segunda-feira, julho 5

Os seres que outrora foram humanos


Uma moeda e um cigarro
Outubro 2008

Passo por eles todos dias, sei que estão ali mas não os vejo. É como se fizessem parte da paisagem arquitectónica, como se fossem estátuas que já não vemos, por tantas vezes as termos olhado. Interrogo-me sobre o seu passado e imagino as suas histórias. Não são residentes, porque isso implica ter uma residência. No entanto, vivem aqui. São os sem-abrigo das Avenidas Novas.
Há uns meses atrás, num sábado de manhã, quando o movimento nesta zona da cidade diminui substancialmente em relação aos dias da semana, um sem-abrigo, cuja face me é familiar, entra na livraria. Estava com um aspecto mais limpo do que o habitual, barba feita e roupa lavada, não teria mais de cinquenta anos. Não diria que era um sem-abrigo se não o soubesse; talvez por isso se tenha aventurado a entrar sem receio. Pede-me uma moeda e um cigarro, que eu prontamente lhe cedo. Ao voltar as costas para se ir embora, inclina a cabeça, coloca a mão na orelha, como quem a abre para ouvir melhor, faz um sinal afirmativo com a mão e diz:
- A música que se ouve na loja é “In a Sentimental Mood”, de Duke Ellington.
Espantado, respondo que sim, não é toda a gente que reconhece o piano de Duke Ellington. Não parou mais, a conversa seguiu por Milles Davis, John Coltrane, Elvin Jones, Bill Evans, Chet Baker, Shirley Horn e tantos outros. Depois passou inevitavelmente para os livros: Victor Hugo, Albert Camus, Balzac, Flaubert. Decididamente, preferia os francófonos, eu quase sem dizer nada, estupefacto com tanto conhecimento, sem qualquer exagero, era das pessoas mais cultas com quem, ultimamente, tinha tido o prazer de conversar. No final, agradeceu a moeda e o cigarro e saiu.
Há uns dias, voltei a cruzar-me com ele, disse-lhe olá, ele não me reconheceu, pediu-me uma moeda e um cigarro, agradeceu e partiu.

Uma leitora compulsiva (aromas)
Fevereiro 2009

Passam os dois pela porta, ela recua, rodopia e entra. Não consegue, mais uma vez, resistir ao seu sentido mais apurado, o olfacto. Aquele aroma a papel e a tinta misturado com cola, com laivos de resina, madeira e um ligeiro perfume a café que vem do fundo da livraria. Fragrâncias que se materializam no cérebro e se transformam num impulso irresistível. Depois, linda, de cabeça apontada, num caminhar típico de um exemplar fêmea, ainda muito jovem, de raça indistinta. Literalmente, fareja as novidades. Não lhe interessa qualquer livro, têm de ser daqueles mais cuidados, feitos com papel da melhor qualidade, talvez um munken. São de certeza os que exalam as melhores essências. Quando os encontra, pára, encosta o nariz ao livro e emite um som profundo, característico do ar a entrar com força nos pulmões. Lá de fora, ouve-se uma voz firme, autoritária, mas ao mesmo tempo meiga. «Morena! Anda cá, deixa os livros. Já sabes que me trazem más recordações.» A mesma voz, mas agora dirigindo-se para nós, diz «Desculpem! É mais forte do que ela, é uma leitora compulsiva, como eu fui em tempos.»

Nota: Morena é uma cachorra rafeira que aparenta ser a única companheira de o sem-abrigo referido no texto anterior. Sempre que passa, entra e fareja os livros.

Julho 2010

Na rua da livraria há pessoas que vivem como se fossem pó, indesejado, soprado de um lado para o outro na esperança de que caia longe, se desvaneça, desapareça definitivamente, para um lugar onde, invisível aos olhos, a nossa consciência possa ser aliviada. Gorki chamava-lhes: «os seres que outrora foram humanos»; outros chamam-lhes vagabundos, ou o politicamente correcto «sem-abrigo». No sábado passado entrou na livraria um deles, que costuma ter como morada de Verão o terceiro degrau das escadas da entrada do prédio, cinquenta metros à direita da fachada da igreja. Desde a primeira vez que o vi, faz agora quase dois anos, a degradação física, e digo só física, porque a psíquica não se vê, foi impressionante, tanto que tive dificuldade em reconhecê-lo. Como sempre, entra só para pedir.

- Vês esta criatura repugnante, suja, de odor intenso, calvo, sem dentes, ranhoso, combalido, mal tratado?... Pois, o melhor que tem é a figura.

Mudo, atordoado com o inesperado murro seco no estômago infligido pela minha própria consciência, após tão desconcertante, verdadeira e cruel descrição, não fui capaz, tal como das outras vezes, de fazer mais do que apenas dar-lhe o que me pediu.


Jaime Bulhosa

6 comentários:

Maria disse...

Perturbante...

Julianacronica disse...

É algumas coisas são bizarras... É sempre difícil saber a razão das opções ou falta de opções, mas como disse a narradora da "menina que roubava livros" a humanidade me assombra...

gostei muito de teu blog, voltarei outras vezes.

Anônimo disse...

É mesmo isso, Maria: perturbante...
Para onde caminhamos?

F disse...

Fiquei sem palavras.

Aqui há tempos, enquanto conversava com uma operária do local onde trabalho, ela dizia-me que educou o filho para ser educado e para respeitar os outros. Todos. E sobretudo os pobres, porque esses já sofreram muito. Ela sabia o que dizia, pois tinha sido pobre e os seus pais também. Eu, não voltei mais a esquecer isso que ela disse.

Marta disse...

estou sem palavras..

Anônimo disse...

Um ser humano assim até perde os sonhos e a esperança. Enfim!