sexta-feira, setembro 3

Para quem faz crítica literária e gosta de garatujar encómios em vez de panegíricas palavras na averiguação aturada de sinónimos e epítetos. *

Quando comecei a escrever, pensei que tudo devia ser definido pelo escritor. Dizer, por exemplo, «a lua» era estritamente proibido; era necessário encontrar um adjectivo, um epíteto para a lua. (Claro que eu estou a simplificar as coisas. Sei disso porque escrevi por diversas vezes La luna, mas isto é uma espécie de símbolo que eu fazia.) Bem, eu pensava que tudo tinha de ser definido e que não podiam ser usadas frases com fórmulas comuns. Eu nunca teria dito; fulano de tal entrou e sentou-se, porque isso era demasiado simples e demasiado fácil. Pensei que tinha de encontrar uma forma interessante de o dizer. Agora, descobri que esse tipo de coisas, em geral, é um aborrecimento para o leitor. Mas julgo que a raiz da questão reside no facto de que quando um escritor é jovem sente, de certa forma, que aquilo que vai dizer é bastante tolo ou óbvio, um lugar-comum, e por isso tenta escondê-lo sob uma ornamentação barroca; ou, se não for isso, caso ele se mostre moderno, faz o contrário: põe-se permanentemente a inventar palavras ou a referir-se a aviões, a comboios ou ao telégrafo e ao telefone porque está a fazer tudo o que pode para ser moderno. Depois, à medida que o tempo passa, sentimos que as nossas ideias, boas ou más, devem tentar passar essa ideia ou esse sentimento ou esse estado de espírito para o leitor. Se, ao mesmo tempo, estamos a tentar ser, digamos, um Sir Thomas Browne ou um Ezra Pound, então é impossível. Por isso acho que um escritor começa sempre por ser demasiado complicado – está a jogar diversas partidas em simultâneo. Quer proporcionar um determinado estado de espírito; ao mesmo tempo tem de ser contemporâneo, e se não for contemporâneo, então é um reaccionário e um clássico. Quanto ao vocabulário, a primeira coisa que um jovem escritor decide fazer, pelo menos neste país, é mostrar aos seus leitores que possui um dicionário, que conhece todos os sinónimos de uma palavra […]

Jorge Luis Borges em Entrevistas da Paris Review, tinta-da-china 2009


* Livreiro anónimo, depois de ter lido uma crítica a um livro sem ter percebido patavina.

5 comentários:

Kássia Kiss disse...

Adorei! Só um grande escritor podia ter dito uma coisa destas.

Abaixo as "ornamentações barrocas"!!!

Andreia AM disse...

:D

Beatrix Kiddo disse...

dou-me muito mal a ler críticas do que quer que seja, a maior parte das vezes é mesmo isso, não percebo patavina. coisas tipo "Ao mesmo tempo, a sua concepção psicadélico-fluorescente do povo alienígena Na''vi está demasiado próxima da visão tradicional do "bom selvagem", abraçando os lugares-comuns bocejantes de uma boa consciência ecológica que encontram o seu oposto ideal na vilania de papelão do militar mercenário." deixam-me confusa

ana disse...

Gosto muito de Jorge Luís Borges, por isso este trecho caiu-me do céu. Isto é, hoje, que recomecei a labuta diária este pedaço de escrita foi um grande sorriso; dá para pensar o que é a escrita e como se deve escrever ou mesmo a evolução da escrita num escritor aparentemente sereno como ele foi.

Agradeço este post.

fallorca disse...

Ui, isso é um grande livro! Quem compilou um, compila mais outro. Pelava-me por um 2.º volume ;)