terça-feira, novembro 16

Calafrio


Ler esta passagem, de um texto de um escritor italiano, fez arrepiar todos os pelos do meu corpo. Penso: será esta a nossa própria condição?

Aviso: aqueles que são mais sensíveis não a leiam.

Um cão lambe uma lima, a rugosidade da lima rasga-lhe a língua. O sangue escorre. O Cão ao apreciar o sabor do sangue continua a lamber a lima, apesar da dor que sente, nada o faz parar.

Erri De Luca, Montedidio, 2002

3 comentários:

Cláudia da Silva Tomazi - Brasil disse...

Um cão, cobaia irracional, nada sabe a respeito da generosidade, tão pouco, sobre os arrepios que causam...
Viver com generosidade, buscar motivos, ser motivo, eis o motivo. Nada justifica o desprezo a vida. Nenhum ser que vive e tão somente, para isso, cursa o embate que seja insignificante o suficiente para deixar-se vencer pelo desânimo, pela fraqueza e pela desesperança. Nenhuma dor justifica a busca de cessar o ar, a inércia, o mármore frio. Então, sua solidão de mármore, far-se-á, jazendo no exemplo da fadiga, da entrega, rompimento da crença, dos amores, dos desejos, da família, da natureza e da humanidade.
O Juízo mora na generosidade e a fraqueza do juízo, faz o cárcere da alma. Em uma alma deserta nada habita, apenas o labirinto do dia e o frio glacial da noite. No deserto todo anseio é nulo, toda liberdade é vaga, toda razão desnecessária. No deserto as tentações... No rastro dos por quês? Esperando a espreita, ao vacilo, ao abate.
Morrer é perder para o mundo, matar-se é perder para o perdão. Arrasar a vida é entregar-se ao luto desnecessário, é perturbar a memória, fazer brotar a incompreensão.

Kássia Kiss disse...

Bem, há uma teoria psicológica que diz mais ou menos isto: temos tendência para repetir, pela vida fora, as situações vividas na infância. Se nos trataram mal, ou se não nos deram a importância devida, por exemplo, repetiremos isso: procuraremos pessoas que nos tratam mal ou que nos ignoram. Penso que esta passagem tem alguma coisa a ver com isso.

Anônimo disse...

Calafrios; foi exactamente o que senti ao ler este livro. De uma extraordinária e violentíssima doçura! Fiquei completamente rendida à beleza do mesmo; diria mesmo que se trata de poesia, bela dura, doce e ácida, como a "imagem" que escolheu transcrever. Obrigada
Alexandra Moura