sexta-feira, setembro 10

O Segredo de Joe Gould

Li-o na altura em que foi publicado pela Dom Quixote (2001) e nunca o esqueci. Recentemente, a propósito de uma conversa aqui na Pó dos livros, voltei a pegar nele. Depois de uma segunda leitura, a opinião é semelhante: é um segredo bem guardado este "pequeno" livro de Joseph Mitchell.

As duas crónicas que compõem o livro, "sobre os personagens mais variados e exóticos da cidade", foram escritas para a secção "Perfis" da revista New Yorker e publicadas "com vinte cinco anos de diferença entre elas: a primeira "O Professor Gaivota", em 1942; a segunda, que dá título ao volume, em 1964, sete anos depois da morte de Joe Gould (...)".
"Joseph Mitchell foi um do jornalistas do The New Yorker que certamente mais contribuiu para marcar o tom e o estilo desta mítica revista americana. O seus artigos, espelhos fiéis de uma cidade e dos seus habitantes, sem nunca cederem ao sentimentalismo ou à nostalgia, definem padrões que serviram de modelo a muitos outros repórteres depois dele.
Foi sobretudo através dos chamados "Perfis", como o de Joe Gould, agora publicado em português, que Mitchell trouxe às páginas da revista um infindável galeria de vencidos da vida, vagabundos, bêbados, artistas falhados, donos de bares, e que inclui ainda o dono de um circo de pulgas amestradas, uma mulher barbuda, um vendedor de baratas de corrida, e outros personagens dos bairros populares e dos cais - gente de Nova Iorque, tão viva e imprevisível como a "gente de Dublin" de Joyce, ou os personagens de Gogol, dois escritores que ele muito apreciava. "As únicas pessoas que não me interessam", escreveu Mitchell, "são as senhoras da sociedade, os dirigentes da indústria, o autores distintos, ministros, exploradores, actores de cinema (excepto W.C. Fields e Stepin Fetchit), e qualquer actriz com menos de trinta e cinco anos".

Nascido de uma família de cultivadores de tabaco e de algodão, na Carolina do Norte, Mitchell chegou aos vinte e um anos a Nova Iorque, em 1929, chamado pelo Herald Tribune que publicara uma reportagem que ele tinha enviado sobre a cultura do tabaco. Durante nove anos trabalhou para vários jornais da cidade, iniciando a sua galeria de tipos, que haveria de prosseguir em The New Yorker, onde entrou em 1938, e onde se manteve até à sua morte em 1996."
"O Segredo de Joe Gould", Joseph Mitchell, tradução de José Lima, edição Dom Quixote, 2001. Pvp - 11.00 euros

Nota: os textos entre aspas foram retirados das badanas do livro.

Débora Figueiredo

Um comentário:

Mara Carvalho disse...

Também li este livro na altura em que ele foi publicado e de vez em quando ainda me vem à memória algumas passagens ou situações. Poucas são as pessoas a quem falo dele que o conhecem ou que já o leram. Para mim é um pequeno e simples tesouro da literatura. Que espero, com o seu comentário, mais gente tenha o prazer de o encontrar. A mim deu-me vontade de relê-lo, assim que o voltar a recuperar de um empréstimo a um desses amigos que tem por hábito não devolver os livros. :)
Bem haja.