quarta-feira, agosto 4

Feminina

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Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nos banquetes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
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Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.
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Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
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Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
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Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...
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Mário de Sá Carneiro
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Título: Verso e Prosa
Autor: Mário de Sá Carneiro
Edição: Fernando Cabral Martins / Assírio & Alvim, 2010
PVP: 28,00€

2 comentários:

SEVE disse...

Que sensibilidade a desta mulher.....

Frederico Hartley disse...

de facto não há amor como o primeiro. pode haver melhores, diferentes, mais intensos, mais verdadeiros até. mas o primeiro deixa sempre uma marca indelével na memória, e é quando o reencontramos que nos apercebemos que nunca o esquecemos. a poesia revelou-se com a "loucura" do poeta-esfinge, e foi a partir dele que surgiram todos os outros; os do orpheu primeiro, os surrealistas depois, e todos os outros depois disso. o mundo ficou diferente depois disso, e eu "nunca mais regressei ao que tinha sido", citando Al Berto. vou ali polir as unhas e já volto para ler a Feminina