terça-feira, agosto 24

Obrigadinho, ó amigo.


O aumento nos índices de escolaridade não se fez reflectir no aumento dos índices de leitura, mas sim no desejo de ser lido.

Gabriel Zaid


Um conhecido com quem me cruzei na rua, num destes dias, e que já não me via há anos, confessava, muito entusiasmado, ser um recente e feliz proprietário de mais um blogue. Acrescentava também que havia descoberto, não há muito, o prazer da escrita. Com muita exaltação, não sei bem porquê, talvez por sermos colegas da blogosfera, elogiava, exageradamente, o blogue da Pó dos Livros.

- Eh pá, o vosso blogue é muito giro, têm imenso jeito. - E engrossava, - Não sabia que também eras escritor!

- Escritor!?...

- Não, estou a falar a sério, tens imensa piada. Sabes, eu também sou, escrevo poesia no meu blogue.

- Ah!

Era inútil explicar-lhe que existe uma grande diferença entre ter um blogue e ser um escritor ou, pretender sê-lo.

- Digo-te mais… - continuava, com toda a segurança, – sabes o que tu devias fazer?

- Não faço mínima ideia.

- Devias escrever um romance.

E despediu-se, convencido de que me tinha feito um grande favor.

- Obrigadinho, ó amigo.


Jaime Bulhosa

4 comentários:

fallorca disse...

«E despediu-se, convencido de que me tinha feito um grande favor.»
Pois é, oxalá ele leia isto

José Cipriano Catarino disse...

Tínhamos um país de poetas, temos um país de escritores, só nos falta um país de leitores.

@lexis disse...

"Era inútil explicar-lhe que existe uma grande diferença entre ter um blogue e ser um escritor ou, pretender sê-lo."

Confesso que depois de ler esta passagem do seu texto me custa voltar a pensar que até tenho algum jeito para estas coisas da escrita. Afinal só tenho um blog (2 na verdade), nunca escrevi um livro, poucos lêem o que escrevo e a minha pretensão a escritora está envolta numa imagem feita da minha pessoa numa casa grande algures no meio de nenhures vivendo de palavras - revisão de textos para alimentar o estômago e escrita para alimentar a alma. Num post de um blog de uma livraria que admiro, sinto-me algo desapontada pela pouca consideração com que me pareceu ter tratado os 'bloguistas'. Tanto pela palavra "inútil", que remete para a impossibilidade de entendimento do dito conhecido, como pela comparação entre um 'bloguista' e um escritor distanciando-os de uma forma preconceituosa. O princípio do weblog é tão somente o de um diário onde mostramos o nosso dia a dia a quem nos apanha nas malhas da internet. Isso é escrever. Poderá não ser obra prima, mas é escrever. E há quem leia! Oxalá o seu conhecido leia isto. E haja quem escreva, quem leia, comente, critique e faça melhor que o anterior para termos cada vez menos Margarida Rebelo Pinto e cada vez mais Sophia Mello Breyner. Bem hajam todos os que escrevem, seja num blog seja num livro que a Pó dos Livros possa vir a divulgar.

Pó dos Livros disse...

Cara Alexis,

Creio que não entendeu o meu post, não pretendi desconsiderar ninguém que goste de escrever ou que tenha um blogue, eu próprio escrevo num. Este diálogo (que pode muito bem ser apenas fruto da minha imaginação) é essencialmente uma autocrítica ou, se quiser, um modesto apelo à leitura.

Obrigado

Jaime