quinta-feira, julho 1

Saber ler e escrever

- Avô, como era a tua escola?

- Eu nunca fui à escola.

- Nunca!?...

- Nunca.

- Porquê?

- Olha, porque nasci há muitos anos, no tempo em que não era obrigatório levar as crianças à escola.

- Então, como é que tu sabes ler e escrever?

- A vida, por vezes, ensina-nos.

- Como assim?

- Estou a brincar, foi o meu pai que me ensinou as primeiras letras.

- E como é que ele aprendeu?

- Não sei bem, talvez sozinho. Ele era um homem muito persistente, só assim se explica porque é que o teu trisavô – como tu sabes e apesar de me chamares avô, eu sou, na realidade, teu bisavô… -

- Eu sei, avô.

- ... Então, como eu estava a dizer, o meu pai era muito persistente, sobreviveu à 1.ª Grande Guerra, enquanto Cabo Chefe da Infantaria. Sobreviveu, primeiro às balas e canhões dos alemães; depois à prisão e à fome, durante nove longos meses algures em França. Como ele escrevia muito bem, deixou, inclusive, um diário que te posso emprestar um dia para leres, onde ele relata o quotidiano da guerra e da prisão, em condições que ele descreve como desumanas.

- Desumanas, como?

- Olha, por exemplo, ter que andar à pancada com os camaradas de armas, só para poder comer um rato.

- Que nojo… avô!

- Pois é meu filho, mas é verdade.

- E como é que ele conseguiu salvar-se?

- Porque sabia ler.

- Porque sabia ler?

- Sim, naquele tempo, a maioria das pessoas não sabia ler, nem escrever. Saber ler e escrever, e naquelas circunstâncias, era ter uma grande vantagem em relação aos outros.

- Porquê?

- Porque em troca, por exemplo, de alguns alimentos, o meu pai escrevia e lia as cartas aos outros prisioneiros, o que lhe permitia ir mantendo uma saúde razoável.

- Como é que ele voltou para casa - conseguiu fugir?

- Não. Um dia pediram-lhe para ler um papel que um francês, em segredo, tinha entregue a um dos prisioneiros.

- E o que é que esse papel dizia?

- La guerre est finie! La guerre est finie!

Nota: Ouvi esta conversa entre o Senhor José António Soeiro e o seu bisneto, meu filho. Embora, o avô Zé, como lhe chamam, nunca tenha ido à escola, é ainda hoje , o mais antigo colaborador activo do jornal semanal Cidade de Tomar.

Jaime Bulhosa

5 comentários:

Tatiana Carlotti disse...

Belíssimo.

Anônimo disse...

a bisavõ dos meus filhos, minha avó, aprendeu a ler pendurada na janela da escola... não tinha sapatos, não podia entrar. Ensinou-me a ler antes de eu entrar na escola, desenhava flores como ninguém e lia todos os dias o jornal... o desejo de aprender foi sempre maior. Bisavós destes mereciam todos os meninos.

Ana C. Nunes disse...

História fantástica e muito verdadeira. Adorei!

fallorca disse...

O honradamente chamado «tarimbeiro». Espécie em extinção

Kássia Kiss disse...

Nunca se pensou em publicar esse diário?