terça-feira, julho 13

Paciência


Entra, olha em volta, vê livros por todos os lados e, mesmo assim, faz uma pergunta que só pode ser de retórica:

- Vende livros!?

Depois, começa a pegar nos que lhe chamam mais a atenção, em todas as prateleiras e em todas as estantes, abre-os apenas durante uns segundos e tanto que lhes vinca as lombadas, manifesta com esgares e trejeitos de ombros o seu desinteresse pelos livros. Recoloca-os nas estantes ao contrário, de pernas para o ar, na horizontal, fora da ordem alfabética, na secção errada e repete a operação por diversas vezes. Quando lhe pergunto se precisa de ajuda, responde-me com outra pergunta:

- Os livros são todos ao mesmo preço?

Continua sem esperar pela resposta, na sua pesquisa do nada, até que se cansa. Dirigindo-se ao balcão, pede-me:

- Seis euros no Euromilhões, por favor.

- Desculpe, mas isto não é uma papelaria.

- Ai não!?... Então, para que é que lhe servem os livros… para decoração?

- Não, para me dar paciência.*


*Paciência: Uma forma menor de desespero disfarçada de virtude.

Bierce, Ambrose, Dicionário do Diabo, tinta-da-china 2006

2 comentários:

Carlos. Branco. disse...

Muito maravilhoso,
adoro passar aqui e sempre ler algo desse nível.

fallorca disse...

M-a-r-a-v-i-l-h-a!!!
Aperta cá esses ossos ;)