sexta-feira, agosto 27

Um homem ridículo

Eu sei que sou ridículo. Não era necessária toda esta exaltação por causa de um simples livro, contudo, fiquei exasperado.

Outro dia perguntei ao meu colega Carlos – “rato de alfarrabista” –, se me conseguia arranjar por milagre, um exemplar de um livro de Dostoiévski. Calculem o que senti, quando ele me responde, de sorriso nos lábios: «já o tivemos na Pó dos Livros e vendeu-se imediatamente, por dois euros». Nem queria acreditar no que ouvia. Tratava-se de um exemplar do livro com o conto de Dostoiévsky, O Sonho de Um Homem Ridículo, editado pela Fomento Publicações, na série Mosaico, esgotada há uma data de anos e, de que eu faço colecção. Por sorte ou destino, não sei bem qual, a cliente era nossa conhecida. Sem perder tempo, ridiculamente, de joelhos ao telefone, roguei-lhe encarecidamente que me vendesse o que lhe tínhamos vendido a ela. Podem dizer, sou um homem feliz.

Agora mais calmo, com o meu exemplar na mão, transcrevo apenas um excerto do conto, porque a sua totalidade seria excessiva para um post. No entanto, em compensação, deixo-vos com um filme de Aleksandr Petrov, conhecido pelas suas animações feitas a partir de pinturas a óleo, como por exemplo a de O Velho e o Mar, de Ernest Heminghway (Oscar Animated Short Film 1999), A Sereira, de Aleksandr Pushkin ou, O Meu Amor, de Ivan Shelev (nomeado para Oscar Animated Short Film 2008), entre outros. A animação é apenas uma adaptação do conto de Dostoiévski e pode ser de difícil compreensão, para quem não conhece o texto e como quase todos os filmes, fica aquém do livro. Está legendado em espanhol. Porém, acho que vale a pena ver e ouvir este admirável filme, de uma estética russa, muito peculiar

Nota: podem encontrar uma tradução (Nina Guerra e Filipe Guerra) deste conto no livro A Submissa e outra Histórias, Editorial Presença 2006


Jaime Bulhosa


O Sonho de Um Homem Ridículo

Sou um homem ridículo. Agora chamam-me doido, mas não é nada disso; não subi de graduação e sou sempre o mesmo homem ridículo que outrora era. Mas já não me zango, presentemente. Agora todos os homens são para mim agradáveis, mesmo quando zombam de mim: é até nessas ocasiões que me são mais agradáveis. Riria de bom grado com eles, não precisamente a meu respeito mas por lhes ter amizade, se me não sentisse tão triste ao olhá-los. E sinto-me triste porque eles ignoram a verdade, ao passo que eu a conheço. Oh! como é penoso ser o único a conhecer a verdade! E dizer eu que eles jamais a conhecerão! Não poderiam compreendê-la…

Antes de ter descoberto a verdade, afligia-me muito o parecer ridículo. Oh! não parecia apenas: era-o. Fui-o sempre. Sei isto desde que tenho pensar, sabia-o já talvez aos sete anos, sabia-o antes de ir à escola. Na Universidade, quando mais estudava mais claramente me compenetrava de que era ridículo. Por assim dizer, todos os meus estudos universitários tiveram como resultado único convencerem-me doutamente de que era ridículo, cada ano trazendo-me um novo argumento. E mais tarde, ao longo da vida, as coisas seguiram uma progressão de todo em todo similar. Cada ano aumentava e confirmava em mim a consciência do meu ridículo, de todos os pontos de vista. Sempre e em toda a parte escarneciam da minha pessoa; mas ninguém adivinhava que, se existia no Mundo um Homem convencido do seu ridículo, esse homem era eu próprio. E que ninguém compreendesse isto era o que me humilhava mais que tudo. Todavia, a culpa era minha; tive sempre tanto orgulho, que nunca, por nada deste Mundo, cairia em estar de acordo com alguém quanto a ser eu um homem ridículo. Este orgulho crescia com a passagem dos anos e, certamente, se tivesse podido acrescentar permitir-me eu tal confissão perante não importa quem, creio bem que, nessa mesma tarde, despedaçaria a cabeça com um tiro de revólver. […]

[…] Sim, era naquela noite que eu devia matar-me. Tinha-o irrevogavelmente decidido dois meses antes, e, mesmo tão pobre como sou, comprara, nessa ideia, um esplêndido revólver e carregara-o logo. Os dois meses, porém decorreram por inteiro e o revólver permanecia na minha gaveta. Tudo me era indiferente, não é assim? Mas queria que isso fosse para mim menos indiferente, a morte, queria matar-me em um momento em que isso me não fosse indiferente de todo. Por quê? Não sei. De modo que, durante esses dois meses, todas as tardes ao penetrar em casa pensava em matar-me. Mas o momento não chegava. E eis que a estrelinha me anunciava, agora, que ele viera, Decidi então que seria absolutamente nessa noite. […]











6 comentários:

papu disse...

eu cá queria mesmo era ler o conto na íntegra, mesmo que seja demasiado para um post. Aliás, com o livro esgotado há uma data de anos, como é que nós, que não o conhecemos, vamos algum dia poder lê-lo? Ficamos, assim, reféns da tua vontade de o partilhar. Vá lááááá...

Pó dos Livros disse...

papu, leia por favor a nota que está no post. ;)

Obrigado

Anônimo disse...

Fico lixada!! Acabei de descobrir que o raio do livro que veio no DN vem com uma tradução diferente dessa, porra!!
Eu sei que não é o original e tal mas ao menos, quando é assim, deviam dizer "ah nao traduzimos fielmente"

sonia disse...

eu gostaria que fosse colocado em duas ou tres vezes o texto, assim, essa ávida leitora aqui do Brasil poderia se enriquecer um pouco com a boa literatura.
agradeço desde já.

luis.figueiredo disse...

Homem, assim você vai ser acusado de conluío com a Presença para tornar A Submissa... num best-seller... ponha lá o conto todo que eu por mim vou na mesma já tratar da submissa...
Obrigado.
Luís Figueiredo

Pó dos Livros disse...

Luís Figueiredo,

"A Submissa" de Dostoiévski, nos dias de hoje, um best-seller... tinha graça.

Um abraço

Jaime