, o padre Mário depositava pouca fé na sua recuperação.
O povo sabia que ainda era muito cedo, tendo em conta a idade do vigário, para que o sempre renovado espírito confessionário esfriasse sem explicação. Todavia, também sabia que a cotovia, até então, nunca se tinha enganado. Se já nem os pecados das viúvas e provavelmente nem os das casadas e solteiras, o alentavam, que Deus nos perdoe, mas não seria com certeza uma freira de meia-idade, volumosa e de honrado bigode a consegui-lo. Mas a verdade é que, com muita ou pouca fé, após duas semanas de rigorosa clausura no quarto com a irmã, para a gaudiosa alegria do rebanho feminino e dos demais cidadãos, o padre Mário voltava a cumprir a sua função.

Sejamos sinceros, não há nada que desperte mais a curiosidade do que uma chave, desde que não saibamos o que ela abre. É claro, não passou muito tempo para que o segredo da freira Maria, como todos os segredos, acabasse por ser revelado. Conta-se que, um dia, uma noviça em serviço de limpeza ao humilde quarto da irmã, quando se preparava para soprar o pó da mesa-de-cabeceira, reparou que em cima dela se encontrava uma pequena chave esquecida. Como manda a lei da privacidade nos conventos, imediatamente, a experimentou na primeira gaveta que encontrou. Lá dentro, estava um velho bloco de notas. Não resistindo à bisbilhotice, descuidada, ao pegar-lhe, deixou cair em voo planado e aterrando no chão, um maço de pequenas folhas soltas. De olhos esbugalhados e mão na boca, amordaçando nervosos risos irritantes, do género ri, ri, ri, ri, a noviça, apanhando os pequenos papéis amarelados e gastos pelo tempo, leu num deles, a seguinte receita:


DO LIVRO DE TODOS OS SANTOS REMÉDIOS

Vila de X, 22 de Abril de 1979

Receituário - Para os males e maleitas de uma vida de padre em celibato, os livros podem ser uma excelente terapia, desde que sujeitemos o doente a uma longa e diversificada dieta de literatura usada.

Posologia e composição - Como renovar a fé perdida de um padre em crise:
Para que um padre levante novamente aquilo que faz dele um padre e não uma freira, deve ser sujeito, gradualmente e durante várias semanas, à leitura dos seguintes e voluptuosos livros:

1.º- Satíricon, de Petrónio
2.º- Decameron, de Giovanni Boccaccio
3.º- Fanny Hill, de John Cleland
4.º- A Minha Vida Secreta, de Casanova
5.º- Justine, de Marquês de Sade
6.º- Confissões Sexuais, de um Anónimo Russo, de anónimo
7.º- Trópico de Câncer, de Henry Miller
8.º- A História de O, de Pauline Reage
9.º- Lolita, de Vladimir Nabokov
10.º-Delta de Vénus, de Anaïs Nin

Jaime Bulhosa

5 comentários:

C.M. disse...

Bem... com esta bibliografia tão "específica" não divido que ele "levantasse"...o ânimo!

C.M. disse...

perdão, queria dizer "duvido"...

Tatiana Carlotti disse...

Estou rindo até agora. Excelente! E um receituário de primeira. Beijos, Tati

Cassandra disse...

Fantástico:).

Teresa Coutinho disse...

Há tempo que não visitava a "Pó dos Livros", e é com agrado que vejo a dinâmica do blog. Quanto aos livros voluptuosos, confeço que acho engraçado certas paródias à volta do tema.