quarta-feira, julho 14

Andava a magicar num livro


Andava a magicar num livro, num título capaz de convencer o meu filho Afonso, de 13 anos, a ler nas férias. Tinha que o obrigar a ler, mas de forma que ele não percebesse que estava de facto a ser obrigado, porque isso seria o pretexto ideal para ele, educadamente, me mandar limpar o pó aos livros. Era necessário que fosse um bom livro. De um autor consagrado, reconhecido quase unanimemente, como um livro que se pega e não se larga mais até àquela palavrinha de três letras que costuma aparecer no fim dos filmes. Fiz um exercício de memória, tentando lembrar-me de títulos que tivesse lido, mais ou menos com a idade dele, e impressionado o suficiente para terem ficado apontados numa lista de livros que um dia, eventualmente, releria. Rapidamente me veio à memória, por exemplo: A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Miguel Strogoff, de Júlio Verne, Tom Sawyer e O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, Capitães da Areia, de Jorge Amado. Porém, nenhum destes foi o escolhido. Deveria ser mais actual, ter alguma coisa a ver com a personalidade do meu filho. Lembrei-me, imediatamente, do O Deus das Moscas, de William Golding, por causa da personagem principal o Ralph. É um livro publicado originalmente em 1954 e que nos conta a história de um grupo de rapazes, únicos sobreviventes entre os passageiros de um avião que se despenha numa ilha deserta. Inicialmente, desfrutam de liberdade total, festejando a ausência de adultos. Para sobreviver unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. A supervisioná-los está Ralph, um jovem corajoso e o seu amigo, gorducho e esperto, Piggy. Apesar de Ralph tentar impor a ordem e delegar responsabilidades, muitos dos rapazes preferem celebrar a ausência de adultos nadando, brincando ou caçando a grande população de porcos selvagens que habita a ilha. O mais feroz adversário de Ralph é Jack, o líder dos caçadores, que consegue arrastar consigo a maioria dos rapazes. No entanto, à medida que o tempo passa, o frágil sentido de ordem desmorona-se. Os seus medos alcançam um significado sinistro e primitivo, até Ralph descobrir que ele e Piggy se tornaram nos alvos de caça dos restantes rapazes, embriagados pela sensação aparente de poder.
Levei-o para casa. Aproveitando o facto de ter chegado mais cedo que o meu filho, comecei a ler as primeiras páginas, de forma a refrescar a minha memória, com o intuito de, mais tarde, lhe fazer um resumo convincente.

Quarenta e cinco minutos depois:

- Olá pai!

- Humm…

Balbuciei eu, numa espécie de resposta, sem tirar os olhos do livro.

- Estás a ler um livro diferente do de ontem?

- Humm…

- Que livro é que estás a ler?

- Humm, sim… O Deus das Moscas.

- Não me digas que esse é um dos livros que queres, há montes de tempo, que eu leia? Nem penses!

Sem me aperceber da provocação, respondi.

- Humm… sim, sim é este.

- E qual é a história?

Contrariado, fiz-lhe a sinopse mais curta que pude e que acabava com a frase: «numa ilha deserta, sem a supervisão dos adultos».

Ouvindo as palavras mágicas, o meu filho diz:

- Sem adultos!? Parece fixe… dá-me aí o livro!

Irritado por me estar a interromper a leitura, sem reflectir, respondi torto:

- Não, não me chateies, agora estou eu a lê-lo!

- Ok, tchau! Disse-me ele.

Tomando consciência da estupidez que tinha acabado de cometer, pensei para com os botões da minha camisa, que por acaso era uma t-shirt: «estive tão perto». Encolhi os ombros e continuei a ler deliciado.


Jaime Bulhosa

9 comentários:

Helena disse...

Bela ideia! Não sei que é feito do meu, já lá vão tantos anos...lá terei de comprar um para o neto...:)

Miguel disse...

Excelente escolha, intenso, na minha opinião um retrato cru das relações de poder, intemporal.
Um abraço Jaime.

Julianacronica disse...

é... voc~e foi vítima de sua própria armadilha, rs.

fallorca disse...

Mas não ia sair na colecção de bolso da Leya?
Junta-o ao Kipling e até sábado, se não for antes.

Iceman disse...

Excelente ideia e excelente escolha!

sofia wahnon disse...

Bom, eu só vi o filme e achei-o arrepiante. Como disse o autor, W. Golding: o inferno seria um mundo cheio de crianças (?)

papu disse...

ahah, eu tambem sou assim, roubo livros ao meu filho... de qualquer forma acho que a melhor forma de os "obrigarmos" a ler é mesmo essa: darmos-lhes a imagem de alguém completamente embrenhado na leitura... e deliciado :)

a propósito, não sabia que havia um livro O Deus das Moscas, só vi o filme, e escrevi sobre ele, aqui:
http://papuinlondon.blogspot.com/2010/04/o-deus-das-moscas.html
para quem estiver interessado...

AM disse...

Ainda há tempos vi numa biblioteca escolar uma tradução de tal maneira má desse livro que fazia com que ele fosse aborrecido.
COMO É QUE É POSSÍVEL?!
É O DEUS DAS MOSCAS!!!
NÃO SE CONSEGUE TORNAR CHATO UM LIVRO DESSES!!!
GAAH!!!

PS: Também fazia coisas como o Ralph passava a ser o Rafael, o Piggy era o Bucha, o Simon era o Simão... etc.

Anônimo disse...

Não sendo um clássico, prefiro "Dois anos de férias" de Verne.
É o mesmo tema mas com uma visão mais optimista (irrealista?) da crianças.