segunda-feira, setembro 13

O domínio das mulheres

Retrato de Lev Tolstoi (1887), de Ilya Efimovich Repin
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"- A propósito - recomeçou ele a falar, arrumando no saco o chá e o açúcar -, o domínio das mulheres com que todo o mundo sofre é causado pela mesma coisa.
- O domínio das mulheres como? - perguntei. - Os direitos e os privilégios pertencem aos homens.
- Sim, sim, isso mesmo - interrompeu-me -, é disso que lhe quero falar, é isso mesmo que explica o fenómeno extraordinário de a mulher, por um lado, ter sido empurrada para a mais completa humilhação, mas por outro, dominar tudo. Do mesmo modo que os judeus se vingam da opressão de que são vítimas com o seu poder financeiro, assim se processa o domínio das mulheres. Dizem os judeus: «Então, quereis que nós sejamos apenas mercadores. Está bem. Nós, mercadores, vamos apossar-nos de vós todos.» Dizem as mulheres: «Então, quereis que nós sejamos apenas objectos de sensualidade. Está bem. Então, como objectos de sensualidade, vamos escravizar-vos.» A ausência de direitos da mulher não consiste em não poder votar ou ser juíza (não há quaisquer direitos nesta actividade), mas em não poderem ser iguais ao homem nas relações sexuais, em não terem o direito de utilizar o homem, ou abster-se dele por sua própria vontade, em escolheresm um homem por sua livre vontade, em vez de serem escolhidas. Diz-me que isto está mal, não é? Muito bem, nesse caso o homem também não deve ter estes direitos. Actualmente a mulher está privada de um direito que o homem possui. Em consequência, para compensar a falta deste direito, ela influencia a sensualidade do homem e, através da sensualidade, domina-o de tal maneira que ele só formalmente faz a sua escolha, quem escolhe de facto é ela. E, ao ter aprendido uma vez a utilizar este método, a mulher abusa dele e adquire um poder terrível sobre os homens."
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Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, BI (Biblioteca de Editores Independentes), 2010, PVP: 6,00€

3 comentários:

{anita} disse...

o Tolstoi era muito sabido.

Kássia Kiss disse...

Bem, no fundo, este texto desiludiu-me um pouco porque tem um certo sabor amargo: a demonização do sexo feminino, bem ao jeito dos monges e outros homens da Igreja da Idade Média. A mulher como controladora, a fonte de todos os pecados, etc., etc. O que cria toda uma série de mitos estúpidos à volta dela.

A mulher é um ser humano como outro qualquer. E só adquire um "poder terrível sobre os homens" porque estes insistem em manter-se dependente delas.

SEVE disse...

Se Tolstoi dizia que a mulher era uma controladora então era mesmo um sábio!