quarta-feira, setembro 29

Maldita inspiração



Durante um largo período de tempo, atendi um cliente que gostava de fazer comentários maldizentes em relação aos livros e autores que comprava, como se tivesse necessidade de justificar, perante os livreiros, as suas más escolhas. Nunca entendi bem porquê, até porque os títulos, por ele escolhidos, não eram aquilo a que podemos chamar de má literatura, bem pelo contrário. Contudo, havia um autor, um poeta, em especial – esse até eu não achava grande coisa, embora nunca lho tivesse dito – por quem este cliente tinha um verdadeiro ódio de estimação. Nunca deixava de o comprar, por vezes mais do que um exemplar de cada vez, durante anos e sempre que desse autor saía um novo livro. Depois era vê-lo e ouvi-lo agitar-se, esbracejar, amaldiçoar, blasfemar, dizer todo o tipo de impropérios ao inculpável poeta. Um dia, quando mais uma vez o cliente esconjurava o rimador de apego, enchi o peito de coragem e perguntei-lhe:

- Não me leve a mal, mas se não gosta do poeta, porque é que teima em lê-lo?

O cliente, inesperadamente calmo, responde:

- Meu caro, eu não me leio tão-somente por insistência, é por desespero. Eu escrevo, isso sim, pela mais cruel das teimosias.


Jaime Bulhosa

Um comentário:

Mia disse...

... gosto dos teus posts. gosto da maneira como você escreve ...!
B-sos!