quinta-feira, setembro 30

Ontem o meu gato arranhou-me

Nota: Ontem à noite o meu gato, que se chama Book, arranhou-me enquanto lia Edgar Allen Poe. Pensei: estranho, singular acontecimento.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes, Uma fúria se apossou rapidamente de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se ausentava do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, perverso, arranquei-lhe um olho da órbita!

Edgar Allen Poe, O Gato Preto, Alma Azul


Jaime Bulhosa

4 comentários:

Olinda Gil disse...

O meu gato também me arranhou: mas nem ele era tão literário, nem eu tão agressiva. Só o proibi de permanecer em casa. Ainda hoje tenho a marca...

Kássia Kiss disse...

Boa Book!!!

(Embora o teu dono não tenha culpa).

ana disse...

Também tenho um gato que me arranha de vez em quando mas não conseguiria praticar o acto da história do Poe.

Book que identidade tão gira... e a imagem é fabulosa.
Parabéns!

CarMG disse...

Fabuloso... a facilidade como, por um acto casual, quase aleatório, uma pessoa pode agir por impulsividade contra todo o bom senso que até então imperou!
Delicioso...